
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor do livro A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog de mesmo nome onde publica estudos bíblicos com ênfase na história, língua e cultura judaicas relacionadas ao cristianismo.

Hoje, 14 de Nisan, inicia-se Pesach, a Páscoa do Senhor, a Festa que dá origem a Israel como nação. Nisan é o cabeça dos meses (Êx. 12:1). É quando Deus manda seu povo zerar a contagem e iniciar uma vida nova. Seguindo-se a Hagadah que é uma espécie de manual de instruções para o seder de Pesach, ou guia litúrgico, a longa refeição se inicia com a pergunta: Ma nishtaná halaila hazeh? — Por que esta noite é diferente das outras?
Esta pergunta é o ponto de partida para se iniciar a longa narrativa do Êxodo e tem o propósito de educar as crianças acerca da história da criação de Israel como nação. Entretanto, é feita também para os adultos, mesmo nos lares em que não haja crianças. Ela se desdobra em quatro perguntas e cada uma delas traz consigo uma resposta que desencadeia mais eventos que contam a saída do Egito e a peregrinação pelo Sinai, uma história dos milagres de como Deus libertou seu povo com mão forte e braço estendido.
Reclinados à mesa
A quarta pergunta é “por que comemos reclinados nesta noite?” Perguntar isso hoje parece não fazer muito sentido, uma vez que comemos sentados em cadeiras em volta da mesa, eretos, embora à vontade. Porém, fazia muito sentido na antiguidade, quando as pessoas comiam sobre tapetes, sentadas no chão (várias culturas ainda o fazem). Isso ocorre principalmente no triclínio, a mesa greco-romana usada por Yeshua em seu último seder. A resposta para essa pergunta é: Porque comemoramos nossa liberdade reclinando-nos em almofadas como a realeza.
Em outras palavras, um escravo não comia reclinado sobre almofadas, mas uma pessoa livre sim. E este é o ponto central de Pesach: um povo que viveu na escravidão, por mais de quatrocentos anos, agora é chamado para ser livre. Quem os liberta é ninguém menos que Adonai Tzevaot — o Senhor dos Exércitos. Comer reclinado à mesa é uma ordenança em Pesach. Passar horas comendo e ouvindo a Hagadah é não apenas uma ordenança, mas um privilégio desfrutado apenas por pessoas livres.
Liberdade x escravidão
A liberdade é a condição com a qual Adão foi criado por Deus e, consequentemente, todos nós. Ela tem sido cantada em versos poéticos e exaltada em cantos líricos desde tempos imemoriais e é um dos valores mais fortes da humanidade, independentemente de cultura, raça ou credo. Por outro lado, o inimigo de nossas almas trabalha desde o princípio da criação do homem para roubá-la e destruí-la, escravizando a descendência de Adão, por intermédio do pecado.
O pecado é um ato voluntário do homem para se afastar de Deus. Ao cometê-lo, em flagrante transgressão às leis divinas, ele concede permissão e legalidade ao inimigo (HaSatan) para algemá-lo e, a partir de então, viver escravizado. O interessante e que também podemos chamar de paradoxo é que o homem escolhe pecar justamente porque tem liberdade para isso. Ainda assim, Deus não retira sua liberdade. Ao contrário, ele a fortalece e nisso se baseia o princípio do livre arbítrio. Somos livres para escolher o que quisermos, porém, prestaremos conta de cada escolha, ação, palavra e até pensamento. Toda liberdade é acompanhada de responsabilidade.
“Luta pela liberdade” é uma frase que se tornou praticamente um mote em nosso tempo, diante de regimes autoritários e opressores que ameaçam as sociedades modernas de nosso país e do mundo. Na verdade, porém, essa é uma luta muito antiga e sua origem está na eterna luta do bem contra o mal, ou do Reino de Deus contra o reino das trevas. Deus ama a liberdade; satanás a odeia e busca roubá-la do homem em todo o tempo. E sua única forma de conseguir êxito é por meio do pecado. É aí que entra em cena o Filho do Homem, encarnado na humanidade para livrá-la do pecado e, como resultado, torná-la livre. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Não há outra maneira de ser livre que não seja pelo Filho.
Firmes na liberdade
Voltando a Pesach e à história do Êxodo, é incrível pensar que, por diversas vezes, o povo em peregrinação no Sinai, mesmo após ver todos os milagres que o Senhor fizera para tirá-lo do Egito, quis voltar à terra de sua escravidão, como se ser escravo para ter um bocado de comida valesse mais que a liberdade que Deus lhe concedera. A analogia é automática. Muitos que receberam o sacrifício redentor de Yeshua preferem tornar ao Egito (velha vida) e serem escravos do pecado, em vez de usufruírem da liberdade que dele receberam.
É nesse contexto que o rabino Paulo (Rav Shaul) escreve: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gálatas 5:1). Esta palavra é para todos que, um dia, experimentaram a extraordinária e incomparável liberdade que temos em Yeshua. E não há melhor época para celebrá-la do que em Pesach, a Festa que o Senhor escolheu para libertar seu povo do Egito e nos libertar do pecado pelo sacrifício do Cordeiro de Deus. Por isso, Pesach é conhecida como zman cheirutenu — tempo de nossa liberdade.
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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