Realizei uma entrevista exclusiva com um pastor que atua no acolhimento de refugiados muçulmanos no Brasil. Por razões de segurança e para preservar sua identidade, ele será identificado apenas pelas iniciais RIB.
A seguir, apresento um currículo resumido sobre sua formação e experiência.
Formação e experiência acadêmica
RIB é graduado em Teologia por duas instituições de ensino. Complementou sua formação com diversos cursos voltados à língua, cultura, geografia, política e religião dos povos do Oriente Médio.
1. Senhor RIB, como o senhor concilia o apoio a Israel com o trabalho de acolhimento a refugiados muçulmanos? É possível amar e respeitar árabes e muçulmanos sem abrir mão da defesa do povo judeu?
Procuro separar as coisas. São necessidades distintas e ambas requerem a nossa atenção. Há a necessidade de apoiar Israel, por algumas razões:
Em primeiro lugar, porque Israel é a única Democracia no Oriente Médio e dá estabilidade para a região.
Segundo, porque Israel é um país que procura a integração, a igualdade racial, a coexistência com seus vizinhos árabes e muçulmanos; além disso, é acolhedor, é de princípios e valoriza a vida.
Terceiro, porque Israel, com sua tecnologia, suas invenções e inovações, beneficia o mundo inteiro.
Quarto, porque, infelizmente, nas últimas décadas, anos, meses e semanas, Israel tem enfrentado constantes ataques de grupos fundamentalistas, conflitos, hostilidades e guerras midiáticas.
E, por último, porque Israel tem passado por momentos de angústias e incertezas. E é preciso acolher os refugiados, independentemente de serem muçulmanos, já que milhares deles são vítimas de um sistema antidemocrático, de ideologias, de um regime totalitário, de guerras, de conflitos e de perseguições por grupos opostos. Muitos fogem de seus países apenas com a roupa do corpo e sem documentos.
Milhares perdem parentes, bens, casas, a dignidade e a esperança. Eles perdem tudo, portanto, é fundamental que ofereçamos atenção e socorro àqueles que se encontram em situação de refúgio, independentemente da etnia e religião. Trata-se de uma questão de humanidade.
Sim, é possível amar e respeitar árabes e muçulmanos e defender o povo judeu. Com conhecimento, educação, empatia, discernimento e equilíbrio, é possível conciliar as duas coisas.
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2. Na cobertura dos grandes jornais brasileiros, muitas vezes parece haver uma dicotomia: ou se está ao lado dos judeus ou ao lado dos árabes. O senhor acredita que essa visão é simplista? Como lida com essa narrativa?
Sim, para mim, é uma visão simplista, que reduz questões complexas a explicações excessivamente simples ou vagas. Como o conflito entre judeus e árabes, ou entre Israel e países árabes e muçulmanos, é muito complexo, procuro analisar muito bem os fatos e consultar fontes confiáveis antes de tomar partido e expressar minha opinião, seja do lado judeu ou do lado árabe.
Quando se trata desses dois grupos, é de suma importância que analisemos com muito cuidado e profundidade os fatos e fiquemos do lado da verdade e da justiça, para não cometermos erros. Até porque, em uma guerra ou conflito, a primeira vítima é a verdade.
Ficar simplesmente do lado dos judeus ou dos árabes, independentemente de qualquer coisa, pode ser perigoso, injusto e um grande erro.
3. Qual é, na sua visão, a meta central do islamismo? Como os muçulmanos enxergam o conceito de um “reino islâmico”?
O Islã é uma religião monoteísta que se baseia em cinco pilares: fé, oração, jejum, caridade e peregrinação. Sendo assim, sua meta central é levar os muçulmanos à total submissão a Allah e aos seus ensinos revelados no Corão, livro sagrado dos muçulmanos.
Agora, o adepto do Islã, além de praticar os cinco pilares citados acima, tem como obrigação divulgar o Islã a todas as pessoas, povos e nações. O Islã é uma religião proselitista; portanto, o objetivo do Islã e dos muçulmanos é divulgar a religião a todos os continentes, países e grupos étnicos, para que o Islã prevaleça sobre todas as religiões e seja aceito como única verdade absoluta.
