
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor do livro A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog de mesmo nome onde publica estudos bíblicos com ênfase na história, língua e cultura judaicas relacionadas ao cristianismo.

“Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:30)
Quando lemos este versículo, a primeira coisa a que somos remetidos é a ferramenta agrícola utilizada na antiguidade para arar a terra por meio de animais. Essa imagem permanece válida, sem dúvida, pois Jesus utilizava figuras do cotidiano para ilustrar as verdades do Reino a seu público.
Entretanto, no contexto judaico, a palavra para jugo — על (ol) — ia além e significava o modo de viver sob os ensinamentos de Deus. Diversas fontes rabínicas se referem a jugo dessa perspectiva como Ol Malchut Shamaim (o jugo do Reino dos Céus). Por exemplo, a declaração de Shema Israel (Ouve, ó Israel) é uma imposição voluntária de se colocar sob o jugo de Deus.
Uma expressão rabínica também usada no tempo de Jesus era Ol HaTorah (o jugo da Torá). Estudar e viver segundo a Torá era visto como carregar esse jugo por toda a vida e ser moldado por ele. Igualmente, era conhecida a expressão Ol HaMitzvot (jugo dos mandamentos). Cumprir as mitzvot equivalia a aceitar sobre si uma carga que guia e disciplina, além de conferir identidade.
Um jugo difícil
É com esse entendimento que Pedro, durante o primeiro concílio da Igreja, em Jerusalém, defendeu que os gentios convertidos a Yeshua não precisavam ser circuncidados ao questionar os líderes judeus: “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre o pescoço dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?” (Atos 15:10). Esta palavra pacificou os ânimos dos irmãos que entraram em “grande discussão” por causa de Ol HaMitzvot e sua aplicação aos gentios.
O entendimento dos judeus, quando um estrangeiro se convertia ao judaísmo (prosélito), era de que precisava cumprir todos os 613 mandamentos (mitzvot) para entrar em Malchut Shamaim (Reino dos Céus). Tal entendimento prevaleceu entre os líderes judeus convertidos a Yeshua ao discipularem os gentios que rapidamente se convertiam ao Evangelho, o que gerou confusão no início. Entretanto, tal confusão foi dissipada por Pedro, seguido do testemunho de Barnabé e Paulo do que Deus fizera entre os gentios, e finalizado pela palavra de sabedoria de Tiago naquele concílio.
“O jugo suave”
Pedro estava dialogando com a ideia judaica de Ol HaMitzvot e, por outro lado, introduzindo aos líderes, ainda que indiretamente, as palavras que ouvira do Mestre Yeshua em relação ao “jugo suave”, registradas posteriormente por Mateus em seu Evangelho. Um judeu continua sendo judeu e obrigado a carregar o sinal da circuncisão, mas o gentio convertido está desobrigado a isso.
Antes de Jesus, a maneira de lidar com os mandamentos requeria uma vida religiosa pesada e complexa, moldada por múltiplas interpretações detalhadas e exigentes. Em nenhum momento do discurso de Jesus em Mateus, assim como em nenhuma parte dos Evangelhos, Ele cancela, substitui ou ignora os mandamentos da Torá; ao contrário, Ele as confirma e as interpreta corretamente.
Entretanto, oferece uma nova perspectiva. Em vez de esmagar quem carrega o jugo com seu peso, Jesus mostra que há um caminho de suportá-lo de modo suave que é por meio do relacionamento amoroso para com o Pai. Ele não exime ninguém que tome seu jugo do sofrimento nem da responsabilidade, mas convida a tomar esse jugo sem opressão por carregá-lo, mas pela obediência que advém da devoção e do amor.
Yeshua é o objetivo da Torá e jamais se opõe a ela. O grande contraste entre os jugos da Torá e de Yeshua está, respectivamente, na observância integral dos mandamentos de modo frio por mera obrigação; e na obediência incondicional aos mandamentos pela confiança na obra redentora e no relacionamento pelo amor. Este jugo é mais suave, mais acessível e baseado na graça, no entendimento de que, se por algum motivo nos desviamos de algum mandamento e pecamos, “temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1João 2:1).
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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