“Setembro Amarelo” não deveria ser apenas um mês de campanha, mas um tempo de conscientização capaz de gerar aprendizados para todo o ano. Afinal, quem enfrenta desafios relacionados à saúde mental e emocional não sofre apenas durante um período específico. Essas dores atravessam dias, semanas e fases da vida, e por isso a atenção, o cuidado e a escuta precisam ser permanentes.
Penso que, com a campanha, que considero muito importante, temos uma oportunidade, até um convite, para olharmos com mais atenção para quem está ao nosso lado e também para nós mesmos.
Por isso, ao longo desta série de 5 artigos, quero conversar sobre atitudes simples que podem nos ajudar a acolher quem enfrenta sofrimento emocional. E talvez o primeiro aprendizado seja este: nem toda dor pode ser vista.
Estamos acostumados a reconhecer o sofrimento quando alguém chora, se isola ou diz que não está bem, quando percebemos uma mudança de comportamento. Mas nem sempre acontece assim. Veja algumas possibilidades:
Há pessoas sofrendo enquanto trabalham, cuidam dos filhos, cumprem seus compromissos e continuam sorrindo.
Há, inclusive, um comportamento depressivo chamado “depressão sorridente”, em que a pessoa parece alegre e feliz, mas não está.
Há também quem esteja presente em todos os lugares e, ainda assim, se sinta profundamente sozinho.
Por fora, a vida dessas pessoas parece seguir normalmente; por dentro, pode existir uma luta que ninguém conhece.
É por isso que precisamos aprender a prestar atenção. Muitas vezes, antes de alguém conseguir dizer “eu preciso de ajuda”, algumas mudanças começam a aparecer.
Pode ser um afastamento diferente do habitual, uma irritação constante, a perda de interesse por coisas que antes davam prazer, alterações importantes no sono, frases de desesperança ou comentários sobre não fazer falta.
Um sinal isolado não significa necessariamente que exista uma crise, mas mudanças persistentes merecem nosso cuidado – e, quando for o caso, a busca por uma ajuda profissional.
O problema é que, na correria dos nossos próprios dias, podemos passar pelas pessoas sem realmente percebê‑las. Perguntamos “tudo bem?”, ouvimos um rápido “tudo” e seguimos adiante. Às vezes, porém, é preciso olhar um pouco mais, permanecer um pouco mais perto e criar espaço para uma resposta diferente.
Cuidar também é fazer com que o outro perceba que não precisa esconder sua dor para continuar sendo amado, respeitado e acolhido.
Isso não significa que precisamos ter resposta para tudo. Também não significa assumir responsabilidades que pertencem aos profissionais de saúde mental. Há momentos em que o maior gesto de amor será justamente ajudar alguém a buscar acompanhamento especializado.
Mas todos nós podemos oferecer algo precioso: presença. Podemos perceber mudanças, levar uma fala de sofrimento a sério, não julgar, não minimizar e não responder à dor do outro com frases prontas. Às vezes, a pessoa não precisa que alguém resolva sua vida; precisa primeiro sentir que não está sozinha nela.
Como afirmou o psiquiatra americano William Glasser (1925-2013): “Melhorar os nossos relacionamentos é melhorar a nossa saúde mental”. As conexões que cultivamos e o cuidado que oferecemos podem se tornar parte essencial do processo de proteção e recuperação emocional.
A Bíblia nos ensina a “levar as cargas uns dos outros” (Gálatas 6:2). Talvez essa seja uma bela imagem para começarmos esta série. Não podemos caminhar pelo outro, mas podemos caminhar com ele. Não conseguimos enxergar todas as dores, mas podemos nos tornar mais atentos. Não teremos todas as respostas, mas podemos estar presentes.
Porque, muitas vezes, antes do pedido de socorro existem sinais – e um olhar cuidadoso, uma aproximação sincera e uma presença acolhedora podem abrir o caminho para que alguém finalmente encontre coragem para dizer: “Eu preciso de ajuda.”
O Pai ama você.
Darci Lourenção (@pra_darci_lourencao) é psicóloga, pastora, coach, escritora e conferencista. Foi Deã e Professora de Aconselhamento Cristão. Autora dos livros “Na intimidade há cura”, “A equação do amor”, “Viva sem compulsão” e “Devocional Minha Família no Altar”.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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