O diabo confessa tudo, menos sua participação

Os que se acham livres e cultos pensadores são os primeiros alvos a serem perseguidos por aquele que anda em derredor.

Fonte: Guiame, Sergio Renato de MelloAtualizado: quarta-feira, 22 de março de 2023 às 17:44
(Foto: Unsplash/Linus Sandvide)
(Foto: Unsplash/Linus Sandvide)

Quando as pessoas passam a ver as outras como instrumentos de realização pessoal, ou seja, quando elas acham que podem usar umas às outras para conseguir o que quiserem, o poder passa a ser a medida de todas as coisas e de todos os interesses. Além de ver a outra pessoa como um meio, o mundo perde o sal e as pessoas perdem a graça, desaparecendo relações de amizade, cortesia, pessoas amigas, pessoas dóceis. Desaparece a natural, tranquila e intuitiva resolução de conflitos e intrigas, surgindo desconfianças, presunções, cobranças, exigências, ingratidão, deveres e direitos. Surgem mais direitos do que deveres.

Como resultado desta dialética do “EU x TU”, parece que a sociedade é mesmo conflituosa nos moldes hegelianos e despreza a moral kantiana. Tudo é conflito e a solução trazida é em si um novo problema, jogando a sujeira embaixo do tapete em vez de fazer o que tem que ser feito de uma vez, ou seja, cumprir regras para que todos cumpram as regras e não para conseguirem benefícios pessoais. Com essa limpeza kantiana na moral, parece ficar mais fácil aceitar o direito do outro e o meu dever de percebê-lo, coisa rara hoje em dia.

Se levarmos este estado de coisas amargas para a religião, era o que Satanás queria, disputar poder com Deus, e ele caiu do altiplano lugar que estava. Agora, temos que suportar a presença do maligno ou do mal entre nós, nem que seja no modo simbólico, de certo o preferido dele. Por isso que se diz que o mundo jaz do maligno. A alta cultura é o alvo predileto dele, inclusive para fazer as cabeças intelectuais.

Se para fins falsamente humanitários (vide Ideologia de Gênero) o diabo não distingue entre um cristão e um satanista, com mais razão ainda ele não diferencia um bruxo satanista de um profissional do intelecto que usa de seu até respeitável dom a serviço da desfiguração da criatura divina.

A propósito, em Cartas de um diabo a seu aprendiz C. S. Lewis adverte já no seu prefácio:

Nossa raça pode cair em dois erros igualmente graves, mas diametralmente opostos, quanto aos demônios. O primeiro é não acreditar na existência deles. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e doentio por eles. Os demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros e saúdam um materialista ou um bruxo com o mesmo prazer.

Kant de uma forma ou de outra estimulou que o Diabo fosse caricaturado quando fez da religião uma serva da moral pura. O significado religioso e espiritual das coisas foi perdendo espaço para o simbolismo pagão e para uma moral sem fins elevados como a salvação. Quem acredita, agora, que o Diabo é mais do que uma caricatura vermelha com rabo, chifres e tridente que serve até de fantasia carnavalesca para peguetes, periguetes e pegadores? A macharada adora… e o Diabo também. Quem crê agora que uma Bíblia aberta no Salmo 21 é mais do que um enfeite de sala? Quem faz o sinal da cruz em frente a uma catedral é um robô com medo de quê, afinal? O que impede que as pessoas saiam por aí matando desafetos, medo de perder a salvação?

As setas malignas vão, então, diretamente para o intelecto de profissionais ou formadores de senso comum ou de crítica (jornalistas, blogueiros, editores, políticos, professores, principalmente universitários, juristas), que adoram paganismos e o secularismo para se darem bem. Eles formam opinião pública, doutrinam, fazem propaganda ideológica. Aliás, os que se acham livres e cultos pensadores são os primeiros alvos a serem perseguidos por aquele que anda em derredor.

Que não espiritualizar ou dar algum significado superior a fatos e acontecimentos é mandamento político preferido pelo establishment progressista é coisa de não se duvidar. E, infelizmente, também não é duvidoso que o clássico de C. S. Lewis possa ter virado uma mera literatura engraçada e barata para gastar o tempo enquanto os jornais escondem uma realidade em que o Diabo pinta e borda sem mostrar os seus chifres.

Sergio Renato de Mello é defensor público de Santa Catarina, colunista do Jornal da Cidade Online e Instituto Burke Conservador, autor de obras jurídicas, cristão membro da Igreja Universal do Reino de Deus.

* O conteúdo do texto acima é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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