As parábolas foram o método de ensino mais usado por Jesus em seu ministério. No entanto, poucos cristãos reconhecem que este era um método muito usado pelos rabinos de seu tempo. Com efeito, as parábolas são a evidência mais forte da identidade judaica de Jesus.
O segundo fato igualmente desconhecido é que o uso de parábolas é a prova irrefutável de que Jesus ensinava em hebraico. Não obstante o esforço em se reconstruir as parábolas em aramaico nas últimas décadas, muitos teólogos simplesmente ignoram o fato de que não há nenhuma só parábola em aramaico, nem em grego, nem em latim. Todas estão em hebraico e a literatura rabínica abrange literalmente milhares delas.
O terceiro fato é que muitas dessas parábolas são semelhantes, pois era comum no judaísmo não inventar histórias, mas reinterpretar muitas delas, aplicando-se lições práticas para enfatizar os mandamentos. A meta da parábola não é destacar a criatividade do rabino que a conta, mas fazer com que o ouvinte se volte para a lição moral de seu ensino.
Ouvir e praticar
Vamos tomar apenas uma delas como exemplo. Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus ensina uma pequena parábola cuja lição abrangia um conceito bem usado no judaísmo, desde o tempo de Moisés, que consistia em ouvir e praticar. O verbo ouvir (lishmoa) implica obediência. O verbo para guardar um mandamento (lishmor) abrange o mesmo significado e é semelhante foneticamente, embora de diferente raiz.
A expressão tão usada por Jesus “aquele que tem ouvidos ouça” contém hebraísmo e está ligado a esse conceito de ouvir no sentido de obedecer, praticando o que se ouve. Muitos dos seguidores de Jesus simplesmente ouviam suas mensagens, mas não o obedeciam. Ou, como se diz no português popular, deixavam sua palavra entrar por um ouvido e sair pelo outro. Essa recusa em obedecer a seus mandamentos permanece ainda hoje por muitos que alegam ser seus seguidores.
Mesma metáfora e mesmo objetivo
É nesse contexto que Yeshua conta uma breve parábola, não sem antes confrontar os que o ouvem, mas não o obedecem. “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lucas 6:46). Em seguida, Ele assemelha ao que ouve suas palavras e as pratica àquele que colocou seus alicerces sobre a rocha antes de construir sua casa. Quando vieram as intempéries, ela permaneceu inabalável. Por outro lado, Ele assemelha ao que o ouve e não pratica ao que ergue sua casa sem alicerces. No primeiro vendaval, ela cai e é completamente destruída (Mt. 7:24-27; Lc. 6:47-49).
A literatura rabínica clássica contém uma parábola exatamente com a mesma metáfora. A história usa a mesma figura de casa construída sobre o firme fundamento das pedras para aquele que aprende a Torá e pratica boas ações. Sua edificação permanece firme nas inundações. Porém, o que aprende a Torá mas não pratica as boas ações é semelhante àquele que constrói primeiro com tijolos e, depois, com pedras por cima. Quando vier a chuva, mesmo fraca, será capaz de derrubá-la [Avot DeRabbi Natan (cap. 24)]. Não apenas a metáfora usada é a mesma, mas o objetivo é o mesmo.
Quem veio primeiro?
Ambas as parábolas enfatizam a necessidade de ouvir e praticar, com o intuito de obedecer. Yeshua contou outras parábolas semelhantes à tradição rabínica, nas quais empregava o mesmo método pedagógico dos rabinos de seu tempo.
Uma pergunta comum poderia surgir aqui: qual das parábolas veio primeiro? Bem, a redação da literatura rabínica clássica se deu nos séculos iniciais da era cristã, porém, a tradição é muito anterior a isso. O texto é tardio, mas o conteúdo é antigo. Não cabe discutir quem veio primeiro; é uma pergunta inapropriada quando se trata de uma cultura baseada na tradição oral que durou séculos até ser redigida.
Há uma probabilidade de que Jesus tenha conhecido essa parábola antes mesmo de iniciar seu ministério. Isso, de modo algum, diminui a eficácia de seu ensino. Ao contrário, Ele a amplifica ao usar imagens já testadas pedagogicamente. Se o público já conhecia essa metáfora, o impacto é maior, pois Ele ativa o repertório dos ouvintes. E aqui entra uma diferença sutil, porém, relevante nas duas parábolas.
As pedras e a Rocha
A da tradição rabínica usa a figura de pedras como alicerce para a casa bem edificada, enquanto Yeshua usa a figura de uma rocha. Na tradição, as pedras representam vários fundamentos sólidos da Torá, incluindo as boas ações daquele que a estuda. Nas palavras de Yeshua, a rocha aludida certamente faz referência implícita a Ele mesmo.
Ao usar essa variação em uma parábola provavelmente já consagrada entre o povo judeu, Yeshua teria escolhido uma forma genial de afirmar que Ele e a Torá são a mesma coisa — a Palavra viva de Deus!
Ao contrário dos filósofos gregos que inovavam a seu bel-prazer, Yeshua, como Rabino itinerante, reinterpretava o que já era conhecido, atribuindo um peso especial ao que desejava ensinar sobre o caráter divino. Por exemplo, Ele faz isso repetidamente ao dar a interpretação correta de diversos mandamentos em sua mensagem mais conhecida — o Sermão do Monte.
Tanto as parábolas como outros métodos por Ele empregados eram os mesmos dos demais rabinos de seu tempo. Eram também uma forma do Senhor dialogar com seu público por meio das raízes judaicas em que estavam inseridos, dando-lhes uma nova perspectiva sobre o Reino do céu.
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Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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