
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor do livro A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog de mesmo nome onde publica estudos bíblicos com ênfase na história, língua e cultura judaicas relacionadas ao cristianismo.

O capítulo 11 do livro de Números registra a primeira grande murmuração coletiva dos israelitas, ocorrida no primeiro ano de peregrinação pelo Sinai. Aquele era um povo de “dura cerviz”, como definido pelo Senhor, difícil de guiar e de liderar. Não foi a única vez em que murmuraram, mas essa queixa específica redundou em grande praga e morte.
O povo desejou comer carne e uma grande murmuração e lamento se espalhou pelo acampamento. Ao ouvi-los, Moisés sente o peso da pressão e cobrança sobre si, e apela para Deus. “Por que puseste sobre mim o encargo de todo este povo?”. A diferença aqui é que o povo murmura entre si e Moisés murmura apenas com Deus. O primeiro tipo de murmuração é pecado, pois espalha desânimo e insubmissão. O segundo tipo é uma oração e as Escrituras estão repletas de exemplos de homens e mulheres que apresentaram suas queixas apenas a Deus, especialmente nos Salmos.
O desejo por carne foi tão forte entre o povo que o Senhor resolveu atendê-los, provendo carne por um mês inteiro “até sair pelos narizes”. No entanto, junto com a carne, veio a consequência da obsessão do povo. Uma grande praga se alastrou e feriu a muitos, levando-os à morte. Por que um desejo comum seguido de murmuração, aparentemente irrelevante, teria acendido a ira divina e conduzido a um desfecho fatal?
Desejo obstinado
Poderia comparar a resposta de Deus em enviar carne de codorniz em abundância a um pai que cede a um filho irremediavelmente obstinado. Ele lhe concede o desejo por insistência, mas sabe que lhe será danoso. Depois de ter sua vontade satisfeita e expectativa frustrada, o filho compreende a resistência do pai em ceder ao pedido. Frequentemente, aprende isso da forma mais dolorosa e conclui que a relutância não passava de um zelo paternal. Nem tudo o que pedimos servirá para nosso bem; pelo contrário.
Todavia, embora uma inferência legítima, esse não é o caso em questão. Somente é possível compreender a ira de Deus contra os israelitas, ao cobiçarem carne, recorrendo-se à língua original da Torá. A passagem diz que ali mesmo muitos pereceram do castigo. “Porque ali foi sepultado o povo que desejou outro alimento”. O verbo para “desejou” é mit’avim que significa desejar ardentemente. Não é um simples desejo, mas algo que sai do controle, de apelo totalmente carnal e sem limite.
Luxúria punida
O povo não sentiu apenas o desejo de comer carne, ignorando a provisão divina do maná, mas de se deixar levar por esse desejo, sem nenhuma continência. Qualquer desejo desse tipo é pecado, pois é a carne assumindo o controle do espírito. E quando o homem se deixa ser guiado pela carne, será incapaz de ouvir a voz de Deus e muito menos de obedecê-lo.
Esse foi o motivo do juízo em Kivrot HaTaa’vah, literalmente “sepulturas do desejo”. A palavra taa’vah ainda existe no hebraico moderno e se traduz por luxúria, o que denota bem a carnalidade e o total descontrole que tomou conta do povo naquela situação. Ela só ocorre cinco vezes na Bíblia hebraica e todas como menção a esse local, onde o Senhor cortou o mal pela raiz a fim de manter Israel um povo separado para si. A lição aqui é: nunca se deixe ser dominado por nenhum desejo carnal em detrimento de ouvir e seguir a voz do Espírito Santo, sob o risco de ser sepultado com ele.
“A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” (Romanos 8:6).
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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