
René Breuel é um escritor paulistano que mora em Roma, na Itália. Autor da obra Não é fácil ser pai (Mundo Cristão), possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá.

Esse é o quarto de seis artigos de uma série sobre a fé e a saúde mental, que exploraram até aqui:
Os cristãos podem sofrer de doenças mentais?
Saúde mental: Do estigma religioso à compaixão de Jesus
4 práticas cristãs para o cuidado da saúde mental
Quais são os desafios causados por desequilíbrios emocionais e mentais aos nossos relacionamentos? É uma pergunta fundamental, pois 1 em 4 famílias sofre nessa área – e o seu sofrimento é sistêmico, silencioso, pouco claro e fonte de divergências e tensões. [1]
1. O sofrimento é sistêmico
O corpo humano é um sistema interconectado de vários órgãos que contribuem ao bem-estar de uma pessoa. Se um desses órgãos falhar, por exemplo produzindo hormônios em excesso ou em quantidades reduzidas, isso afetará todo o corpo, que tentará compensar aquela anormalidade.
Algo parecido acontece com outro sistema: a família. Os nossos relacionamentos nos interconectam. Quando não funcionamos ou amamos bem, o bem-estar da inteira família é comprometido. Segundo Julie Tallard,
“Os efeitos da doença mental não se limitam apenas às pessoas que sofrem desses transtornos... A doença mental é um mal que tira os indivíduos e as famílias do equilíbrio e da harmonia. A doença mental, portanto, é uma doença familiar... que leva milhões de famílias à crise.” [2]
2. As famílias sofrem em silêncio
Doenças físicas são visíveis, evocam compaixão e podem ser compartilhadas abertamente. Alguém que sofre de câncer, por exemplo, pode até pedir orações nas mídias sociais e receber muito apoio e encorajamento.
No caso de desafios emocionais e mentais, porém, muitas vezes não é sábio compartilhá-los abertamente. Muitas pessoas não sabem como responder ou reagem de maneiras que machucam, por exemplo com ansiedade, respostas simplistas, julgamento o distanciamento.
A dificuldade de explicar a sua dor aumenta o sofrimento dessas famílias. “Muitas famílias permanecem presas nesse isolamento e silêncio por anos, escondendo seus medos, secretamente esperando e orando por soluções. Muitas acreditam que os problemas acabarão se simplesmente esperarem que tudo passe.” [3]
3. As famílias sofrem sem saber o porquê
Às vezes membros da família passam anos sofrendo, clamando a Deus em oração ou se medicando sem entender as causas dos seus sintomas. A chegada de diagnósticos médicos claros ajudam a entender as causas e os efeitos de um desafio de saúde mental sobre o lar. Mas até lá, o seu sofrimento pode ser extremo, incoerente e debilitante.
Segundo David Karp,
“Antes de um diagnóstico médico claro, os cuidadores passam pelo que chamo de ‘anomia emocional’. Eles ficam profundamente confusos com os comportamentos de um membro da família e, simplesmente, não sabem exatamente o que sentir. Essa anomia reflete a desorientação de uma vida que passou rapidamente da coerência e previsibilidade para o caos e a desordem. Por fim, um diagnóstico… fornece um contexto médico que esclarece a situação dos cuidadores e desperta sentimentos de esperança, compaixão e solidariedade.” [4]
4. As famílias sofrem divergências interpretativas
Doenças físicas muitas vezem unem as famílias, que abandonam discussões fúteis para lutarem juntos contra uma doença claramente identificada. O oposto pode acontecer a relacionamentos afetados por desafios de saúde emocional ou mental, que levam as pessoas a viverem realidades e trajetórias de vida distintas.
A chegada de um diagnóstico médico pode esclarecer a situação – se é compreendido e aceito por todos. Mas pode também exacerbar as tensões relacionais, se é interpretado como um ataque pessoal.
“Com maior frequência do que no caso da maioria das doenças físicas, as pessoas com transtornos mentais rejeitam os diagnósticos médicos, recusam-se a participar dos esforços para se recuperarem, demonstram raiva e hostilidade para com os cuidadores e são incapazes de expressar gratidão pelos cuidados que recebem… apesar de todos os seus esforços, os cuidadores são, por vezes, tratados como se fossem inimigos por seus entes queridos.” [5]
As divergências interpretativas causadas por desafios de saúde mental podem levar até à formação de alianças com pessoas fora da família que negam a existência daquele problema. Assim como uma pessoa viciada em álcool se sente criticada em casa mas afirmada por seus companheiros no bar, pode se formar até uma pseudo-família externa que permanece em cabo-de-guerra com os membros da família que querer superar aqueles problemas.
A necessidade de clareza e compaixão
Desafios de saúde mental colocam enorme pressão sobre relacionamentos e famílias, que sofrem de modo sistêmico, silencioso, pouco claro e marcado por divergências interpretativas. Elas precisam de muita compaixão e graça!
Mas, junto à compaixão, é importante que as suas redes de suporte também forneçam clareza para ajudá-las de modo efetivo. Líderes cristãos sem formação nessa área podem reforçar o estigma religioso [link ao segundo artigo da série], usar a sua autoridade religiosa para descreditar diagnósticos médicos e agravar a situação.
Mas a parceria de líderes cristãos humildes com profissionais de saúde mental pode fornecer a ajuda que uma família precisa para entender os seus desafios, voltar a viver uma realidade compartilhada e reconstruir os seus relacionamentos.
[1] Julie Tallard Johnson, Hidden Victims, Hidden Healers: An Eight-Stage Healing Process for Families and Friends of the Mentally Ill (PEMA Publications, 1994), 2.
[2] Ibid.
[3] Ibid., 3.
[4] David Karp, The Burden of Sympathy: How Families Cope with Mental Illness (Oxford University Press, 2001), 19.
[5] Ibid., 23, 68-69.
René Breuel é um pastor brasileiro que mora em Roma, na Itália. Autor das obras O Paradoxo da Felicidade e Não É fácil Ser Pai, possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá. É casado com Sarah e pai de dois meninos, Pietro e Matteo.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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