Os capítulos 13 e 14 de Números contêm uma das histórias mais trágicas e dramáticas do povo de Israel. Não foi uma tragédia ocorrida em um campo de batalha, mas uma tragédia causada pela falta de fé.
Deus ordenou Moisés a enviar um príncipe de cada tribo para espiar a terra de Canaã. Não eram quaisquer pessoas, mas homens de proeminência em suas tribos, plenos de sabedoria e autoridade, que foram honrados ao receber essa missão privilegiada. Dos doze escolhidos, nenhum deles é lembrado hoje, exceto Calebe, da tribo de Judá, e Josué, da tribo de Efraim.
Visões diferentes do mesmo problema
Ao regressarem de espionar a terra, o relato dos dez outros que foram com Josué e Calebe trouxe desânimo, pessimismo e rebeldia ao coração de todo o povo. Os doze espias viram os gigantes, descendentes de Enaque, de estatura colossal, mas a diferença de Josué e Calebe está na interpretação do que viram.
Aos olhos dos dez espias descrentes, eles eram como gafanhotos não apenas para aqueles gigantes, mas aos seus próprios olhos. Por outro lado, Josué e Calebe não colocam o foco nos gigantes, mas dizem a seus irmãos para não temerem o povo da terra “porque como pão os devoraremos, pois o Senhor está conosco. Não os temais” (Números 14:9). Há uma enorme diferença de visão aqui.
O problema não era os gigantes que habitavam a terra, mas a forma como eram vistos pelos espias. Os dez descrentes colocaram o foco na força e na grandeza do inimigo, enxergando-se como gafanhotos inofensivos perante eles. Josué e Calebe, no entanto, veem os gigantes, mas ignoram sua força e seu tamanho, pondo sua fé no Senhor que pode derrotá-los e fazer com que sejam devorados como pão.
Como você enxerga os gigantes que aparecem no seu caminho? Como você vê os desafios impossíveis na família, na saúde, nas finanças, no trabalho? Você se considera um gafanhoto diante deles ou ignora a força que possuem, concentrando seu olhar apenas naquele que é capaz de derrubá-los debaixo de seus pés?
Inimizade de Deus
Ao ouvirem o testemunho dos doze espias, Israel preferiu crer no mau relato dos dez incrédulos, chorou por uma noite inteira e desejou voltar ao Egito. Como se fosse pouco, falaram em apedrejar Josué e Calebe simplesmente porque deram seu relato de fé. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Assim ocorre com aqueles que desistem de andar em fé e ignoram as promessas de Deus. Voltam ao estilo de vida anterior, carnal e mundano, distante da presença da nuvem de glória. Como aqueles dez espias, são incapazes de enxergar com os olhos da fé. Ao olhar com os olhos da carne, são derrotados por sua própria visão limitada e engolidos como gafanhotos pelas adversidades no caminho.
O juízo pelo pecado da incredulidade e da rebeldia custou muito caro. Em Números 14:34, o Senhor disse: “Segundo o número dos dias em que espiastes a terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas iniquidades quarenta anos, e conhecereis o meu desagrado”. A palavra para desagrado é te’nuah e só aparece duas vezes na Bíblia hebraica, aqui e no livro de Jó, e é mais bem traduzida por inimizade ou hostilidade.
A ideia é de que, quando deixamos de crer na Palavra do Senhor e nos rebelamos contra suas promessas, agimos como seu inimigo e enfrentaremos sua oposição. Nunca olhe para o tamanho dos gigantes que assustam e ameaçam, mas para o tamanho do Deus que servimos, infinitamente maior do que qualquer gigante.
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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