O democrata Abdul El-Sayed, de 42 anos, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos EUA ao vencer a disputa no estado de Michigan, na terça-feira (3).
Ele derrotou o republicano Mike Rogers, apoiado pelo presidente Donald Trump, em uma eleição marcada por debates sobre Israel, antissemitismo e extremismo islâmico.
Filho de imigrantes egípcios, El-Sayed é médico e ex-diretor de saúde pública de Detroit. Sua vitória representa um avanço da ala progressista do Partido Democrata e mantém com os democratas a cadeira anteriormente ocupada pelo senador Gary Peters, que decidiu não disputar a reeleição.
Segundo a Associated Press e a Reuters, o democrata superou uma campanha de forte oposição republicana e críticas de organizações pró-Israel, que questionaram suas posições sobre o conflito no Oriente Médio.
Posições contra Israel provocam críticas
Durante a campanha, El-Sayed adotou uma postura de forte oposição ao governo israelense, classificando as operações militares de Israel na Faixa de Gaza como genocídio e defendendo o fim da assistência militar americana ao país, inclusive para armamentos defensivos.
Segundo o American Jewish Congress, o democrata também comparou a atuação do governo israelense à do grupo terrorista Hamas, classificou políticas israelenses como apartheid e questionou a definição de Israel como Estado especificamente judeu.
As declarações provocaram críticas de lideranças judaicas, que manifestaram preocupação com suas posições sobre a segurança de Israel e o antissemitismo. Posteriormente, El-Sayed afirmou em entrevista ao programa 60 Minutes que Israel tem direito de existir e reiterou seu compromisso com a segurança dos judeus.
Uma das maiores controvérsias ocorreu após o ataque à sinagoga Temple Israel, em West Bloomfield, Michigan, em março de 2026.
Na ocasião, um homem lançou um veículo contra a sinagoga, provocando um incêndio e deixando um segurança ferido. O agressor morreu no local.
Embora tenha condenado o atentado, El-Sayed afirmou que “pessoas feridas ferem outras pessoas”, relacionando o episódio a um ciclo de violência. A declaração foi interpretada por integrantes da comunidade judaica como uma tentativa de contextualizar ou relativizar o ataque.
Em agosto, o democrata pediu desculpas, reconhecendo que suas palavras poderiam ter causado sofrimento às vítimas e à comunidade judaica.
Outra controvérsia envolveu sua aproximação com o influenciador Hasan Piker, acusado de fazer declarações antissemitas e conhecido por comentários polêmicos sobre os atentados de 11 de setembro de 2001.
A deputada democrata Haley Stevens, derrotada por El-Sayed nas primárias, chegou a romper com o próprio partido na disputa pelo Senado e anunciou apoio ao republicano Mike Rogers, alegando preocupações com o antissemitismo.
Trump alerta contra jihadismo nos EUA
Na tentativa de impedir a vitória democrata, o presidente Trump participou de um comício em Port Huron, Michigan, no dia 25 de outubro, quando acusou El-Sayed de ligação com o extremismo islâmico.
“Estou aqui para impedir que um jihadista membro da Irmandade Muçulmana se torne senador dos Estados Unidos”, declarou Trump, segundo o PolitiFact.
O presidente também mencionou os atentados terroristas do 11 de Setembro e apresentou ao público o pai de Todd Beamer, um dos passageiros do voo 93 da United Airlines, que reagiram aos sequestradores antes de o avião cair na Pensilvânia.
“Vinte e cinco anos depois, Michigan precisa se levantar e lutar, assim como Todd fez, para impedir que um jihadista entre no Capitólio”, afirmou Trump.
O republicano ainda acusou El-Sayed de querer impor a lei islâmica, conhecida como sharia, nos EUA e questionou se ele poderia ter acesso a informações de segurança nacional.
Entretanto, as acusações de vínculos com organizações jihadistas ou com a Irmandade Muçulmana não foram acompanhadas de provas. El-Sayed negou qualquer ligação com o grupo e classificou os ataques como tentativas de desviar a atenção dos problemas econômicos enfrentados pelos americanos.
Fatores que levaram El-Sayed à vitória
Apesar das controvérsias, o democrata conquistou apoio com uma campanha concentrada em questões econômicas, especialmente o custo de vida, o acesso à saúde e a influência de grandes empresas sobre a política americana.
Entre suas principais propostas estavam a ampliação da cobertura pública de saúde, por meio do programa conhecido como Medicare for All, e a redução da influência do financiamento privado nas eleições.
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El-Sayed também recebeu apoio de figuras progressistas, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Bernie Sanders, mobilizando jovens eleitores e setores da esquerda democrata.
Segundo a Associated Press, o republicano Mike Rogers enfrentou dificuldades para conciliar sua proximidade com Trump e a insatisfação de eleitores com a inflação, as tarifas comerciais e os efeitos econômicos da guerra com o Irã.
Michigan também possui uma expressiva comunidade árabe-americana, e as críticas de El-Sayed à guerra em Gaza contribuíram para sua identificação com parte desse eleitorado.
A vitória ocorreu apesar de investimentos milionários de grupos contrários à sua candidatura. A organização pró-Israel AIPAC destinou aproximadamente US$ 30 milhões à oposição a El-Sayed durante as primárias democratas, segundo a Associated Press.
A comunidade judaica, por sua vez, apresentou divisões. Uma pesquisa realizada entre eleitores judeus que votaram antecipadamente apontou que 60% apoiavam El-Sayed e 36% preferiam Rogers.
O levantamento também identificou uma migração de parte dos eleitores judeus democratas para o candidato republicano, motivada principalmente por preocupações com Israel e o antissemitismo.
Com a vitória, El-Sayed deverá assumir seu mandato em janeiro de 2027, tornando-se o primeiro representante da fé islâmica na história do Senado americano, em um momento de profundas divisões políticas e de crescente debate sobre a relação dos EUA com Israel.
