Segurança das comunidades judaicas e os desafios diante do avanço do antissemitismo

Convidado desta coluna, o diretor executivo da CONIB, Sérgio Napchan, reflete sobre o crescimento do antissemitismo e seus impactos nas democracias contemporâneas.

Fonte: Guiame, Silas AnastácioAtualizado: terça-feira, 9 de junho de 2026 às 17:38
(Foto: Conib / Liane G. Zaidler)
(Foto: Conib / Liane G. Zaidler)

Há noventa anos, em uma Europa que começava a sucumbir ao avanço do nazismo e ao silêncio cúmplice diante da intolerância, nascia em Genebra o Congresso Judaico Mundial. A organização surgiu da coragem e da visão de líderes que compreenderam, ainda naquele momento, que a defesa da dignidade humana exige união, representação e ação coletiva.

Quase um século depois, retornar a Genebra para participar das celebrações dos 90 anos do Congresso Judaico Mundial trouxe uma sensação inevitável: a história, infelizmente, voltou a nos alertar.

Entre os dias 10 e 12 de maio, líderes comunitários, diplomatas, especialistas e representantes de diversos países se reuniram para discutir um fenômeno que deixou de ser episódico e passou a integrar o cotidiano das democracias contemporâneas: o crescimento do antissemitismo, do extremismo e da intolerância.

O sentimento compartilhado ao longo dos encontros era claro. O mundo atravessa um momento de inflexão. O discurso de ódio se tornou mais visível, mais normalizado e mais disseminado — especialmente nos ambientes digitais — e seus impactos já ultrapassam a comunidade judaica. Quando o extremismo ganha espaço, toda a sociedade se fragiliza.

Em uma cidade que abriga instituições centrais para a diplomacia internacional, como a Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial da Saúde e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, as conversas também despertaram reflexões importantes sobre o papel das organizações multilaterais em um cenário global cada vez mais polarizado. Permanecer fiel aos princípios da democracia, dos direitos humanos e da convivência entre as nações talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo.

A trajetória do Congresso Judaico Mundial ajuda a compreender a dimensão desse compromisso. Ao longo de nove décadas, a organização esteve presente em alguns dos momentos mais dramáticos da história contemporânea: o Holocausto, os deslocamentos forçados de milhões de judeus, as perseguições na antiga União Soviética, as guerras enfrentadas por Israel e os recorrentes episódios de hostilidade contra comunidades judaicas ao redor do mundo.

Participar dessas celebrações também foi motivo de orgulho para o Brasil. A presença da Sra. Chella Safra representou, com elegância e firmeza, a relevância da comunidade judaica brasileira no cenário internacional.

Da mesma forma, a ampliação da atuação internacional de Claudio Lottenberg, que passou a integrar a comissão de combate ao antissemitismo do Congresso Judaico Mundial e assumiu a copresidência do SECCA (Special Envoys and Coordinators Combating Antisemitism), ao lado de Katharina von Schnurbein, reforça a contribuição brasileira para os esforços globais de enfrentamento ao ódio e à intolerância.

Também merece reconhecimento a atuação de Fernando Lottenberg, cuja trajetória tem fortalecido internacionalmente a defesa da democracia e dos direitos humanos.

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a declaração conjunta assinada pelos enviados especiais e coordenadores internacionais de combate ao antissemitismo. O documento afirma, de forma inequívoca, que o antissemitismo se tornou uma ameaça global crescente, capaz de corroer o tecido social e enfraquecer instituições democráticas.

As medidas defendidas pelos signatários refletem a urgência do momento: fortalecimento da segurança das comunidades judaicas, responsabilização dos autores de crimes de ódio, ampliação da educação sobre o Holocausto e cooperação internacional para enfrentar a disseminação do antissemitismo nos ambientes online e offline.

Mais do que discussões institucionais, os encontros em Genebra deixaram uma percepção humana muito forte: a de que a luta contra o antissemitismo não pertence apenas aos judeus. Judeus e não judeus, representantes governamentais, ativistas e especialistas compartilharam a compreensão de que combater o ódio significa proteger a própria ideia de convivência democrática.

Retorno ao Brasil com a convicção de que nosso país pode desempenhar um papel ainda mais relevante nesse esforço internacional. O fortalecimento de políticas públicas de enfrentamento ao antissemitismo, ao racismo e a todas as formas de intolerância não é apenas uma pauta comunitária. É uma necessidade democrática.

A presença de lideranças brasileiras em posições de destaque no cenário internacional demonstra que a comunidade judaica brasileira segue contribuindo de maneira relevante para o fortalecimento do diálogo, da memória, da justiça e da democracia.

Porque combater o ódio é, acima de tudo, defender a humanidade.

Sérgio Napchan

Diretor Executivo da CONIB

 

Silas Anastácio é fundador do Ministério Davar, evangelista e expositor bíblico com sólida atuação há mais de uma década em temas relacionados ao Estado de Israel e à comunidade judaica. Também desempenha papel estratégico nos bastidores da mídia evangélica, contribuindo para a articulação e divulgação de conteúdos que fortalecem os valores da fé cristã.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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