No dia 14 de abril de 2026, Israel celebra oficialmente o Dia da Lembrança do Holocausto — Yom Hashoah — ocasião em que se relembra e se reverencia a morte de cerca de seis milhões de judeus executados pelo partido nazista alemão durante a Segunda Guerra Mundial, assim como todos os heróis, judeus e não judeus, que formaram a resistência para combater contra a máquina nazista e ajudaram a salvar vidas durante esse período.
É um dia dedicado exclusivamente à memória de cerca de dois terços da população judia da Europa, durante o século XX, exterminada sob o regime nazista que perseguiu, prendeu, torturou e matou nas ruas, nos guetos e nos infames campos de concentração e de trabalho forçado seis milhões de pessoas apenas pelo “crime” de terem nascido judias.
Para honrar a memória dos que tiveram sua vida ceifada cruelmente em um dos períodos mais tenebrosos da História, todos os locais de entretenimento são fechados e há cerimônias por todo o país. A principal delas ocorre no Yad Vashem, o Museu do Holocausto, com a presença do presidente de Israel e do primeiro-ministro, autoridades, sobreviventes e suas famílias, quando são acesas seis tochas que representam as seis milhões de pessoas mortas.
Outra cerimônia se inicia com o toque de uma sirene por dois minutos que soa por todo o país. Durante esse curto período, tudo para. Todo trabalho é interrompido, as pessoas param nas ruas, os carros estacionam à beira das estradas e todos permanecem em silêncio em reverência às vítimas do Holocausto.
Onde estava Deus?
Toda a vez em que se aborda o tema Holocausto e a crueldade de uma ideologia que tomou toda a burocracia estatal de um país para exterminar pessoas inocentes, das quais um milhão e meio eram crianças, apenas por terem nascido diferentes, a pergunta comum que se ouve é: Onde estava Deus quando tudo isso aconteceu? A resposta é desafiadora, porém, mais simples do que se imagina.
O rabino Jonathan Sacks foi um dos grandes líderes do judaísmo no mundo contemporâneo e atuou como rabino-chefe do Reino Unido e da Commonwealth de 1991 a 2013. Certa vez, ao ser questionado sobre por que Deus permitira que o Holocausto ocorresse, respondeu que, ao visitar Auschwitz pela primeira vez, ficou transtornado e perguntou a mesma coisa: “Deus, onde estavas?”.
Ele contou, então, que a resposta veio de súbito à sua mente: “Eu estava nas palavras ‘Não matarás’. Eu estava nas palavras ‘Não oprimirás ao estrangeiro’. Eu estava nas palavras ditas a Caim quando matou Abel (o primeiro assassinato na Torá): ‘O sangue de teu irmão clama a mim’”. [1] Com muita sabedoria e lucidez, o rabino Sacks acrescenta que Deus nos dá a liberdade e nunca a tira. Entretanto, Ele nos diz como usá-la. Quando os seres humanos se recusam a ouvi-lo, até Deus fica sem poder.
É uma frase forte, mas verdadeira. Deus se autolimita pelo próprio livre arbítrio que concedeu ao homem, o que norteia o princípio da dádiva da liberdade. A culpa do Holocausto não é de Deus, mas do próprio coração perverso do homem. Não devemos atribuir a Deus a responsabilidade pelo mal executado pelo ser humano.
Os Justos entre as Nações
Na contramão de toda a crueldade, durante as trevas do Holocausto, houve pessoas, inclusive dentro do partido nazista, que não se alinharam a ela, pois viram que era moralmente errado, independentemente de acreditarem ou não em Deus, e arriscaram suas vidas para salvar o máximo de pessoas que puderam. No Yad Vashem, há cerca de 14 mil nomes de gentios que receberam o reconhecimento do Estado de Israel por seus esforços durante a guerra para salvar judeus. Eles são conhecidos como os Justos entre as Nações.
Dentre eles, o mais famoso é sem dúvida Oskar Schindler, imortalizado no filme A Lista de Schindler de Steven Spielberg, que salvou mais de mil judeus dos campos de concentração nazista onde encontrariam a morte certa. No entanto, há muitos outros, menos conhecidos do público em geral, mas que arriscaram suas vidas igualmente, ou até mais do que Schindler, para salvar outros.
Posso citar Irena Sandler, a assistente social polonesa que, junto com suas colegas, contrabandeou cerca de 2.500 crianças para fora do Gueto de Varsóvia. Ao ser descoberta, foi presa e torturada, mas recusou-se a dar o nome de suas colegas. Outro nome menos lembrado é Corrie Ten Boom, uma holandesa que, durante a invasão alemã, tornou sua casa um refúgio secreto para judeus, onde permaneciam até encontrar outro lugar mais seguro. Corrie e sua família salvaram cerca de 800 judeus.
Não poderia deixar de mencionar Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, esposa do escritor e diplomata João Guimarães Rosa. Ela foi funcionária consular brasileira que, durante a Segunda Guerra, ajudou centenas de judeus a escapar da perseguição nazista, emitindo vistos para o Brasil, contrariando inclusive ordens do governo brasileiro que restringia vistos para judeus à época. Por sua atuação, ficou conhecida como o Anjo de Hamburgo, tendo posto a salvação de muitos acima de sua própria vida, o que lhe rendeu o título de Justa entre as Nações pelo Estado de Israel, aliás, a única brasileira agraciada com essa honraria.
O Dia do Holocausto é um memorial não apenas a essas vítimas da crueldade e da perversidade sem limites do coração humano. Representa também o heroísmo e o lado bom desse mesmo ser humano que recebeu de Deus a liberdade para fazer o bem ou o mal. Situações de perseguição e de extrema dificuldade revelam o verdadeiro caráter das pessoas e trazem à tona o que há de melhor ou pior em cada indivíduo. Os Justos entre as Nações, tão celebrados nesse dia, ensinam que cada pessoa individualmente pode fazer a diferença em um mundo assolado por trevas e maldade. Que a memória das seis milhões de vítimas e dos Justos entre as Nações seja abençoada para sempre!
[1] https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/5503498/jewish/Yom-Hasho-Nunca-Esquea.htm
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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