Muçulmano que derrubou igreja durante ataques anticristãos é condenado no Paquistão

Irfan Yousaf recebeu 10 anos de prisão por demolir uma igreja durante os ataques que destruíram 26 templos e dezenas de casas cristãs em Jaranwala.

Fonte: Guiame, com informações do EWTN NewsAtualizado: quarta-feira, 15 de julho de 2026 às 14:48
Ataques em Jaranwala deixaram igrejas incendiadas e bairros cristãos destruídos após acusações de blasfêmia em 2023. (Foto: Christian Solidarity Worldwide)
Ataques em Jaranwala deixaram igrejas incendiadas e bairros cristãos destruídos após acusações de blasfêmia em 2023. (Foto: Christian Solidarity Worldwide)

Cristãos no Paquistão comemoram a condenação de um muçulmano envolvido nos ataques anticristãos ocorridos em 2023, em Jaranwala, na província de Punjab.

Para líderes locais, a condenação é um raro caso de responsabilização efetiva por episódios de violência coletiva contra minorias religiosas.

Na segunda-feira (13), um tribunal antiterrorismo de Faisalabad condenou Irfan Yousaf, operador de guindaste, a 10 anos de prisão por sua participação nos ataques ao bairro cristão da cidade, iniciados após acusações de profanação do Alcorão.

Yousaf é um dos milhares de muçulmanos denunciados por envolvimento nos distúrbios que deixaram um rastro de destruição: 26 igrejas e mais de 80 residências da comunidade cristã foram depredadas durante os ataques.

Apesar da sentença, outros 12 acusados julgados no mesmo processo foram absolvidos por insuficiência de provas, reforçando as preocupações de líderes cristãos sobre a dificuldade de responsabilizar todos os envolvidos nos ataques.

Condenação histórica

A decisão foi recebida com entusiasmo durante um encontro promovido conjuntamente pelo Conselho Nacional de Igrejas do Paquistão (NCCP), principal órgão protestante do país, e pelo Fórum de Implementação dos Direitos das Minorias (IMRF), organização que atua na defesa das minorias religiosas.

Samuel Pyara, presidente da IMRF, afirmou que a sentença só foi possível graças ao uso de provas forenses digitais.

“A decisão foi tomada após a análise forense de um vídeo gravado por Wahida Mukhtar, uma cristã local, que mostrava Yousaf demolindo uma igreja e uma casa vizinha com a máquina. Peritos certificados pelo governo autenticaram as imagens e testemunharam perante o tribunal”, explicou Pyara à EWTN News.

Testemunhas sofreram intimidação

Segundo Pyara, testemunhas cristãs enfrentaram diversas formas de pressão durante o processo judicial.

“Um dos reclamantes, funcionário de uma fábrica de tijolos, foi pressionado pelo empregador a quitar empréstimos pendentes. A lavoura de um agricultor pronta para a colheita foi envenenada. Outros tiveram acesso às terras negado por proprietários muçulmanos, jovens perderam seus empregos e um provedor de internet a cabo viu seu negócio falir”, relatou.

Os participantes do encontro também aplaudiram de pé Wahida Mukhtar, de 30 anos, cujas imagens feitas pelo celular se tornaram provas decisivas para o caso.

Ela contou que sofreu uma fratura no pé esquerdo após ser atingida por um tijolo lançado por manifestantes enquanto registrava os ataques ao lado da família.

No mês seguinte, seu contrato como assistente do oficial de esportes do subdistrito não foi renovado. Além disso, ela precisou vender os equipamentos de sua academia depois que clientes muçulmanos deixaram de frequentar o local.

“Testemunhas cristãs que identificaram membros da multidão, ajudaram a garantir suas prisões e testemunharam no tribunal foram pressionadas a assinar acordos de delação premiada. O medo não nos deteve. Essa sentença é resultado do nosso sacrifício”, afirmou Mukhtar.

Simbolismo político

Um representante da igreja, que preferiu não se identificar, afirmou que a decisão possui também um forte valor simbólico.

“O guindaste era o símbolo eleitoral do partido Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP), atualmente banido, cujos apoiadores foram amplamente acusados de liderar a violência. A punição do operador da máquina tem um significado especial para muitos cristãos”, declarou.

O TLP é um partido islâmico de linha dura que construiu grande parte de sua influência política ao se apresentar como defensor das rígidas leis de blasfêmia do Paquistão e ao organizar grandes manifestações contra supostas ofensas religiosas.

Organizações de direitos humanos e líderes cristãos acusam simpatizantes do grupo de alimentar a hostilidade contra minorias religiosas por meio de discursos inflamados, embora o partido negue qualquer envolvimento direto nos ataques coletivos.

Líderes pedem mais responsabilização

Apesar de comemorarem a decisão judicial, líderes cristãos alertam que o episódio não deve ocultar a dificuldade do Estado paquistanês em garantir responsabilização de forma consistente em casos semelhantes.

Em comunicado divulgado na terça-feira (14), a Comissão Nacional para a Justiça e a Paz (NCJP) destacou que, desde 2009, acusados de liderar grandes ataques contra comunidades cristãs acabaram sendo absolvidos ao final dos processos judiciais.

Após os ataques de Jaranwala, mais de 300 pessoas chegaram a ser presas pelas autoridades paquistanesas. No entanto, líderes cristãos afirmam que muitos suspeitos foram posteriormente libertados sem condenações significativas.

A defensora dos direitos humanos Sharon Shamir, baseada em Lahore, afirmou que ainda é cedo para considerar que houve plena justiça pelos acontecimentos de Jaranwala.

“Chamar isso de ‘justiça feita’ é prematuro. Uma única condenação em uma tragédia tão grande quanto a de Jaranwala mal arranha a superfície”, afirmou.

“Dezenas de vidas foram destruídas, casas e igrejas foram arruinadas e uma comunidade inteira foi traumatizada. Onde estão os demais responsáveis? Quem responderá pelas falhas sistêmicas que permitiram tamanha violência? A responsabilização seletiva corre o risco de transformar a justiça em simbolismo, e não em mudança concreta.”

Shamir acrescentou que a responsabilização pelos ataques deve ser entendida como um processo contínuo, e não como um evento isolado.

“Até que esse processo esteja completo, afirmar que a justiça foi plenamente cumprida é enganoso”, concluiu.

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