
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga. Pós-graduada em Psicologia Clínica (PUC-SP), Saúde Mental (Sírio-Libanês) e Psicologia Hospitalar (Albert Einstein). Escritora do livro Corações Voltados para Deus e Inclinados para Sua Vontade

Há coisas que acontecem ao nosso redor que não podemos controlar. O que o outro pensa. O que o outro diz. A maneira como alguém nos trata. A opinião que alguém constrói sobre nós.
Mas existe algo que podemos aprender a cuidar: o espaço que tudo isso ocupa dentro de nós.
No ambiente de trabalho, por exemplo, podemos encontrar pessoas com quem não temos afinidade. Podemos ser criticados, mal interpretados, ignorados ou até tratados de maneira injusta. O mesmo acontece na família, nas amizades, nos relacionamentos e em tantos outros espaços da vida.
Não precisamos negar o que sentimos. Precisamos aprender a não transformar cada comportamento do outro em uma sentença sobre quem somos.
Lazarus e Folkman (1984) explicam que o modo como avaliamos cognitivamente uma situação influencia a maneira como lidamos com ela. O acontecimento existe, mas também existe a nossa interpretação sobre aquilo que aconteceu. Essa avaliação participa do processo de enfrentamento do estresse.
Por isso, diante de uma situação difícil, talvez seja importante perguntar:
O que realmente aconteceu?
O que estou interpretando sobre isso?
Existe algo que posso fazer?
Ou estou tentando controlar aquilo que não está sob meu controle?
Essa diferença pode proteger nossa saúde emocional.
Uma crítica pode trazer algo que precisamos rever. Uma injustiça pode precisar ser enfrentada. Um limite pode precisar ser estabelecido. Mas nem toda opinião precisa se transformar em uma ferida permanente.
Como psicóloga, percebo que muitas vezes não sofremos apenas pelo que aconteceu, mas também pelo significado que damos ao acontecimento.
Alguém não respondeu e pensamos: “Fiz alguma coisa errada.”
Alguém nos criticou e concluímos: “Não sou boa o suficiente.”
Alguém não gostou de nós e começamos a questionar o nosso próprio valor.
Mas uma opinião não é uma identidade.
Você pode ser mal interpretado e continuar sabendo quem é.
Pode ser rejeitado e continuar tendo valor.
Pode ser criticado e continuar reconhecendo suas qualidades.
Pode encontrar oposição sem transformar a oposição em definição de si mesmo.
A Bíblia nos orienta:
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
(PROVÉRBIOS 4:23, ARA).
Guardar o coração não significa viver indiferente. Significa discernir aquilo que merece permanecer dentro dele.
Nem toda palavra precisa morar em nós.
Nem todo olhar precisa ser interpretado.
Nem toda opinião precisa receber autoridade.
Nem todo conflito precisa atravessar a porta da nossa casa.
Jesus também nos ensina sobre a importância de não viver escravizados pela aprovação humana. Em João 12:43, encontramos uma advertência sobre aqueles que “amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (BÍBLIA, João 12:43).
Talvez uma das grandes tarefas do amadurecimento emocional seja justamente essa: deixar de depender tanto do olhar das pessoas para saber quem somos.
Não podemos escolher o que o outro fará.
Mas podemos escolher como responder.
Não podemos controlar a opinião alheia.
Mas podemos decidir se ela terá autoridade sobre nossa identidade.
Não podemos impedir que alguém nos machuque.
Mas podemos escolher não transformar aquela ferida em morada.
Há momentos em que precisamos conversar. Há momentos em que precisamos nos posicionar. Há momentos em que precisamos procurar ajuda. E há momentos em que precisamos simplesmente entregar a Deus aquilo que não conseguimos resolver.
Como escreveu Rogers (1961), o desenvolvimento humano não é um estado final, mas um processo de tornar-se. Talvez amadurecer emocionalmente seja também aprender, pouco a pouco, a viver com mais consciência sobre aquilo que sentimos e sobre o poder que concedemos às circunstâncias.
Então, da próxima vez que alguém fizer algo que mexer profundamente com você, pare por um instante.
Respire.
Observe.
Pergunte-se:
Isso realmente me pertence?
Talvez você descubra que algumas coisas precisam ser enfrentadas.
Outras, compreendidas.
E algumas precisam apenas ser colocadas nas mãos de Deus.
Porque a sua paz é preciosa demais para ser governada pela opinião de alguém.
Não entregue ao outro aquilo que Deus confiou a você: o governo do seu próprio coração.
Referências
BÍBLIA. Bíblia Sagrada: Almeida Revista e Atualizada. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
LAZARUS, Richard S.; FOLKMAN, Susan. Stress, appraisal, and coping. New York: Springer Publishing Company, 1984.
ROGERS, Carl R. On becoming a person: a therapist’s view of psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin, 1961.
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Saúde Mental pelo Sírio-Libanês e Psicologia Hospitalar pelo Albert Einstein. É autora do livro “Corações Voltados para Deus” e “Inclinados para Sua Vontade”, publicados pela Reino Editorial.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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