Em um país onde o Islã é a religião predominante e a identidade religiosa está profundamente ligada à cultura e ao Estado, marroquinos que se convertem ao Cristianismo enfrentam uma realidade marcada por medo, discrição e limitações.
O relato do cristão conhecido como Brother Rachid (Rachid Hammami), criado em uma pequena vila no Marrocos e filho de um líder muçulmano que o preparava para seguir o mesmo caminho religioso, revela os desafios vividos por muitos convertidos.
Segundo ele, sua conversão não significou apenas uma mudança espiritual, mas também o início de uma vida de silêncio e cautela.
“Eu era muçulmano e me converti ao Cristianismo. No entanto, fui obrigado a praticar minha fé em total segredo durante anos, como se estivesse fazendo algo ilegal.”
De acordo com Rachid, a situação não era isolada. Ao longo do tempo, ele descobriu que havia milhares de cristãos marroquinos de origem muçulmana vivendo nas mesmas condições.
“Descobri que essa era a realidade de toda uma comunidade vivendo com medo – milhares de cristãos marroquinos de origem muçulmana.”
Cultos clandestinos e limitações religiosas
Entre os principais desafios relatados está a impossibilidade de cultos públicos. Sem reconhecimento oficial, encontros cristãos acabam acontecendo de forma clandestina, muitas vezes dentro de casas.
“Não pudemos nos reunir publicamente para o culto de domingo. Tivemos que nos reunir secretamente em casas porque o governo não permite.”
![]()
O evangelista marroquino ‘Brother Rachid’. (Foto: Reprodução/YouTube/I Found The Truth)
Segundo Rachid, várias práticas fundamentais da vida cristã também ficam impedidas.
“Não podíamos nomear pastores, realizar batismos, celebrar casamentos cristãos ou realizar cerimônias fúnebres cristãs. O governo nos vê como muçulmanos e não nos reconhece como cristãos.”
Enterros e vida civil sob ritos islâmicos
A falta de reconhecimento religioso também afeta momentos importantes da vida familiar. Mesmo após a morte, muitos convertidos não conseguem ter funerais de acordo com sua fé.
“Quando alguém morre, somos obrigados a enterrá-lo de acordo com os ritos islâmicos.”
Rachid afirma que em diversos casos não há como impedir as práticas islâmicas.
“Muitos são sepultados em cemitérios islâmicos, com o Alcorão recitado sobre seus corpos por clérigos muçulmanos locais presentes no enterro.”
Segundo ele, a pressão também aparece em registros civis e na criação dos filhos.
“Não podemos escolher nomes cristãos para nossos filhos.”
Embora não exista uma proibição formal escrita, ele diz que as autoridades se recusam a registrar esses nomes.
Casamento e educação
Outro ponto destacado é o casamento. Como os convertidos continuam sendo oficialmente considerados muçulmanos pelo Estado, o casamento civil cristão não é permitido.
“Não podíamos ter um casamento civil. Os casamentos tinham que ser realizados de acordo com a lei islâmica.”
A situação se estende à educação das crianças.
“Nossos filhos foram obrigados a estudar o Islã na escola. A educação islâmica e o Alcorão são obrigatórios.”
Mesmo quando os pais informam que a família é cristã, as aulas continuam sendo exigidas.
“Eles são obrigados a repetir frases como ‘Alá disse’ e ‘o Profeta disse...’.”
Bíblias contrabandeadas e intervenções policiais
Além das limitações legais e sociais, o acesso à literatura cristã também é um desafio.
“Não podíamos importar Bíblias em árabe ou literatura cristã legalmente.”
Por isso, segundo ele, muitos recorrem a métodos informais.
“Tínhamos que contrabandeá-las ou pedir aos visitantes estrangeiros que trouxessem cópias discretamente.”
O evangelista afirma ainda que reuniões já foram interrompidas por autoridades.
“No passado, muitas reuniões foram invadidas pela polícia.”
Durante essas ações, materiais foram apreendidos e participantes levados para interrogatório.
“Bíblias, laptops e literatura cristã foram confiscados. As pessoas foram levadas para interrogatório, intimidadas, assediadas e humilhadas.”
Segundo ele, uma das últimas grandes operações ocorreu em 2010.
Uma realidade pouco conhecida
Ao compartilhar sua história, Brother Rachid afirma que ainda há muito a ser dito sobre a situação dos cristãos convertidos no país.
“Essas são apenas algumas das coisas que eu queria compartilhar. Há mais, e compartilharei no futuro.”
O relato reforça a existência de uma comunidade cristã que vive discretamente dentro do Marrocos, tentando equilibrar fé, segurança e vida cotidiana em um ambiente onde a mudança de religião ainda gera tensões sociais e legais.
