Ponto de prostituição no Rio diminui após chegada do Evangelho: ‘Jesus está sendo revelado’

A missionária Carla Vidal contou os frutos de 12 anos de oração e evangelismo na Vila Mimosa e falou sobre a diminuição da prostituição no local.

Fonte: Guiame, ALINE GONÇALVESAtualizado: sexta-feira, 18 de setembro de 2026 às 20:10
A missionária Carla Vidal atua há anos na Vila Mimosa, no Rio. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)
A missionária Carla Vidal atua há anos na Vila Mimosa, no Rio. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

O que começou como uma iniciativa de oração e evangelismo durante a Copa do Mundo de 2014 se tornou um trabalho missionário permanente na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. Desde então, cristãos têm atuado na região, conhecida como um dos maiores redutos de prostituição da América Latina, levando o Evangelho e servindo pessoas afetadas pela exploração sexual.

A iniciativa surgiu por meio da Exodus Cry, uma organização internacional que atua contra o tráfico humano e a exploração sexual. Durante a Copa, missionários da organização foram direcionados por Deus a estabelecer salas de oração e ações de evangelismo nos estados brasileiros que receberiam os jogos. 

No Rio de Janeiro, o trabalho foi levado para a região da Praça da Bandeira, onde os missionários identificaram uma grande necessidade de atuação por causa da prostituição no local.

A primeira sala de oração foi formada pelos americanos que vieram para o Brasil durante a Copa, com a ajuda de voluntários de algumas igrejas do Rio de Janeiro. Na época, o trabalho era liderado pelo pastor Samuel Brum. 


A missionária Carla Vidal. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Depois que os americanos voltaram para os Estados Unidos, as orações e os evangelismos continuaram na Rua Ceará. Em 2015, Michael Duque Estrada assumiu a liderança, e o trabalho seguiu com voluntários de diferentes igrejas da cidade. Foi nesse período que Carla Vidal conheceu a missão e começou a participar como voluntária.

Em 2016, Carla se tornou missionária em tempo integral. Na época, ela estava noiva de seu esposo, Marcus Vinicius, que também decidiu se dedicar à missão em tempo integral. 

“Nosso chamado missionário iniciou na adolescência. Sempre fomos envolvidos com missões. Desde cedo eu entendi que o amor de Cristo que tinha me encontrado não poderia parar em mim”, disse Carla ao Guiame

“Estar envolvidos desde cedo em missões gerou em nós convicção da vocação que temos. Nos preparamos para o momento em que seríamos missionários em tempo integral, fizemos faculdades visando utilizá-las na missão. Não nos vemos vivendo nossa vida de outra forma”, acrescentou.

Contexto histórico da região 

Depois de dois anos sem realizar atividades de evangelismo, a equipe decidiu parar para entender melhor a região e buscar em Deus como deveria continuar o trabalho. Nesse período, os missionários estudaram a história da Praça da Bandeira e descobriram que os moradores não eram favoráveis à presença da prostituição no bairro.

“Entendemos do Senhor de parar as atividades para conhecermos o peso do coração Dele para aquela região. Não queríamos que fosse apenas atividades, queríamos que o Evangelho de fato tocasse pessoas e para isso era necessário saber como e quem Jesus queria tocar”, explicou Carla. 

Segundo a missionária, a Vila Mimosa funcionava antes na região onde hoje fica a Prefeitura do Rio. Quando o prédio da prefeitura foi construído, durante a gestão de Cesar Maia, os bares de prostituição deixaram o local e passaram a funcionar em galpões vazios na Praça da Bandeira, na região da Rua Sotero Reis, onde permanecem até hoje. 


Carla e o esposo Vinicius atuando na igreja local. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

A mudança não foi bem recebida pelos moradores da região. Segundo Carla, eles chegaram a fazer um abaixo-assinado na Linha Vermelha para tentar impedir que a prostituição fosse levada para o bairro.

“Por isso, nosso trabalho atualmente é voltado para a restauração da dignidade dos moradores dessa localidade”, explicou ela.

Antes disso, o bairro era uma área residencial tranquila. Com a chegada da prostituição, a região também passou a enfrentar mais violência, afetando principalmente as famílias e as crianças que vivem no local.

“A partir desse estudo, entendemos que o Senhor não queria apenas acabar com a prostituição, mas restaurar todos os danos que ela havia gerado no bairro, através de um trabalho de prevenção com as crianças e adolescentes”, contou Carla. 


Carla ministrando em um dos projetos evangelísticos para as crianças da comunidade. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Para entender melhor as necessidades dos moradores, os missionários fizeram uma pesquisa com a população, perguntando o que eles gostariam que tivesse no bairro e como enxergavam a região. Foi a partir dessas respostas que começaram as aulas de reforço escolar, oficinas de teatro e o acompanhamento das famílias.

“Através dessa pesquisa também foi possível constatar um número significativo de pessoas analfabetas ou com fundamental incompleto. Esses dados só reforçaram a necessidade do desenvolvimento do reforço escolar”, disse ela. 

A atuação do ministério na Praça da Bandeira

Até hoje, a equipe não enfrentou resistência dos moradores ou das pessoas que trabalham na região:

“Buscamos ter um bom relacionamento com eles, sempre evidenciando que nosso trabalho é para trazer dignidade ao bairro. Os moradores sempre foram a favor dos nossos trabalhos e participam de tudo que desenvolvemos. Dentro da zona de prostituição existe uma liderança, e sempre que queremos desenvolver algo lá dentro precisamos pedir autorização”.

