Pesquisa aponta o “novo normal” do antissemitismo no Brasil, com alta de 149%

Relatório anual da CONIB aponta agravamento do ódio contra judeus em 2025, com aumento no tom e na intensidade das agressões.

Fonte: Guiame, Silas AnastácioAtualizado: terça-feira, 31 de março de 2026 às 17:30
(Captura de tela/YouTube/ABC News – Australia)
(Captura de tela/YouTube/ABC News – Australia)

Em março de 2025, um homem atravessava a faixa de pedestres em Joaçaba, cidade de 30 mil habitantes no interior de Santa Catarina, quando um carro tentou atropelá-lo. Ele usava quipá e uma camiseta com inscrições em hebraico e precisou pular para se salvar.

No mesmo ano, um sacerdote de um colégio no Rio de Janeiro afirmou, em discurso aos alunos, que era necessário “se livrar dos judeus”, a quem classificou como uma “raça violenta e suja”.

Em novembro, um áudio de uma influenciadora digital viralizou nas redes sociais. Nele, ela dizia que adoraria ver “sionistas em campos de concentração” e que, em um eventual governo seu, haveria “gulag e campo de concentração para judeus e sionistas”.

Os três episódios integram o “Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025”, divulgado nesta segunda-feira pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), em São Paulo.

Ao todo, o documento reúne 989 ocorrências formalmente registradas ao longo do ano. Os dados confirmam o que o relatório define como um “novo normal”: o antissemitismo no Brasil não recuou após o pico de mais de 1.700 ataques identificados em 2024.

Em vez disso, o fenômeno se estabilizou em um patamar 149% superior ao de 2022, quando haviam sido registradas 397 ocorrências.

O que a comunidade vive

Dentro da comunidade judaica, o clima mudou. Pesquisa intracomunitária da CONIB, realizada com 1.427 judeus brasileiros, revela que 86% avaliam o antissemitismo como um problema grave ou existente no Brasil.

Além disso, 1.231 dos respondentes afirmam que o fenômeno se intensificou significativamente desde outubro de 2023.

Os efeitos sobre o cotidiano são concretos. Trezentos e vinte respondentes afirmam já ter deixado de se identificar como judeus em alguma situação por receio. Outros 250 dizem já ter considerado fazer o mesmo.

O impacto também se reflete em decisões educacionais. Novecentos e quarenta e cinco entrevistados avaliam que relatos de antissemitismo no campus pesam muito na escolha de onde estudar ou matricular os filhos.

As experiências de discriminação aparecem em diferentes ambientes. Seiscentos e nove relatam ter sofrido algum tipo de ataque ou preconceito em espaços on-line; 215, no ambiente de trabalho; e 166, em escolas ou universidades.

Um dado específico sintetiza o estado de alerta: um em cada dois judeus afirma se deparar com conteúdo antissemita nas redes sociais todos os dias ou quase todos os dias.

Na outra ponta, apenas 2% dizem nunca ter tido contato com esse tipo de material.

Outro episódio que acende o alerta sobre o cenário do antissemitismo no Brasil atingiu a própria produção do relatório, que se tornou alvo direto de ataques.

Entre os dias 6 e 9 de janeiro de 2026, o formulário da pesquisa intracomunitária da CONIB foi invadido por cerca de 150 acessos coordenados. Os invasores utilizaram um campo aberto de comentários para inserir mensagens de ódio.

Entre as frases registradas estavam “a CONIB devia ser incendiada com todos os judeus lá dentro” e “Holocausto? Deveria ter sido completo”.

As evidências do ataque foram reunidas e encaminhadas às autoridades competentes.

O digital como amplificador

As redes sociais concentram 80,9% das ocorrências registradas de antissemitismo no período analisado.

Entre as plataformas, o Instagram lidera, respondendo por 37,1% dos casos on-line.

O monitoramento sistemático de menções identificou 115.970 conteúdos antissemitas em um universo de 6,43 milhões de mensagens rastreadas ao longo do ano.

O alcance potencial estimado desse material é de 66 milhões de pessoas.

Um movimento preocupa os pesquisadores para além dos números absolutos: a migração progressiva de conteúdo hostil para plataformas com menor capacidade de moderação, como Threads, TikTok e Discord.

Em julho, o relatório documentou o recrutamento de adolescentes via Discord para uma facção neonazista denominada “Misanthropic Division”. Segundo o documento, o grupo tinha como objetivo declarado atacar sinagogas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina.

O relatório registra ainda um sinal específico sobre a natureza do problema. Em setembro, um usuário do Twitter/X publicou uma convocação para incendiar sinagogas e expulsar judeus do Brasil.

A postagem foi denunciada e encaminhada ao comitê jurídico da CONIB, que adotou as providências cabíveis.

Escola e trabalho viraram campos de exclusão

Instituições de ensino foram apontadas por 1.058 respondentes como o principal espaço de manifestação do antissemitismo no Brasil, à frente das redes sociais e do ambiente político.

Os relatos recolhidos pela pesquisa vão de episódios envolvendo crianças xingadas no recreio a casos no ensino superior. Entre eles, há registros de professores universitários que proferiram frases como “é necessário fazer um inseticida para acabar com a praga judia”.

Em uma escola pública de São Paulo, um aluno foi repetidamente agredido por colegas que se apresentavam como “apoiadores palestinos” e acabou precisando mudar de colégio.

