Quantas vezes adiamos algo importante esperando o momento ideal para começar? Deixamos decisões para depois, postergamos responsabilidades e, muitas vezes, terminamos o dia com a sensação de que poderíamos ter feito mais. Esse comportamento, conhecido como procrastinação, pode comprometer não apenas nossa produtividade, mas também nosso bem-estar emocional.
Na Psicologia, a procrastinação não é compreendida simplesmente como preguiça. Steel (2007), em sua revisão científica sobre o tema, demonstra que fatores como impulsividade, dificuldade diante de determinadas tarefas e baixa percepção de autoeficácia podem contribuir para o adiamento. Por trás desse comportamento, podem existir medo de falhar, perfeccionismo, insegurança ou dificuldade para lidar com emoções desagradáveis.
A Bíblia também nos convida a refletir sobre a maneira como administramos nosso tempo e nossas responsabilidades:
“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no estio, prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento” (Provérbios 6:6-8, ARA).
A formiga nos ensina que a sabedoria também se revela na constância dos pequenos movimentos. Na perspectiva psicológica, esse princípio encontra correspondência na importância de dividir tarefas complexas em etapas menores, estabelecer prioridades realistas e começar mesmo quando a motivação ainda não chegou.
Integrar fé e conhecimento psicológico significa reconhecer que a transformação exige reflexão, mas também atitude. Nem sempre teremos motivação, segurança ou condições ideais. Às vezes, o primeiro passo será pequeno, mas suficiente para romper o ciclo do adiamento. Quando a procrastinação se torna persistente e prejudica significativamente a vida pessoal, profissional ou acadêmica, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender suas causas e desenvolver estratégias de enfrentamento.
A vida não floresce apenas nos dias em que nos sentimos preparados, mas também naqueles em que, apesar do medo, escolhemos dar o primeiro passo. Não espere que todas as circunstâncias se alinhem para começar a realizar aquilo que carrega no coração. Há sementes que só germinam quando decidimos plantá-las, caminhos que só se revelam quando começamos a percorrê-los e propósitos que exigem de nós mais do que intenção: exigem movimento. Afinal, enquanto adiamos o começo, o tempo continua passando. Que saibamos, portanto, unir a fé que nos sustenta à coragem que nos movimenta, lembrando que até os passos mais discretos podem nos conduzir a grandes transformações.
Referências:
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
STEEL, Piers. The nature of procrastination: a meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure. Psychological Bulletin, Washington, DC, v. 133, n. 1, p. 65-94, 2007. DOI: https://doi.org/10.1037/0033-2909.133.1.65.
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Saúde Mental pelo Sírio-Libanês e Psicologia Hospitalar pelo Albert Einstein. É autora do livro “Corações Voltados para Deus” e “Inclinados para Sua Vontade”, publicados pela Reino Editorial.
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