Líder de seita que ordenava jejum até a morte é condenado por assassinato de 191 pessoas

Paul Mackenzie e outros 28 integrantes de uma seita no Quênia foram considerados culpados por 191 mortes após obrigarem seguidores a jejuar para “encontrar Jesus”

Fonte: Guiame, com informações do g1 e Reuters Atualizado: quarta-feira, 21 de outubro de 2026 às 15:49
Paul Mackenzie, líder de uma seita apocalíptica, durante julgamento em Mombaça, no Quênia. (Captura de tela/Reuters)
Paul Mackenzie, líder de uma seita apocalíptica, durante julgamento em Mombaça, no Quênia. (Captura de tela/Reuters)

O autoproclamado pastor Paul Mackenzie, líder de uma seita apocalíptica no Quênia, foi considerado culpado pelo assassinato de 191 pessoas, sendo 190 crianças e um adulto.

As mortes ocorreram após o líder religioso submeter seguidores a jejuns extremos sob a falsa promessa de que morrer de fome permitiria que eles encontrassem Jesus.

Mackenzie ordenou que os membros da sua seita deixassem seus filhos passarem fome até a morte, para poderem “encontrar Jesus”.

A condenação, anunciada nesta segunda-feira (19), representa um novo desdobramento da tragédia que ficou conhecida como o massacre de Shakahola.

Desde 2023, mais de 400 corpos foram encontrados na floresta, no leste do Quênia. A decisão judicial, porém, abrange especificamente 191 mortes, enquanto os demais casos são investigados em outros procedimentos.

As primeiras descobertas

Em abril de 2023, o Ministério do Interior do Quênia informou, por meio do Twitter (atual X), que pelo menos 109 corpos haviam sido encontrados na floresta de Shakahola, no leste do país.

Na ocasião, as autoridades investigavam a relação entre as mortes e a seita liderada por Mackenzie, que incentivava seus seguidores a jejuar até a morte sob a promessa de alcançar a salvação.

Durante as investigações, Mackenzie chegou a ser libertado incondicionalmente após uma audiência judicial, mas foi preso novamente sob suspeita de envolvimento em crimes de terrorismo, conforme relatou seu advogado, George Kariuki, à CNN.

Condenação por assassinato

Mackenzie e outros 28 integrantes da seita foram considerados culpados pelo Tribunal Superior de Mombaça, no Quênia, pela participação nas mortes ocorridas na floresta de Shakahola.

Durante a leitura da decisão, que durou cerca de oito horas, a juíza Diana Kavedza Mochache afirmou que os seguidores de Mackenzie acreditavam que ele fosse o “porta-voz de Jesus”.

De acordo com o g1, os sepultamentos realizados na floresta onde a seita estava instalada eram chamados de “casamentos”. Segundo a magistrada, os mortos “eram homenageados como tendo se casado com Jesus”.

Corpos encontrados em floresta próxima à cidade costeira de Malindi. (Captura de tela/YouTube/France24)

Mackenzie e outros líderes da seita também respondem a processos por terrorismo, radicalização e privação do direito à educação de crianças.

Esta é a primeira decisão judicial sobre as acusações de assassinato, com a definição das penas prevista para 6 de novembro.

Sem alimentação até a morte

A Reuters informou que o grupo utilizava ensinamentos religiosos e uma estrutura organizada de controle para obrigar famílias a permanecer sem alimentação até a morte.

Uma testemunha declarou que uma mulher grávida havia sido proibida de amamentar seu bebê recém-nascido, que morreu 12 dias depois.

“Ela foi instruída a jejuar até a morte e seguir seus filhos”, segundo a testemunha.

A magistrada concluiu que os acusados haviam estabelecido um sistema de jejum forçado, no qual as crianças estavam entre as primeiras vítimas.

Os réus negaram as acusações e alegaram que os seguidores participavam voluntariamente dos jejuns. A Justiça, porém, rejeitou essa versão diante das provas apresentadas.

A definição das penas está prevista para 6 de novembro. Os condenados podem receber penas de prisão perpétua.

Crianças eram as primeiras vítimas

As investigações revelaram que Mackenzie, fundador da Good News International Church (Igreja Internacional das Boas Novas), pregava que o fim do mundo estava próximo e que seus seguidores deveriam morrer de fome para alcançar o céu.

De acordo com a Justiça queniana, o líder religioso estabeleceu uma ordem para os jejuns fatais: primeiro as crianças, depois os jovens, as mulheres e, por último, os homens. Mackenzie e sua família deveriam jejuar somente ao final.

A estrutura da seita incluía responsáveis pela vigilância dos seguidores, que impediam tentativas de fuga e agrediam aqueles que resistiam às determinações.

Conforme as investigações, algumas vítimas também sofreram violência física, estrangulamento e asfixia.

A juíza destacou que Mackenzie exercia tamanha influência sobre os integrantes da comunidade que era considerado por eles um representante direto de Jesus.

O líder também condenava a educação formal e os tratamentos médicos, ensinando que escolas e medicamentos contrariavam a vontade de Deus.

Essas práticas contribuíram para o isolamento das famílias e deixaram especialmente as crianças vulneráveis à violência e à privação de alimentos.

Pai perdeu os seis filhos na seita

Entre os familiares que aguardavam o julgamento estava Stephen Mwiti, de 48 anos, que perdeu os seis filhos na floresta de Shakahola.

Em entrevista à BBC, ele relatou que apenas os restos mortais de um dos filhos, Samuel, haviam sido encontrados e sepultados.

“Sou um homem feliz por todas as pessoas terem sido condenadas”, contou ele à BBC.

“Todos os meus seis filhos morreram na floresta de Shakahola”, declarou Mwiti antes do veredito. Visivelmente emocionado, ele segurava uma fotografia da sua família. “Só encontrei e enterrei os restos do meu filho Samuel.”

“Cada cova que encontrávamos tinha pelo menos três corpos”, conta James, um dos escavadores. “Alguns dos restos eram de crianças com poucas semanas de idade.”

Mwiti acompanhou a decisão judicial segurando uma fotografia da família e manifestou alívio com a condenação dos responsáveis.

Sua ex-esposa também estava entre os acusados considerados culpados pela Justiça.

O caso de Mwiti evidencia o impacto da seita sobre famílias inteiras, muitas das quais foram desfeitas após seus integrantes abandonarem suas casas para viver sob as ordens de Mackenzie.

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