O Corão diz: “Combatei-os até terminar a intriga, e prevalecer totalmente a religião de Allah... Ele foi quem enviou seu mensageiro com a orientação e a verdadeira religião, para fazê-la prevalecer sobre todas as outras, embora isso desgostasse os idólatras.” (Corão – Suratas 8:39; 9:33).
Desde o surgimento do Islã, no século VII, os muçulmanos têm feito isso. Hoje, os muçulmanos representam 24% da população mundial. Seja por convicção, imposição ou imigração, o Islã está avançando cada vez mais em todo o mundo, e o seu objetivo está sendo alcançado.
Quanto ao Reino Islâmico ou Califado, como há várias vertentes do Islã, há interpretações e visões diferentes quanto a isso. Portanto, nem todos os muçulmanos estão dispostos a viver debaixo de um regime totalmente islâmico – monárquico ou teocrático – tendo o Corão e a Sharia (lei islâmica) como guias para os aspectos espirituais, sociais, políticos, econômicos e militares.
No geral, os muçulmanos moderados não estão dispostos. Recentemente, o mundo tomou conhecimento do grupo Estado Islâmico, que se tornou o principal exemplo daqueles que buscam instaurar um Reino Islâmico ou Califado.
4. Dentro desse ideal de reino islâmico, há espaço para a existência de Israel e do povo judeu?
Infelizmente, a história mostra que a experiência judaica no califado é muito complexa. Como os muçulmanos consideram a Terra de Israel uma terra islâmica e Jerusalém a terceira cidade mais sagrada para o Islã, alguns a querem como capital de um possível futuro Estado palestino, embora o próprio Corão diga que a terra pertença aos judeus e Jerusalém sequer seja mencionada nominalmente.
O Corão diz: “Recorda-lhes de quando Moisés disse ao seu povo: Ó povo meu, lembrai-vos das mercês de Allah para convosco, quando fez surgir, dentre vós, profetas, e vos fez reis e vos concedeu o que não havia concedido a nenhum dos vossos contemporâneos. Ó povo meu, entrai na terra sagrada que Allah vos assinalou, e não retrocedais, porque, se retrocederdes, sereis desventurados”. (Corão – Surata 5:20,21).
Acredito que não haja espaço para uma nação judaica no Oriente Médio em um possível califado regional ou global. E que também não haja espaço para os judeus. Na teoria até há, mas, na prática, é diferente.
O Sheikh Ahmed Yassin, que morreu em 2004, afirmou em uma entrevista: “Não basta ter um Estado na Cisjordânia e outro em Gaza; a melhor solução é permitir que todos – cristãos, judeus e muçulmanos – vivam na Palestina, em um Estado islâmico”.
Mas, desde o dia 7 de outubro de 2023, o que temos ouvido de extremistas, simpatizantes e antissemitas é: “Do rio ao mar, Palestina livre”. O ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sempre dizia que Israel tinha que ser varrido do mapa.
Há um Hadith de Bukhari e Muslim que diz: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por matá-los e, mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: Oh! Muçulmanos, oh! Servos de Allah, há um judeu por detrás de mim, venham e matem-no, exceto se se tratar da árvore Gharkad, porque ela é uma árvore dos judeus.”
E o Corão diz: “Os judeus disseram: A mão de Allah está cerrada! Que suas mãos sejam cerradas e sejam amaldiçoados por tudo quanto disseram!... Infundimos-lhes a inimizade e o rancor, até ao Dia da Ressurreição. Toda vez que acenderem o fogo da guerra, Allah o extinguirá... Constatarás que os piores inimigos dos crentes, entre os humanos, são os judeus e os idólatras.” (Corão – Surata 5:64,82).
Por isso, é difícil acreditar que haja espaço para Israel e para os judeus em um Reino Islâmico.
5. E quanto aos cristãos: é possível que eles coexistam plenamente em sociedades majoritariamente islâmicas?
No que depender dos cristãos, sim. Mas, infelizmente, milhões deles são perseguidos todos os dias em muitos países de maioria muçulmana.
Citarei pelo menos 12 países onde há perseguição extrema contra cristãos: Somália, Iêmen, Sudão, Eritreia, Síria, Nigéria, Paquistão, Líbia, Irã, Afeganistão, Arábia Saudita e Mali (fonte: Portas Abertas).