Atualmente, 15 crianças são atendidas pelo projeto com os encontros acontecendo uma vez por mês, com atividades lúdicas e pregação do Evangelho. 


Evento realizado com as crianças. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Além do reforço escolar e das oficinas de teatro, o projeto promove atividades em datas especiais, como o Dia das Crianças e o Natal. Na festa “Vila Feliz”, a equipe fecha uma rua, distribui brinquedos, promove brincadeiras e recreação com mensagens bíblicas.

Já no “Noite de Luz”, as famílias participam de um jantar com música ao vivo, brindes e uma apresentação das crianças, além de ouvirem sobre Jesus

“É um jantar lindo, onde evidenciamos que Jesus nasceu para trazer salvação e devolver a dignidade a eles”, afirmou a missionária. 

Outro evento que eles promovem é o “Vale Mulher”, realizado no Dia das Mães. A iniciativa surgiu depois que a pesquisa mostrou que a maioria das mulheres da região são mães solo. 

“Presenteamos uma mãe com um dia de beleza. Levamos para um salão de beleza, damos um valor para que ela compre roupas e também levamos a um restaurante da escolha dela. É um dia para que essa mulher se sinta vista e acolhida”, contou Carla. 


Evento realizado com as crianças. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Para Carla, investir nas crianças é uma forma de prevenir que elas sejam envolvidas pela prostituição:

“É possível através do nosso investimento contribuir para uma nova perspectiva de vida. Naquela localidade não possui trabalhos de desenvolvimento social. O contato que essas crianças possuem em seu dia a dia é com violência, prostituição e drogas”. 

E continuou: “Nosso trabalho possibilita que elas tenham novas oportunidades, que elas tenham consciência de se tornar bons profissionais, bons cidadãos. E o mais importante Jesus sendo revelado a partir de todo esse cuidado”.

Um dos frutos desse trabalho foi a conversão de um jovem por meio das ações realizadas na Praça da Bandeira. 

“Nós colhemos um fruto deste trabalho. Hoje, ele é acolhido e discipulado em nossa igreja local. Um menino apaixonado por Jesus”, testemunhou Carla. 

“Isso nos faz ver que todo trabalho está valendo a pena, uma criança foi afetada e um ciclo geracional de álcool ,drogas e prostituição foi quebrado. Esse menino sonha em ter sua família, ser um bom profissional e alcançar pessoas para Jesus”, acrescentou.


Evento realizado com as crianças. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Além das ações sociais, Carla afirma que a equipe também tem percebido mudanças na própria região ao longo dos anos. 

“Um dado interessante é que, desde que a sala de oração iniciou na Rua Ceará, a economia da Vila Mimosa vem caindo. Chegamos a ver notícias que está tendo uma queda de público e a zona de prostituição está tentando sobreviver”, relatou ela. 

E continuou: “Todos acham que é apenas uma questão econômica, mas nós sabemos que é resultado de mais de 10 anos orando para que Deus fizesse justiça”. 

Conforme a missionária, outro fator que também ajuda a explicar a diminuição da prostituição no local são os testemunhos de experiências sobrenaturais de algumas mulheres. 

“Já ouvimos sobre mulheres que viram um homem de branco andando pelas ruas da Vila Mimosa e elas ficaram com medo achando que era um fantasma. Algumas dessas mulheres não voltaram a trabalhar no local. Não podemos fazer nada por nossos próprios esforços para que a prostituição acabei, mas podemos ganhar esse lugar a partir da oração”, declarou ela.

“Toda renúncia vale a pena” 

Em 2016, com a chegada de novos missionários e pessoas interessadas em servir como voluntárias, surgiu a necessidade de uma igreja que pudesse discipular a comunidade e oferecer acompanhamento pastoral a quem chegava para trabalhar na região. 

Hoje, os moradores veem a presença da igreja local como algo importante para a comunidade. Recentemente, quando a equipe mudou de endereço, muitos ficaram preocupados com a possibilidade de o trabalho parar. 

Segundo Carla, a relação construída ao longo dos anos fez com que os moradores se sentissem acolhidos e valorizados.

“Ali nós formamos uma família. Os moradores têm acesso a casa dos irmãos da igreja e as crianças são cuidadas de forma integral. Nós olhamos aquela localidade como Jesus olha para eles, como pessoas dignas”, afirmou ela.



Os missionários têm o sonho de construir um instituto chamado ‘Vila Feliz’. (Foto: Arquivo pessoal concedido ao Guiame)

Para Carla, o trabalho ainda pode alcançar outras áreas da comunidade. Um dos principais sonhos da equipe é criar um instituto social na Praça da Bandeira, com projetos voltados para educação, esporte e cultura. 

“É o nosso maior sonho. O nome do Instituto será ‘Vila Feliz’. Queremos ser agentes pacificadores de toda injustiça”, disse ela.

Carla concluiu com uma mensagem para quem sente o desejo de servir no campo missionário. Para ela, é importante buscar uma vida de oração, servir na igreja e se preparar para os desafios da missão. 

Missões não é romântico, possui muitos desafios, mas Jesus é a nossa recompensa. Toda renúncia vale a pena. Não existe melhor lugar do que estar atuando na vocação que Deus nos deu”, concluiu.

Mais do Guiame

O Guiame utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência acordo com a nossa Politica de privacidade e, ao continuar navegando você concorda com essas condições