1 cristão é morto a cada 86 minutos na Nigéria, aponta relatório

Levantamento contabilizou 4.216 cristãos mortos entre janeiro e setembro de 2026 e aponta o Middle Belt como principal região atingida pela violência.

Fonte: Guiame, com informações do Christian Daily InternationalAtualizado: segunda-feira, 28 de setembro de 2026 às 12:43
Funeral de cristãos mortos em 28 de agosto de 2025, no condado de Kauru, no estado de Kaduna, na Nigéria. (Foto: Iliya Tata/Christian Daily International-Morning Star News)
Funeral de cristãos mortos em 28 de agosto de 2025, no condado de Kauru, no estado de Kaduna, na Nigéria. (Foto: Iliya Tata/Christian Daily International-Morning Star News)

Um cristão foi morto, em média, a cada 86 minutos na Nigéria nos primeiros oito meses de 2026, segundo um novo relatório sobre a perseguição religiosa no país africano.

O levantamento da organização americana Equipping The Persecuted (ETP) contabilizou 4.216 vítimas entre 1º de janeiro e 8 de setembro deste ano, o equivalente a uma média de 16,8 mortes por dia.

Intitulado Crisis in the Middle Belt: Religious Persecution and Security Failure in Nigeria (“Crise no Middle Belt: Perseguição Religiosa e Falha de Segurança na Nigéria”, em tradução livre), o estudo concentra sua análise principalmente no chamado Middle Belt, região central do país que inclui estados como Plateau, Benue e Nasarawa.

Segundo a ETP, a maior parte da violência documentada contra comunidades agrícolas cristãs nessa região apresenta indícios de motivação religiosa e envolve redes militantes organizadas.

“Quando os ataques são enquadrados apenas como confrontos entre agricultores e pastores, ações de homens armados desconhecidos ou violência rural generalizada, a perseguição em massa pode ser interpretada erroneamente como um mero problema de desenvolvimento ou uma falha policial”, afirma a ETP.

Além de conflitos por terra

O relatório reconhece que disputas tribais, conflitos pelo uso da terra, pastoreio e outras tensões comunitárias fazem parte da realidade da Nigéria e também provocam violência.

“Disputas locais por terras, recursos ou identidade comunitária podem ser fatais, mas não equivalem à destruição sistemática ou ao despovoamento de aldeias inteiras”, afirma o relatório.

Porém, segundo a organização, esses fatores não seriam suficientes para explicar o padrão observado em diversas áreas do Middle Belt, marcado por ataques a vilarejos, incêndios de igrejas, assassinatos, sequestros e deslocamento prolongado de comunidades cristãs de suas terras ancestrais.

A ETP afirma que, em muitos dos casos analisados, a destruição de aldeias, a queima de igrejas e o deslocamento permanente de comunidades estão associados a ataques com motivação religiosa e à pressão territorial exercida por grupos militantes.

“Embora as disputas comunitárias possam resultar em confrontos localizados, elas normalmente não produzem a queima sistemática de igrejas, o assassinato ou sequestro seletivo de fiéis e clérigos, o abandono de aldeias inteiras ou a negação prolongada do retorno às populações deslocadas”, afirma o relatório.

Atuação de grupos militantes

O estudo aponta redes militantes ligadas a fulanis como uma das principais ameaças identificadas em estados como Benue, Plateau, Nasarawa e Taraba, além do sul de Kaduna.

A própria organização ressalta que essa classificação se refere especificamente a grupos armados e redes militantes identificados em incidentes investigados, e não à população fulani como um todo.

“Os termos ‘atores ligados aos Fulani’ e ‘milícia étnica Fulani’ referem-se especificamente a grupos armados e redes militantes organizadas identificadas por meio de evidências em nível de incidente. Esses termos não implicam responsabilidade coletiva por parte dos civis Fulani ou da população Fulani como um todo.”

Dados do Nigeria Terror Tracker, citados no levantamento, indicam que atores militantes ligados a fulanis foram responsabilizados por 786 mortes entre 1º de janeiro e 7 de setembro de 2026.

No mesmo período, Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) foram associados, juntos, a 189 mortes.

Segundo a ETP, isso significa que, dentro da série de incidentes verificados pelo rastreador, grupos militantes ligados a fulanis causaram cerca de 4,2 vezes mais mortes que Boko Haram e ISWAP juntos no período analisado de 2026.

A organização ressalva, porém, que os dados do Nigeria Terror Tracker e o registro geral das 4.216 mortes utilizam metodologias diferentes e não devem ser tratados como bases equivalentes.

Milhões de cristãos deslocados

Além das mortes, a Equipping The Persecuted estima que mais de 5 milhões de cristãos tenham sido deslocados e mais de 600 comunidades cristãs tenham sido destruídas ou esvaziadas em consequência da violência e da insegurança no país.

“Quando famílias deslocadas permanecem em acampamentos ou assentamentos temporários enquanto grupos armados mantêm acesso a fazendas, rotas de transporte, fontes de água e aldeias, o deslocamento pode evoluir de uma emergência humanitária para um mecanismo de mudança territorial de longo prazo”, afirma o documento.

Os pesquisadores destacam que os números apresentados devem ser considerados mínimos documentados, já que muitos ataques, mortes e sequestros podem não chegar aos registros oficiais.

No caso das 4.216 mortes, a ETP informou que o número foi elaborado a partir de relatos de campo da própria organização e da TruthNigeria, testemunhos de sobreviventes e testemunhas, contatos locais e posterior processo de verificação.

Novas vítimas só são adicionadas após a conciliação das informações com o registro principal.

O relatório defende maior proteção às comunidades vulneráveis, investigações dos responsáveis pelos ataques, responsabilização de redes de apoio aos grupos armados e condições para que famílias deslocadas possam retornar com segurança às suas comunidades.

O documento afirma ainda que as agências de inteligência, antiterrorismo e de aplicação da lei dos EUA devem ampliar seu foco analítico para além do Boko Haram e do ISWAP, incluindo uma avaliação abrangente das redes militantes fulani e de outros atores violentos que operam no Middle Belt.

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