Americanos quitam dívidas de cristãos presos a trabalho escravo há décadas no Paquistão

Famílias cristãs são mantidas em trabalho forçado em olarias paquistanesas, presas a um sistema de escravidão moderna sustentado por dívidas.

Fonte: Guiame, com informações da Fox NewsAtualizado: terça-feira, 9 de junho de 2026 às 12:19
Após quitar as dívidas de uma família cristã, Aaron Hutchings abraça idosa recém-libertada. (Foto: Aaron Hutchings)
Após quitar as dívidas de uma família cristã, Aaron Hutchings abraça idosa recém-libertada. (Foto: Aaron Hutchings)

Dois cristãos dos EUA viajaram ao Paquistão para ajudar famílias presas a um sistema de trabalho forçado em olarias, onde dívidas podem aprisionar gerações inteiras.

A iniciativa resultou na libertação de famílias inteiras que viviam em condições comparadas à escravidão moderna.

Aaron Hutchings, morador do estado de Idaho, visitou uma fábrica de tijolos no Paquistão em janeiro deste ano.

Segundo relato à Fox News Digital, ele ficou chocado ao encontrar crianças trabalhando sob o sol intenso para ajudar a quitar débitos acumulados por suas famílias ao longo de décadas.

Poucas horas após chegar ao local, Hutchings quitou as dívidas de duas famílias cristãs e as ajudou a deixar a olaria, quebrando a “maldição que eles têm há centenas de anos.”

Sobre o êxito na ajuda a esses escravos, Hutchings declarou que “a mão de Deus estava nisso”.

Presos em um ciclo de dívidas

Segundo Emma Hall, pesquisadora especializada em perseguição religiosa da organização Open Doors Reino Unido e Irlanda, até um milhão de cristãos no Paquistão podem estar submetidos a trabalho escravo ou servidão.

Esse número representaria cerca de 30% da comunidade cristã do país, estimada em 3,3 milhões de pessoas no censo de 2023, o que corresponde a 1,37% da população paquistanesa.

Segundo ela, muitas famílias recorrem a empréstimos para custear despesas médicas, alimentação ou emergências. No entanto, os sistemas de pagamento são estruturados de forma que a dívida se torne praticamente impossível de ser quitada, perpetuando a dependência dos trabalhadores em relação aos proprietários das olarias.

‘Nunca vi tanta falta de esperança’

Outro americano engajado na causa, Emmanuel Hernandez afirmou ter conhecido a realidade dos cristãos paquistaneses durante uma viagem ao país.

O primeiro contato com trabalhadores submetidos à servidão por dívida o marcou profundamente.

Uma família de tijoleiros conversa com o americano Aaron Hutchings instantes antes de saber que será libertada das dívidas. (Foto: Aaron Hutchings)

“Nunca na minha vida vi tanta falta de esperança”, disse ele à Fox News Digital. “Naquele momento, assumi o compromisso de resgatar uma família por ano pelo resto da minha vida.”

Em janeiro de 2025, Hernandez fundou a organização sem fins lucrativos Project Jubilee.

Ele afirma que foi “pela graça de Deus” que as doações recebidas até agora permitiram libertar 300 paquistaneses da escravidão.

Embora o Project Jubilee resgate qualquer pessoa presa em servidão, independentemente de raça ou religião, Hernandez afirma que “98% daqueles que conseguimos libertar são cristãos, e isso porque, no país, eles acabam sendo tratados como cidadãos de segunda classe”.

Romper o ciclo

Hernandez explica que o custo médio para ajudar uma família é de cerca de US$ 8.500, porque o Project Jubilee entende que a libertação do trabalho escravo exige muito mais do que simplesmente quitar dívidas – é preciso oferecer condições reais para que essas pessoas rompam o ciclo de servidão.

“Nosso objetivo é que eles tenham sucesso na vida e garantam que nunca mais voltem”, explicou.

Para isso, Hernandez e sua equipe contratam advogados para cuidar da documentação e oferecem a cada família dois meses de aluguel e alimentação. Também as conectam a um ministro local, financiam a ida das crianças à escola e compram um tuk tuk – mototáxi que pode ser usado como fonte de renda.

