Em meio aos recentes protestos que expuseram novamente a repressão do regime iraniano contra civis, o treinador físico Ali Rezaei Majd testemunhou de perto a violência das manifestações iniciadas em dezembro de 2025, com ápice em janeiro deste ano.
No dia seguinte, 6 de janeiro, Ali pegou seu telefone e gravou uma mensagem em inglês:
“Nasci na terra da poesia e da história, mas hoje cresço na escuridão. Nossas vozes são silenciadas, nossos sonhos são destruídos e nosso povo sofre.”
Em um dos vídeos que fazia com frequência para denunciar o regime, ele desmente o que chama narrativa falsa do regime sobre o Ocidente e questiona:
“Você acha que nós, iranianos, somos assim? Você acha que odiamos os Estados Unidos? Você acha que odiamos Israel? Isso é uma grande mentira. Então, tudo isso é motivo para lutarmos contra eles. Eles estão destruindo tudo o que existe em nós.”
Recentemente, Ali também publicou um vídeo destinado aos judeus:
“Aos habitantes de Israel, nossa amizade remonta a tempos antigos, quando o mundo inteiro lhes virou as costas; quando os romanos destruíram o seu templo; quando os babilônios destruíram o seu templo; quando os egípcios os oprimiram e os escravizaram. Lembrem-se de tudo isso e também de que, após a conquista babilônica, nós, persas, ao percebermos o seu sofrimento, ajudamos vocês a retornar para sua terra, para suas terras sagradas, e auxiliamos na reconstrução do seu grande templo pela segunda vez.”
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“Eu sou Ali e descendo daqueles que os ajudaram. Ao longo da história, nós, persas, e vocês, judeus, sempre fomos vizinhos, vivendo lado a lado em paz. Essa inimizade que existe entre nós se deve exclusivamente a islamistas extremistas. Falo em nome de 90% do povo iraniano. Em nossa terra, sob pressão da mídia e do governo, nossas vozes não conseguem chegar até vocês.
Cristianismo secreto
A transformação de Ali foi além do corpo. Por uma década no Irã, ele diz ter praticado o cristianismo secretamente, escondendo sua fé para sobreviver.
Até que, em 7 de março, em uma discreta igreja doméstica no Iraque, fez algo impossível em casa: recebeu o batismo, em uma pequena banheira.
Hoje, Ali – que também atende pelo nome de Michael – segue lutando, mas por um propósito diferente.
Usando sua visibilidade, ele continua a se manifestar e a pedir apoio internacional para derrubar o regime que governa seu país natal.
“Eu preciso de um Irã livre, irmão – não de um Irã sequestrado por jihadistas. Não quero isso. Quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para libertar meu país, para o bem de todos.”
No Iraque, Ali se juntou a um grupo militar curdo que se prepara para uma possível incursão terrestre no oeste do Irã.
“Como cristão, eu perdoo toda a Guarda Revolucionária Islâmica. Vou orar por eles todos os dias. Mas, sabe, eu acho que sou como um cão pastor do Senhor. Então, um cão pastor às vezes precisa proteger as ovelhas. E acho que é isso que eu devo fazer.”
Fuga do Irã
Enquanto ainda estava no Irã, a repercussão de seus vídeos teve um preço. Ao se tornar conhecido internacionalmente, Ali passou a ser alvo das autoridades.
Ele relata que precisou fugir às pressas e viver em constante deslocamento para não ser capturado.
“Eles estavam me procurando. Eu sabia que, se me encontrassem, eu seria morto.”
A fuga o levou ao Iraque, onde finalmente encontrou um pouco de segurança. Foi fora de seu país que ele pôde viver plenamente uma fé que, por anos, precisou manter em segredo.
Mesmo após tudo o que enfrentou, ele afirma que sua fé permanece inabalável — e que escolheu não alimentar ódio.
“Eu perdoo aqueles que fizeram isso. Eu oro por eles.”
Hoje, Ali continua usando sua voz para denunciar o regime iraniano e defender a liberdade religiosa e civil no país. Sua história, marcada por dor, perda e perseguição, tornou-se também um testemunho de resistência — e de fé em meio à adversidade.
Amigos mortos
Embora tenha sobrevivido à violenta repressão dos protestos – que, segundo fontes, teria custado cerca de 40 mil vidas no Irã –, Ali carrega marcas profundas: amigos próximos foram mortos a tiros pelas forças de segurança.
O episódio, que poderia ter silenciado sua voz, tornou-se o ponto de partida para um testemunho que ganharia o mundo – e o colocaria ainda mais em risco.
Ali participava dos protestos quando presenciou a ação violenta das forças do regime aiatolá. Segundo seu relato, agentes abriram fogo contra manifestantes desarmados, atingindo pessoas próximas a ele.
“O som dos tiros e das pessoas sendo mortas pelas forças da Basij (polícia da moralidade) e da Guarda Revolucionária, foi isso que aconteceu. As pessoas pediam por liberdade e as forças do governo as matavam com tanta facilidade”, relatou.
“O regime atirou nos meus amigos. Eles morreram bem na minha frente.”
Impactado pelo que viu, ele decidiu não permanecer em silêncio. No dia seguinte, gravou vídeos em inglês e farsi denunciando a repressão e clamando por liberdade no Irã.
As imagens rapidamente se espalharam pelas redes sociais, alcançando milhões de visualizações.
“Eu só queria que o mundo soubesse o que está acontecendo no Irã.”
