Batistas do Sul dos EUA reafirmam proibição ao pastorado feminino

Com apoio de cerca de 75% dos delegados, a maior denominação protestante dos EUA aprovou o avanço de uma emenda que reforça restrições a mulheres em cargos pastorais.

Fonte: Guiame, com informações da RNS e Baptist PressAtualizado: quinta-feira, 11 de junho de 2026 às 13:24
Delegados participam de votação durante a reunião anual da Convenção Batista do Sul (SBC), em Orlando, nos EUA. (Foto: Instagram/SBC Executive Committee)
Delegados participam de votação durante a reunião anual da Convenção Batista do Sul (SBC), em Orlando, nos EUA. (Foto: Instagram/SBC Executive Committee)

A Convenção Batista do Sul (SBC, na sigla em inglês), maior denominação protestante dos EUA, aprovou nesta quarta-feira (10) o avanço de uma emenda constitucional que reforça a proibição de mulheres no pastorado e em funções de pregação pastoral nas igrejas filiadas.

A proposta passou durante a assembleia anual da denominação, realizada em Orlando, na Flórida, com o apoio de 74,6% dos mais de 8 mil delegados das igrejas locais – os chamados mensageiros. Os demais 25,09% votaram contra a medida.

De acordo com as normas da denominação, qualquer mudança em sua constituição precisa ser aprovada por uma maioria de dois terços em dois anos consecutivos.

As duas tentativas anteriores de implementar essa proibição não atingiram esse patamar e, por isso, fracassaram.

Assim, para ser incorporada oficialmente à Constituição da SBC, a medida ainda precisará ser aprovada novamente – também por maioria de dois terços – na convenção de 2027.

Reservado a homens

Embora a Declaração de Fé Batista já afirme que o ofício pastoral é reservado aos homens, os defensores da emenda argumentam que a mudança trará maior clareza e uniformidade para determinar quais igrejas podem permanecer em “cooperação amigável” com a denominação.

A proposta foi apresentada pelo teólogo Albert Mohler, presidente do Seminário Teológico Batista do Sul.

Segundo ele, a discussão tem consumido a atenção da denominação há vários anos.

“Precisamos de clareza constitucional sobre esse tema”, afirmou Mohler. Ele desempenhou um papel central na formulação da proibição, aprovada originalmente em 2000.

A redação da emenda determina que seja excluída qualquer igreja que “afirme, nomeie ou endosse uma mulher para exercer o cargo ou função de pastora, presbítera ou supervisora, especialmente quando isso envolver pregar à congregação reunida”.

Contraste com outras denominações

A votação ocorre após uma série de debates internos sobre o papel das mulheres na liderança das igrejas batistas.

Nos últimos anos, a SBC excluiu congregações que mantinham mulheres em posições pastorais, incluindo a conhecida Saddleback Church, fundada pelo pastor Rick Warren.

Na época, o líder argumentou que os batistas do sul discordaram de diversas doutrinas, ao longo de sua história. “Por que essa questão deveria cancelar nossa irmandade?”, questionou o líder.

E defendeu: “Devemos remover igrejas por todos os tipos de pecados sexuais, pecados raciais, pecados financeiros, pecados de liderança, pecados que prejudicam o testemunho de nossa convenção. Mas as 1.129 igrejas com mulheres na equipe pastoral não pecaram”.

Embora a SBC adote uma postura restritiva, as práticas variam amplamente entre denominações evangélicas conservadoras – especialmente em círculos pentecostais e carismáticos, onde mulheres pastoras são mais comuns.

Entre os exemplos mais conhecidos está Paula White-Cain, que liderou o Escritório de Fé da Casa Branca durante a administração de Donald Trump.

Em 2024, uma proposta semelhante fracassou por não atingir a maioria qualificada exigida para alterações constitucionais, apesar de ter recebido apoio da maioria dos delegados.

Neste ano, os defensores da medida comemoraram o resultado mais expressivo obtido na votação.

Críticas à decisão

Grupos favoráveis ao ministério feminino criticaram a medida, argumentando que ela restringe o serviço das mulheres na igreja e enfraquece o princípio histórico da autonomia das igrejas locais, uma das marcas do movimento batista.

Lideranças contrárias à emenda também afirmam que a denominação deveria concentrar seus esforços em outros desafios enfrentados pela SBC, como a queda de membros e o fortalecimento das medidas de prevenção a abusos.

Antes da reunião da SBC, a organização Baptist Women in Ministry – que oferece apoio e recursos para mulheres no ministério – financiou a instalação de um outdoor em Orlando, onde o encontro está sendo realizado, em defesa das mulheres que ensinam e pregam a Bíblia.

Outdoor exibido em Orlando, em junho de 2026, pelo grupo Baptist Women in Ministry, em resposta à proposta da Convenção Batista do Sul de barrar pastoras. (Foto: Baptist Women in Ministry)

Após a divulgação do resultado da votação, o grupo afirmou em comunicado:

“As mulheres no ministério merecem afirmação, respeito e a oportunidade de seguir o chamado de Deus.” 

E acrescentou: “Estamos com o coração partido por terem sido negadas essas liberdades fundamentais durante o processo eleitoral.”

Resultado ultrapassa fronteiras

A decisão da maior denominação protestante dos EUA, que reúne cerca de 12 milhões de membros e exerce influência significativa sobre o evangelicalismo mundial, é relevante por ultrapassar as fronteiras americanas.

O resultado também reflete o debate global sobre o papel das mulheres na liderança e no ministério pastoral, tema que alcança igrejas de diversas tradições cristãs ao redor do mundo.

Além disso, a votação demonstra que, mesmo em meio às transformações culturais contemporâneas, a SBC busca reafirmar sua interpretação histórica e complementarista das Escrituras – segundo a qual homens e mulheres possuem igual valor diante de Deus, mas exercem funções distintas na liderança da igreja.

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