Ele afirma que, na maioria das vezes, os donos das fábricas aceitam a libertação após o pagamento das dívidas, ainda que a contragosto. Em outros casos, porém, impõem limites ao número de famílias que podem ser resgatadas por mês ou avisam que o grupo “não deve voltar”.

Unidos pela mesma causa

Hutchings encontrou o perfil de Hernandez online no fim de 2025 e enviou uma mensagem pedindo para se juntar ao trabalho. Aposentado da área de TI, ele se descreve como “um cara comum que queria ajudar as pessoas”.

Depois de uma breve conversa por telefone, Hernandez convidou Hutchings para acompanhá‑lo em uma viagem ao Paquistão em janeiro – convite que ele aceitou.

Durante a visita, Hutchings libertou duas famílias e contou que “acabou ficando viciado” na experiência.

Ele admite que o processo é profundamente emocional: “Isso muda o futuro de uma família inteira por gerações”, afirmou.

Liberdade

Hutchings contou que é especialmente marcante ver como a liberdade transforma a vida das crianças.

“Podemos perguntar: ‘O que você quer ser quando crescer?’”, disse ele. “Muitas vezes, elas nunca pensaram nisso. Estão acostumadas a imaginar que serão operárias de tijolos por toda a vida, como seus pais.”

Hutchings criou sua própria organização sem fins lucrativos, a Intentional Faith Foundation, que hoje utiliza para arrecadar doações de pessoas interessadas em ajudar a libertar mais pessoas da escravidão.

Poucos meses após a primeira viagem, Hutchings voltou ao Paquistão em maio para libertar mais dez famílias. Depois que o vídeo da visita viralizou, ele contou que sua organização recebeu doações suficientes para resgatar mais uma família da escravidão.

Fiscalização fraca

Hall explica que a prática da escravidão sob garantia foi oficialmente proibida no Paquistão em 1992, mas “a fiscalização continua fraca”. A discriminação, porém, vai além do ambiente de trabalho.

Em 2025, a Comissão dos EUA para a Liberdade Religiosa Internacional registrou “ataques recentes e crescentes contra minorias religiosas” no país, incluindo a comunidade cristã.

Nascidas em trabalho por dívida no Paquistão, crianças precisam virar tijolos sob o sol escaldante nos arredores de Lahore. (Foto: Aaron Hutchings)

Durante a visita mais recente, Hutchings soube que encontrar moradia era um grande desafio, já que muitos proprietários se recusavam a alugar para cristãos.

Com o apoio de um grupo cristão paquistanês que acompanhava as famílias, foi possível garantir casas e empregos para os pais, além de um professor para as crianças – a maioria delas ainda analfabeta.

Direitos humanos

Em um relatório de 2023, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Paquistão apresentou uma série de recomendações para aliviar o sofrimento causado pelo trabalho em servidão, que ainda afeta cerca de três milhões de paquistaneses.

Na introdução do documento, a presidente do órgão declarou: “É profundamente revoltante que, no século XXI, a escravidão persista na forma de trabalho forçado.”

Entre as recomendações, estão a proibição do trabalho infantil nas olarias, o apoio para que os trabalhadores tenham acesso à Justiça e a criação de sindicatos para fortalecer a representação coletiva.

O relatório também sugere registrar todos os fornos de tijolos, ampliar o uso de máquinas automatizadas e incentivar compradores a adquirir produtos de fornos “que ofereçam um ambiente de trabalho seguro e digno”.

Representantes do governo paquistanês não responderam às perguntas da Fox News Digital sobre a aplicação das leis contra o trabalho forçado nem sobre o tratamento dado aos cristãos no país.

Tanto Hutchings quanto Hernandez afirmam não ter enfrentado qualquer tipo de complicação com o governo paquistanês enquanto trabalhavam para libertar trabalhadores de olarias.

Para Hutchings, a experiência foi transformadora. “Olhando para trás, é difícil acreditar que tudo isso tenha sido aleatório. Creio que a mão de Deus esteve presente desde o início. E, embora façamos tudo isso para demonstrar o amor de Jesus por essas pessoas, acabamos recebendo mais do que damos”, afirmou.

 

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