Eu ainda estou procurando quem tenha feito uma campanha de oração por uma vitória conquistada. O normal é um culto de gratidão, uma oferta a um determinado departamento ou algo do gênero. Campanha, segundo os entendidos do assunto, é para pedir e não para agradecer. Talvez os campanhenses tenham levado ao pé da letra a definição etimológica de campanha: "conjunto de ações, de esforços, para se atingir um fim determinado". Não que isso seja ilegítimo. Mas é curioso.
A história que o médico Lucas retrata em seu livro no capítulo 17 sobre os dez leprosos parece retratar o comportamento humano em qualquer época da história. Vale perguntar: apenas um em cada dez volta para agradecer? Apenas o dízimo dos ex-leprosos não foi corrompido pela lepra da ingratidão? Há que se pensar.
Nos últimos meses, eu e minha esposa nos envolvemos em algumas campanhas de oração especialmente por questões de ordem familiar, as quais nos exigiram um posicionamento para além das nossas capacidades individuais. Tanto do ponto de vista intelectual, emocional e espiritual. Apelamos. Para a campanha, é claro.
Quer livramento, quer salvação, quer milagre. Não importa o motivo, a campanha de oração, em muitas ocasiões parece ser o último recurso, ou ainda, o recurso à última instância na dimensão espiritual da fé.
No nosso caso em particular, as campanhas surtiram efeito. Devo reconhecer que um dos resultados não era o esperado, mas entendi que era exatamente aquele que Deus quisera. Doeu. Mas resolveu. Aprendi que quando se entra em uma campanha de oração não se deve orar por uma resposta única. Não se deve esperar que Deus apenas cumpra o nosso desejo. Deve-se buscar a direção e resposta divinas. E Ele sempre tem razão. E Ele apenas fará o melhor por nós.
A campanha de oração deve ser a mais específica possível, e não deve ser tornar numa ladainha sem fim. Toda campanha deve ter começo, meio e fim. Antes de começá-la, devemos saber quando ela vai terminar. O apóstolo Paulo admoestou os irmãos tessalônicos a orar sem cessar. Ele não sugeriu que se fizessem campanhas sem fim e sem propósito. Orar sem cessar não significa fazer campanha eternamente. Orar incessantemente tem a ver com um estilo de vida que prioriza a intimidade com Deus.
Se de um lado a campanha não deve ser eterna, de outro lado, ela não deve ser interrompida. Mesmo sob a alegação de que o objetivo já tenha sido alcançado. Dois fatores geram a obstrução das campanhas: o desânimo ou a resposta antecipada.
Na grande maioria das vezes, o fervor característico do início da campanha tende a esfriar na medida em que o tempo passa. O nosso contrato com Deus é simplesmente ignorado. Pior: geralmente lamentamos o fato de Deus não ter nos respondido. A meu ver, um duplo pecado: a falta de persistência e a transferência do fracasso a Deus (como se isso fosse possível).
O segundo fator que interrompe a campanha é justamente a conquista do prêmio por antecipação. Entendo que as almas nobres não fazem campanha apenas para conseguir algo da parte de Deus, embora isso seja o motivo principal. Elas determinam um tempo para buscar a direção de Deus e se tornarem mais íntimas do seu Deus. Até porque, se campanha fosse a garantia da conquista de qualquer objetivo, estaríamos, na verdade, barganhando com Deus. E isso é impossível. Quando criança, lembro-me que os poucos programas radiofônicos voltados ao público evangélico, geralmente aos domingos, traziam suas poderosas campanhas. E elas se especializaram ao longo do tempo: desde o copo de água sobre o rádio (ênfase na doença), às peças íntimas (ênfase no desamor), e às carteiras de trabalho (ênfase no desemprego). A trilogia dos campanhenses sempre priorizou a busca dos objetivos fundamentais do homem: a saúde, o amor e o trabalho. Saúde para amar, e paixão pelo trabalho. Ou seria o inverso? Trabalho para amar, e amor à saúde?
Para aqueles que dependem de algum elemento físico ou natural, só é de lamentar o fato de que as atuais TVs estão cada vez mais finas que não comportam mais um copo com água sobre elas.
Talvez seja o caso de contarmos apenas com os elementos sobrenaturais da fé.
Um retorno à prática sadia da espiritualidade cristã.
NEIR MOREIRA Neir Moreira é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, acadêmico em psicologia pela UFPR e pós-graduando em Educação.
