Autoridades chinesas apreenderam materiais evangelísticos e forçaram uma igreja doméstica a deixar o imóvel onde realizava seus cultos em Guangzhou, na província de Guangdong, sul da China.
O episódio envolvendo a Guangfu Church começou em 16 de setembro, quando o pastor Lv e duas cristãs distribuíram leques impressos com mensagens do Evangelho nas proximidades de uma escola.
Entre as mensagens estavam frases como: “Jesus ama você”, “Todos pecaram e precisam se arrepender”, “Jesus morreu por nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia” e “Basta crer em Jesus para ser salvo”.
Os materiais também traziam versículos bíblicos, incluindo João 3:16 e João 14:6, além de convites para que os leitores recebessem Jesus como Salvador e Senhor.
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Exemplos de leques impressos com versículos bíblicos e mensagens evangelísticas. (Foto: Facebook)
Uma breve mensagem evangelística também encoraja os leitores a confiar em Jesus diante das dificuldades e incertezas da vida, e o apresenta como fonte de paz e felicidade e os convidando a crer Nele e recebê-lo como Senhor para experimentar uma vida abundante e uma família abençoada.
Cristãos estariam “promovendo um culto”
Segundo a ChinaAid, que divulgou o caso na quarta-feira (30), a polícia afirmou posteriormente ter recebido uma denúncia de que os três cristãos estariam “promovendo um culto”.
O relato dos acontecimentos foi fornecido à organização por cristãos locais.
Na manhã seguinte, agentes do Departamento de Segurança Pública do distrito de Baiyun telefonaram várias vezes para o pastor Lv, sem informar seus nomes completos ou apresentar identificação, segundo a organização.
Posteriormente, policiais levaram o proprietário do imóvel até a residência do pastor e realizaram uma busca.
Outra cristã que havia participado da distribuição dos materiais também recebeu repetidas ligações.
Ela foi orientada a levar os leques à delegacia para que fossem submetidos a “investigação e verificação”.
Materiais evangelísticos apreendidos
Na mesma manhã, policiais e agentes de segurança locais foram à residência de uma cristã de aproximadamente 60 anos e também ao espaço utilizado regularmente pela Guangfu Church para suas reuniões.
De acordo com membros da igreja, as autoridades apreenderam entre 100 e 200 leques com mensagens evangelísticas, além de aproximadamente 100 bolsas de lona.
Os cristãos afirmaram que não receberam documentos ou recibos referentes à apreensão dos materiais.
Por volta do meio-dia, a polícia local teria orientado a administração do prédio a exigir que a congregação deixasse o imóvel alugado até as 17 horas daquele mesmo dia.
Embora a igreja tivesse um contrato de locação válido, os membros retiraram seus pertences do local naquela tarde.
Desde então, a congregação enfrenta incerteza sobre onde poderá continuar realizando suas reuniões, de acordo com a ChinaAid.
Cristãos interrogados
Dois dias depois, em 18 de setembro, os cristãos envolvidos na distribuição dos leques compareceram à delegacia de Toupi, no distrito de Baiyun.
Conforme o relato divulgado pela ChinaAid, dois agentes à paisana os interrogaram durante um longo período sobre informações pessoais, frequência aos cultos, financiamento da congregação e produção de materiais evangelísticos.
Os policiais acusaram os cristãos de “perturbar a ordem pública” e realizar “proselitismo ilegal”, além de adverti-los de que poderiam sofrer detenção administrativa.
Quando uma das cristãs se recusou a assinar o registro policial e uma declaração de compromisso, um agente identificado pelo sobrenome Liao teria ameaçado investigar seus filhos e as escolas que eles frequentavam.
Posteriormente, a polícia apresentou cópias impressas das mensagens contidas nos leques. A cristã assinou uma declaração reconhecendo que o material continha uma mensagem do Evangelho e foi liberada.
Anos de pressão
A Guangfu Church foi fundada pelo pastor Ma Chao em 2005 e completou 20 anos em 2025.
De acordo com a ChinaAid, a congregação enfrenta pressão das autoridades do distrito de Baiyun há cerca de uma década.
Entre as medidas relatadas estão operações policiais, apreensão de propriedades, restrições impostas ao pastor e instalação de câmeras de vigilância na entrada do local de reuniões.
Membros também teriam sido pressionados a abandonar a congregação e frequentar igrejas ligadas ao Movimento Patriótico das Três Autonomias, organização protestante reconhecida e supervisionada pelo Estado chinês.
Em outubro de 2018, a Guangfu Church já havia perdido outro espaço de reunião após uma intervenção policial. Na ocasião, as autoridades classificaram o local como um espaço religioso não qualificado.
O novo episódio ocorre em um contexto mais amplo de restrições enfrentadas por igrejas domésticas que atuam fora das estruturas religiosas autorizadas pelo governo.
Restrições religiosas na China
A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) afirmou em seu relatório anual de 2026 que as autoridades chinesas intensificaram, durante 2025, ações contra líderes protestantes independentes e congregações domésticas.
Segundo a comissão, comunidades religiosas precisam se registrar junto ao governo para exercer legalmente suas atividades, enquanto igrejas e líderes que não se submetem ao sistema estatal podem enfrentar vigilância, assédio, multas, detenções e outras sanções.
A USCIRF recomendou novamente que a China seja designada pelos Estados Unidos como “País de Preocupação Particular” por violações sistemáticas, contínuas e graves da liberdade religiosa.
