Crentes, loucos ou artistas?

Crentes, loucos ou artistas?

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 às 03:29

Passava das 17h30 e eu acabara de apanhar o meu filho da condução que o trouxera da escola. Felizes e de mãos dadas nós descíamos literalmente a ladeira ? uma rua de pedras de um bairro histórico de Curitiba: ele falando efusivamente, como sempre, e eu, prá variar, quieto, acompanhando o seu relato de como fora o seu dia escolar...

Enquanto eu me preocupava em não pisar num paralelepípedo solto, o qual poderia espirrar lama em nossas calças, fomos surpreendidos por uma cantoria, digamos, um tanto estranha.

- Pai, que é isso?

Tentei supor que estivesse perguntando sobre qualquer outro assunto, mas não teve jeito. Mesmo porque eu já havia identificado o som "estranho" e quis ignorá-lo.

Um misto de beleza, surpresa e estranheza embrulhou o meu íntimo. Fiquei confuso: seria um grupo de crentes cantando, um bando de loucos em pleno surto ou um elenco de artistas? Foi preciso chegar mais perto para ter certeza.

A rigor, certeza é o que nos falta muitas vezes. E nessa hora, o mais indicado é não se apressar na conclusão das hipóteses. É melhor esperar um pouco mais. Ninguém perde quando se anda alguns passos adiante. A névoa, mais do que um perigo, pode ser um estímulo para apurarmos a vista e redobrarmos o cuidado. A visão embaçada pode ser um convite para revermos a nossa acuidade visual.

"Quem tem pressa come cru" já filosofava minha mãe especialmente quando o prato do dia era o meu preferido e a fome parecia não respeitar o cronograma culinário. Saindo da cozinha para os "cômodos" da vida, aprendi que vale a pena sofrer enquanto se espera ao invés de ceder à afobação.

Se de um lado tenho a filosofia materna, lembro-me de um texto bíblico da preferência do meu pai, o qual registra um fato interessante: no capítulo 18 do segundo livro de Samuel deparamos com dois mensageiros: o primeiro, Aimaás, filho de um sacerdote, era oferecido e intruso, embora não fosse autorizado por Joabe, comandante do exército do Rei Davi, a entregar aquela mensagem; ele era bom de perna, uma espécie de "Usain Bolt" do deserto, porém, sem patrocínio e sem conteúdo; um mensageiro sem mensagem. O outro, cujo nome o texto sagrado sequer menciona, era um cuxita (termo hebraico para identificar um negro etíope), ou seja, um estrangeiro e provavelmente escravo; um perfil ideal para a trágica missão: comunicar o rei sobre a morte do seu filho, Absalão. Enquanto o cuxita tinha a mensagem, Aimaás levava apenas notícias. Um era portador oficial dos fatos; o outro, um paroleiro ávido por fofocas.

E por falar em fofoca, você já sabe da última? Bom, eu nem te conto... Especialmente porque eu julgo bem curioso esse jargão dos faladores. Quanto maior for a intensidade do "eu nem te conto" tanto maior será a curiosidade do ouvinte e o desejo incontrolável do embusteiro em falar da vida alheia.

E neste contexto bem "socializado" a religião, a loucura e a arte produzem seus protagonistas. Se de um lado a maledicência é um câncer que corrói as relações dos religiosos, os loucos não podem ser ignorados, afinal eles produzem estórias dignas de um enredo da vida real - muitas das quais são duras e tristes histórias que vida impingiu sobre o seu psiquismo, alterando-o em sua dinâmica; além disso, os artistas não apenas retratam a vida como são objetos prediletos do disse-me-disse popular. As revistas de fofocas que o digam.

Há algo que a fé, a loucura e a arte me incomodam. E somente quem as vive pode realmente exprimir tal sensação.

Os crentes não são loucos? Ou seriam os artistas? Qual a linha divisória entre a arte e a loucura? A contemplação artística não seria um viés da fé? Para o filósofo e um dos maiores teólogos do século XX, Paul Tilich, a arte manifesta a profundidade do sentido e do ser. Segundo ele, "os pacientes epilépticos procuram na arte a recomposição do sentido da existência, minado pelo preconceito e a superação do sofrimento".

Ademais, preconceito parece ser tema recorrente nestes três contextos. Quem historicamente tem sofrido com os estigmas da fé, da loucura e da arte tanto quanto os crentes, os loucos e os artistas? Quem os entende? Quem os acolhe?

Talvez seja necessária muita fé, acrescida de uma pitada de insensatez e uma dose de veia artística...

A propósito, a cantoria, razão inicial desta crônica, bem que poderia ser um soneto produzido por fieis religiosos ou uma cantiga de um quarteto de indivíduos enlouquecidos e excluídos pela sociedade que se julga sã. Poderia. Mas ela fora produzira por uma companhia de artistas.

Só não me pergunte se eles eram crentes ou loucos...

Que diferença faz?

O crente prega um evangelho que é loucura para os sábios. Os loucos produzem arte a partir da exclusão que a sociedade lhes impôs. Os artistas vivem tão intensamente a sua vocação que mais parece um credo religioso.

No palco da vida, o respeito é o tom que sobrepuja o desafino do preconceito!

Neir Moreira é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, acadêmico em psicologia pela UFPR e pós-graduando em Educação.

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