Em outro caso, uma aluna de 15 anos encontrou uma suástica desenhada em sua própria carteira ao retornar do recreio. Após reclamar por semanas à direção sem obter resposta, também deixou a escola.

No ensino superior, os episódios se repetem. Na Faculdade de Direito da USP, cartazes foram afixados nos corredores com a frase “Sionista não é professor”.

Já na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um estudante compareceu à colação de grau com uma suástica desenhada no rosto.

Entre os respondentes da pesquisa intracomunitária, 68% apontam o crescimento do antissionismo nas universidades como uma das principais ameaças à comunidade judaica nos próximos anos.

O antissemitismo também se manifesta com força no ambiente corporativo. Levantamento do grupo Executivos Contra o Antissemitismo (ECOA), incorporado à pesquisa, ouviu 1.003 profissionais de diferentes cargos.

Entre os respondentes judeus, um em cada quatro afirma já ter sofrido alguma forma clara de antissemitismo na vida profissional.

Ao considerar situações incômodas ou vexatórias, o número sobe: 52% dizem já ter ouvido piadas sobre judeus no ambiente de trabalho.

Além disso, a maioria das situações não resultou em reprimenda formal por parte das empresas. Apenas 15% das organizações pesquisadas afirmam possuir políticas explícitas de combate ao preconceito étnico-religioso.

O que a sociedade pensa

Um dos dados mais perturbadores do relatório, no entanto, não vem do registro de incidentes, mas de uma pesquisa de opinião pública.

O levantamento, realizado pelo AtlasIntel a pedido da entidade StandWithUs Brasil, ouviu 1.812 brasileiros e indica que três em cada dez não se sentem totalmente à vontade para ter um amigo judeu.

Outro ponto destacado pelo levantamento é que 42% dos entrevistados consideram legítima a comparação entre o tratamento dado por Israel aos palestinos e o que os nazistas fizeram aos judeus.

Estereótipos com séculos de história também aparecem naturalizados para parcelas expressivas da população. Segundo a pesquisa, 29% consideram legítima a afirmação de que o povo judeu foi responsável pela morte de Jesus.

Outros 28% dizem achar natural desconfiar de judeus por uma suposta lealdade a Israel, enquanto 37% avaliam como plausível a ideia de que judeus têm mais sucesso financeiro do que outras pessoas.

Para os pesquisadores, o problema central não é apenas a existência dessas ideias, mas o fato de que, em grande parte, quem as reproduz não as reconhece como preconceito.

“O antissemitismo contemporâneo no Brasil se manifesta menos por hostilidade declarada e mais por uma combinação de desinformação histórica, permissividade diante de estereótipos antigos e baixo letramento sobre as formas que o ódio assume hoje”, conclui o relatório da CONIB.

O que o Brasil não sabe

Um segundo recorte, conduzido pelo Grupo ISPO com 7.762 entrevistados em onze regiões metropolitanas, traz um dado que o relatório aponta como chave explicativa para a permissividade social diante do antissemitismo.

Segundo a pesquisa, 87,3% dos brasileiros nunca participaram de nenhuma atividade educativa sobre o Holocausto — seja palestra, visita a museu ou iniciativa similar.

O reflexo aparece no nível de conhecimento histórico: apenas 53,2% dos entrevistados conseguem definir corretamente o genocídio nazista.

O paradoxo é nítido. Embora 64,4% dos entrevistados considerem fundamental que o Holocausto seja ensinado nas escolas, o engajamento efetivo com o tema permanece baixo.

A valorização é quase unânime; a vivência educativa, residual.

Para os autores do relatório, é essa lacuna que permite que a comparação entre Israel e o nazismo circule como argumento aceitável em debates políticos e nas diferentes esferas sociais.

A resposta jurídica

Mais de 45 advogados voluntários dedicaram, ao longo de 2025, mais de duas mil horas de trabalho ao departamento jurídico da CONIB.

Desde outubro de 2023, ao menos 60 casos foram formalmente noticiados à polícia ou ao Ministério Público.

Como resultado dessas iniciativas, o relatório aponta que, em média, uma condenação por antissemitismo foi registrada a cada três meses nos últimos dois anos.

O ano de 2025 teve um marco específico no enfrentamento ao antissemitismo. O Supremo Tribunal Federal fixou o entendimento de que não cabe acordo de não persecução penal em casos de racismo contra judeus, em decisão que contou com a atuação do time jurídico da CONIB.

A medida encerrou um ciclo de recursos apresentados por um advogado condenado por publicar, em suas redes sociais, textos que atribuíam aos judeus a responsabilidade por doenças como a Peste Negra e a Covid-19.

Nas mesmas publicações, o Holocausto era descrito como um evento fantasioso, o que fundamentou a condenação e consolidou o novo entendimento da Corte.

 

*O Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025 é produzido pela CONIB em cooperação com as Federações e Associações Israelitas do país, StandWithUs Brasil, Museu do Holocausto de Curitiba, Memorial do Holocausto de São Paulo e o grupo ECOA.

 

Silas Anastácio é fundador do Ministério Davar, evangelista e expositor bíblico com sólida atuação há mais de uma década em temas relacionados ao Estado de Israel e à comunidade judaica. Também desempenha papel estratégico nos bastidores da mídia evangélica, contribuindo para a articulação e divulgação de conteúdos que fortalecem os valores da fé cristã.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Campo de concentração de Dachau: Sete vidas em meio ao horror

 

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