A diáspora judaica está em perigo

Ataques, ameaças e discursos de ódio ampliam a insegurança das comunidades judaicas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil.

Fonte: Guiame, Silas AnastácioAtualizado: quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 16:37
Silas Anastácio: “Antissemitismo preocupa lideranças comunitárias, que veem um ambiente cada vez mais hostil para judeus” (Imagem ilustrativa gerada por IA)
Silas Anastácio: “Antissemitismo preocupa lideranças comunitárias, que veem um ambiente cada vez mais hostil para judeus” (Imagem ilustrativa gerada por IA)

Ataques a sinagogas, agressões nas ruas, discursos de ódio, intimidação de comerciantes judeus e grandes manifestações políticas voltaram a acender o alerta sobre a crescente insegurança enfrentada por comunidades judaicas em diversas partes do mundo.

Nos últimos anos, especialmente após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, organizações judaicas e órgãos de monitoramento registraram um aumento expressivo dos casos de antissemitismo em diferentes países. A situação preocupa lideranças comunitárias, que veem um ambiente cada vez mais hostil para judeus na Europa, nos Estados Unidos e em partes da América Latina.

Europa: aumento da tensão e da insegurança

Diversos países europeus, entre eles França, Itália, Bélgica, Espanha, Portugal, Grécia e Albânia, testemunharam grandes mobilizações populares envolvendo sindicatos, movimentos estudantis, grupos políticos e organizações da sociedade civil.

Embora muitas dessas manifestações tenham sido motivadas por reivindicações ligadas ao custo de vida, educação e políticas públicas, observadores apontam que, em alguns casos, discursos radicais e incidentes antissemitas passaram a fazer parte do cenário.

Na França, um dos países que abriga a maior comunidade judaica da Europa, episódios recentes geraram preocupação. Segundo informações divulgadas por instituições de proteção comunitária, uma sinagoga no norte de Paris foi alvo de invasão durante distúrbios ocorridos na capital, enquanto estabelecimentos vinculados a proprietários judeus também sofreram ataques e depredações.

Os protestos mobilizaram centenas de milhares de pessoas em diversas regiões do país. Além dos danos ao patrimônio público e privado, ocorreram confrontos com forças de segurança, deixando feridos e resultando em milhares de detenções.

Para muitas famílias judaicas europeias, a questão deixou de ser apenas política. O temor pela segurança pessoal e pela preservação da vida comunitária tornou-se uma preocupação constante.

Estados Unidos: números alarmantes

Nos Estados Unidos, o crescimento dos incidentes antissemitas também tem chamado atenção.

Em 2024, a Anti-Defamation League (ADL) registrou 9.354 ocorrências, o maior número desde o início dos levantamentos da organização. O aumento foi impulsionado por ameaças contra instituições judaicas, atos de vandalismo, assédio e incidentes relacionados a manifestações anti-Israel em universidades e espaços públicos.

Em 2025, a ADL registrou 6.274 incidentes, representando uma redução de 33% em relação ao ano anterior. Apesar da queda, o total permaneceu muito acima dos níveis registrados antes de 2023, tornando 2025 um dos anos mais graves da série histórica.

A entidade também destacou um dado particularmente preocupante: enquanto os casos de assédio e vandalismo diminuíram, os ataques físicos aumentaram e atingiram níveis recordes.

Entre os episódios mais graves registrados em 2025 estão ataques armados, atentados com artefatos incendiários e agressões contra indivíduos identificados como judeus. Segundo a ADL, três pessoas morreram em ataques classificados como antissemitas ao longo do ano.

O período entre 2023 e 2025 é apontado por diversas organizações judaicas como uma das fases mais desafiadoras das últimas décadas para a comunidade judaica americana.

Brasil: preocupação crescente

No Brasil, o antissemitismo também tem apresentado crescimento significativo.

De acordo com o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, divulgado pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), foram registradas 989 ocorrências formais ao longo do ano.

Embora abaixo do pico observado em 2024, quando mais de 1.700 ocorrências foram identificadas, o número permanece 149% superior ao registrado em 2022, quando haviam sido contabilizados 397 casos.

O relatório descreve a consolidação de um "novo normal", caracterizado por níveis de hostilidade substancialmente mais elevados do que aqueles observados antes da guerra entre Israel e Hamas.

Além dos incidentes registrados nas redes sociais, organizações comunitárias destacam a presença crescente de discursos extremistas e a normalização de narrativas hostis aos judeus em determinados ambientes políticos e ideológicos.

A relação entre o governo brasileiro e parte da comunidade judaica também enfrentou momentos de tensão nos últimos anos. Declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o conflito no Oriente Médio foram duramente criticadas por entidades representativas da comunidade judaica, que as consideraram ofensivas e prejudiciais ao combate ao antissemitismo.

Um desafio global

O crescimento do antissemitismo em diferentes continentes sugere a formação de um fenômeno global que exige atenção das autoridades, da sociedade civil e das lideranças democráticas.

A história demonstra que períodos de instabilidade social, polarização política e radicalização ideológica frequentemente criam ambientes favoráveis à disseminação do ódio contra minorias. Os judeus, infelizmente, continuam entre os grupos mais vulneráveis a esse processo.

Diante desse cenário, torna-se fundamental o fortalecimento das políticas de combate ao antissemitismo, a proteção das instituições comunitárias e a defesa incondicional da liberdade religiosa.

Israel permanece, para muitos judeus da diáspora, uma importante garantia de refúgio e autodeterminação nacional. Ao mesmo tempo, comunidades judaicas ao redor do mundo seguem empenhadas em preservar sua presença histórica, sua identidade e sua contribuição às sociedades nas quais estão inseridas.

O desafio dos próximos anos será assegurar que os judeus possam continuar vivendo com segurança, dignidade e liberdade, independentemente do país em que escolham construir suas vidas.

 

Silas Anastácio (@silasas15) é uma figura de destaque no fomento das relações entre o Brasil e Israel. Autor, articulador, palestrante e estrategista institucional, trabalha para fortalecer o diálogo entre líderes, defender a liberdade religiosa e combater o antissemitismo. Suas iniciativas interligam as esferas cultural, diplomática e social, reforçando a cooperação entre comunidades e instituições.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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