Em um momento em que o antissemitismo volta a ocupar espaço preocupante nas ruas, nas instituições e no debate público, as principais organizações judaicas de Nova York se unirão em uma grande manifestação de protesto no dia 23 de setembro, em frente à sede das Nações Unidas, durante a Assembleia Geral da ONU.
O objetivo do ato é claro: exortar os líderes mundiais a agir de forma decisiva para deter a crescente onda de antissemitismo. Ao reunir diferentes organizações, correntes religiosas e visões políticas, a mobilização pretende transmitir uma mensagem que ultrapassa diferenças e fronteiras: combater o ódio contra os judeus é uma responsabilidade de toda a sociedade e um compromisso indispensável com a democracia e os direitos humanos.
Participarão da iniciativa instituições como a UJA-Federation de Nova York, o Conselho de Relações da Comunidade Judaica, a Liga Antidifamação (ADL) — parceira da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) —, o Comitê Judaico Americano, a Conferência de Presidentes, a União para o Judaísmo Reformista, a Sinagoga Unida do Judaísmo Conservador, a Universidade Yeshiva, o Conselho Israelense-Americano e o StandWithUs.
A amplitude da convocação é, por si só, uma demonstração de força e unidade. Em uma comunidade marcada pela diversidade de tradições, pensamentos e posições, diferentes segmentos estarão lado a lado para defender um princípio comum: nenhuma forma de preconceito contra os judeus pode ser normalizada ou tolerada.
Desde os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, grande parte das mobilizações judaicas e pró-Israel em Nova York esteve concentrada na exigência pela libertação dos reféns sequestrados pelo Hamas. Com o passar do tempo, porém, a agenda da comunidade se ampliou diante de uma realidade cada vez mais inquietante.
O crescimento dos incidentes antissemitas, os protestos diante de instituições judaicas e as campanhas dirigidas contra pessoas identificadas como sionistas fizeram com que a segurança cotidiana das comunidades passasse a ocupar um lugar central entre as preocupações de suas lideranças.
Crimes de ódio
Segundo dados divulgados em junho, ataques antissemitas representaram cerca de 60% de todos os crimes de ódio registrados pelo Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) em maio. Nos primeiros cinco meses do ano, foram registrados 152 incidentes contra judeus — números que ajudam a dimensionar a gravidade do cenário.
Mais recentemente, manifestações de caráter antissionista passaram a aparecer inclusive em controvérsias estritamente locais, relacionadas, por exemplo, à habitação e ao mercado imobiliário em Manhattan. O fenômeno acende um alerta entre os líderes comunitários: conflitos sem qualquer relação direta com o Oriente Médio podem acabar incorporando Israel, o sionismo ou os judeus como alvos e justificativas para discursos de hostilidade.
É justamente diante dessa realidade que a manifestação de 23 de setembro ganha dimensão especial. Ao escolher a sede da ONU como cenário, a comunidade judaica de Nova York pretende levar suas preocupações para o centro do debate internacional e lembrar aos líderes reunidos na Assembleia Geral que o combate ao antissemitismo não pode ser adiado, relativizado ou condicionado às circunstâncias políticas do momento.
A mobilização também representa um chamado à responsabilidade. Quando o preconceito deixa de ser enfrentado, ele encontra novos espaços, novas linguagens e novos pretextos para se disseminar. Por isso, reconhecer seus sinais e reagir de maneira firme é essencial para impedir que a intolerância se transforme em violência.
Diante da ONU, diferentes vozes da comunidade judaica estarão unidas por uma mesma mensagem: o antissemitismo não é um problema exclusivamente judaico. É um ataque aos valores de convivência, liberdade, pluralismo e democracia que devem proteger todas as sociedades.
Mais do que uma manifestação, o ato será uma demonstração de unidade e um apelo para que o mundo não permaneça em silêncio diante do crescimento do ódio.
Silas Anastácio (@silasas15) é uma figura de destaque no fomento das relações entre o Brasil e Israel. Autor, articulador, palestrante e estrategista institucional, trabalha para fortalecer o diálogo entre líderes, defender a liberdade religiosa e combater o antissemitismo. Suas iniciativas interligam as esferas cultural, diplomática e social, reforçando a cooperação entre comunidades e instituições.
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