O Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), entidade que reúne mais de 10 mil pastores de diferentes denominações, divulgou uma nota de repúdio após a disseminação de uma informação falsa envolvendo evangélicos, Nossa Senhora Aparecida e a campanha presidencial de 2026.
Assinada por 14 líderes evangélicos, a manifestação ocorre depois que ganhou força nas redes sociais a alegação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) estaria ligado a uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Conforme matérias de importantes veículos, a informação é falsa. Não existe projeto de Flávio Bolsonaro com esse objetivo.
Apesar disso, o caso ganhou dimensão nacional nos últimos dias e passou a alimentar uma disputa política com forte componente religioso às vésperas do primeiro turno das eleições.
Repúdio de líderes evangélicos
Na nota, o CIMEB afirma repudiar “com veemência” o uso da informação falsa pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus apoiadores para atingir um adversário político e alerta para o risco de estimular um conflito entre católicos e evangélicos.
“Evangélicos e católicos vivem em paz. Não existe nenhuma iniciativa por parte de líderes evangélicos, junto a nenhuma candidatura, para promover o cancelamento de feriados ou cultos de qualquer religião”, afirma a entidade.
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A nota termina com a declaração: “Deus abençoe o Brasil!”.
Além de Malafaia e Cláudio Duarte, assinam a nota os pastores César Augusto, Robson Rodovalho, Estevam Hernandes, Samuel Câmara, Galdino Júnior, Jabes de Alencar, Teó Hayashi, Luiz Hermínio, Ezequiel Teixeira, Paulo Roberto, Marcus Gregório e Simonton Araújo.
Como começou a controvérsia
A discussão ganhou força na quinta-feira (24), depois de uma informação apresentada na GloboNews sobre uma suposta mobilização de evangélicos para alterar a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
Horas depois, a própria GloboNews reconheceu o erro e fez uma correção pública durante a edição da meia-noite. A emissora esclareceu que a proposta mencionada não era atual e pediu desculpas.
📹#Vídeo Globonews fala que Flávio mudaria padroeira do Brasil, faz correções e pede desculpas
— Poder360 (@Poder360) September 25, 2026
⛪️ História viralizou nas redes sociais; candidato a presidente disse que história é mentira inventada pelo PT e que respeita "todas as religiões e também quem não tem religião".… pic.twitter.com/uMpdSlYbz2
O projeto citado era, na realidade, o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT).
A proposta pretendia modificar a Lei 6.802/1980, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto mantinha o feriado nacional de 12 de outubro.
O projeto foi rejeitado quanto ao mérito e arquivado pela Câmara dos Deputados em 22 de agosto de 2008, quase duas décadas antes da atual eleição presidencial.
Não há ligação entre a autoria daquele projeto e Flávio Bolsonaro.
Apesar da correção feita pela emissora, a alegação passou a circular amplamente nas redes sociais associada ao candidato do PL.
Desinformação entrou na campanha eleitoral
A repercussão rapidamente ultrapassou as redes sociais.
A primeira-dama Janja Lula da Silva publicou uma fotografia do presidente Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
O vice-presidente Geraldo Alckmin também se pronunciou afirmando que as tradições religiosas permaneceriam “protegidas e preservadas” durante o governo.
Na segunda-feira (28), durante um ato de campanha em Belém (PA), Lula voltou ao assunto e afirmou que, enquanto fosse presidente, ninguém iria “avacalhar com Nossa Senhora Aparecida”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, negou qualquer intenção de alterar o título e afirmou que a informação estava sendo utilizada politicamente contra sua candidatura.
A Folha de S.Paulo classificou a alegação sobre o candidato como notícia falsa e informou que o episódio se tornou “munição de rivais”, sendo explorado também por integrantes da campanha adversária.
Caso chegou ao TSE e ao STF
A controvérsia também provocou decisões divergentes no Judiciário.
Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que plataformas removessem publicações que apresentassem como verdadeira a alegação de que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Na decisão, Mendonça classificou a informação como “notoriamente inverídica”. Segundo a CNN Brasil, a determinação alcançava inicialmente 1.170 links.
O ministro entendeu, em análise preliminar, que havia conteúdo “objetivamente falso, informação fabricada ou grave descontextualização” capaz de interferir na formação da vontade do eleitor.
Dois dias depois, no domingo (27), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a aplicação da decisão a uma postagem do humorista Antonio Tabet e a outros conteúdos excluídos sob o mesmo fundamento.
Dino observou que a postagem analisada não citava nominalmente Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família e considerou que não havia, naquele caso, grau suficiente de certeza sobre a ilicitude para justificar a restrição à liberdade de expressão.
Nesta segunda-feira (28), a campanha de Flávio pediu ao ministro Luiz Fux, do STF, a suspensão da decisão de Dino, argumentando que cabe à Justiça Eleitoral analisar a disseminação de desinformação capaz de interferir no processo eleitoral. O caso deverá ter novos desdobramentos no Supremo.