A perseguição consiste na perda da liberdade de culto, de expressão e de ir e vir; em ataques a casas, igrejas, negócios e propriedades públicas cristãs; na perda de bens e lares; em agressões físicas e psicológicas; em abusos; em sequestros e prisões; e, em muitos casos, infelizmente, na perda da própria vida.
Por causa das fortes perseguições, muitos são forçados a fugir de suas casas e até mesmo do país. É difícil coexistir com aqueles que não desejam conviver com quem professa outra religião.
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6. Alguns afirmam que, no mundo islâmico, há uma estrutura que sustenta o sistema religioso e político, enquanto grupos extremistas buscam implantar o califado. O senhor enxerga essa dinâmica?
O mundo islâmico é muito amplo, com uma população de quase 2 bilhões de pessoas, formado por países do Norte da África, do Oriente Médio e da Ásia. Embora haja uma estrutura que sustente a religião e a política, existem diferenças entre os países na maneira de governar e de praticar o Islã.
Como existem várias vertentes do Islã – sunitas, xiitas, sufis, entre outras – há diversas formas de praticar a religião. Por exemplo, o Islã praticado na Arábia Saudita e o seu sistema de governo diferem dos do Irã, Egito, Líbano, Síria, Jordânia, Sudão e Turquia, exemplificando a diversidade geográfica e política.
Ao meu ver, com o califado não haveria essas diferenças, pois o califado é reconhecido por eruditos islâmicos como o sistema de governo que deve liderar toda a comunidade religiosa e unir os muçulmanos. Isso também está previsto nas fontes sagradas da religião.
Existiram quatro dinastias reconhecidas como os principais califados. Ao longo de vários séculos, elas foram responsáveis por liderar os muçulmanos e instituir as leis da religião como forma de governo. No entanto, desde 1924, com o fim do Império Otomano, não há mais nenhum governo que carregue esse título.
Embora alguns grupos fundamentalistas tentem reerguer o califado, como a Estado Islâmico, que tentou há alguns anos a partir do Iraque e da Síria, mas fracassou em sua missão e, até onde se sabe, enfraqueceu-se bastante, e o Hamas, que visa implantar um Estado Islâmico palestino – citei apenas dois exemplos –, eles não encontram apoio em boa parte da comunidade islâmica.
Atualmente, nenhum país ou liderança religiosa e política está interessada em fundar um governo nesses moldes. As fontes sagradas do Islã indicam que o califado só ressurgirá com a chegada do Mahdi, um homem que, segundo a profecia, será um muçulmano extremamente justo, que estabelecerá a paz no mundo e a união entre os muçulmanos. Seu governo, no entanto, será um sinal da chegada do fim dos tempos.
7. Sabemos que existem diferentes correntes dentro do islamismo, muitas vezes em conflito entre si, o que gera episódios de violência e derramamento de sangue. No entanto, há quem diga que essas divisões se dissipam quando o tema é Israel e os judeus. O senhor concorda com essa percepção?
Sim, concordo, porque, em relação a Israel e aos judeus, muitos muçulmanos costumam colocar de lado suas divergências teológicas, ideológicas e políticas para se unirem em torno de um objetivo comum.
Recentemente, na guerra entre Israel e o Hamas, iniciada em 7 de outubro de 2023, vimos a aproximação entre o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina (ambos sunitas), além do Hezbollah, dos Houthis do Iêmen, de grupos do Iraque e da Síria, e do próprio Irã (todos xiitas).
Também vimos várias manifestações ao redor do mundo em apoio aos palestinos e até ao Hamas, inclusive em países árabes e muçulmanos onde os palestinos sofrem forte discriminação e onde o Hamas não é bem visto ou bem recebido.
Ou seja, contra Israel e os judeus, vale tudo e infelizmente prevalece aquele antigo provérbio que sugere alianças temporárias entre partes com um adversário em comum: “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.
Silas Anastácio é fundador do Ministério Davar, evangelista e expositor bíblico com sólida atuação há mais de uma década em temas relacionados ao Estado de Israel e à comunidade judaica. Também desempenha papel estratégico nos bastidores da mídia evangélica, contribuindo para a articulação e divulgação de conteúdos que fortalecem os valores da fé cristã.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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