Silas Anastácio

Silas Anastácio

Fundador do Ministério Davar, evangelista e expositor bíblico atuante há mais de 10 anos em temas sobre Israel e a comunidade judaica. Também tem papel estratégico na mídia evangélica, fortalecendo os valores da fé cristã.

Major israelense alerta: A guerra começa antes do primeiro disparo

Major Rafael Rozenszajn israelense detalha como a desinformação digital molda percepções globais e influencia a leitura de conflitos no Oriente Médio.

Fonte: Guiame, Silas AnastácioAtualizado: sexta-feira, 19 de junho de 2026 às 14:42
Major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF). (Foto: Paula Cohn)
Major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF). (Foto: Paula Cohn)

No último domingo (14), cerca de 300 pessoas ocuparam o auditório da Unibes Cultural, em São Paulo, para uma conversa que transcendia o debate habitual sobre o Oriente Médio.

O que o Major Rafael Rozenszajn, primeiro porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) para falantes de português, apresentou não foi uma defesa de políticas militares, mas um diagnóstico profundo sobre como as guerras contemporâneas são travadas muito antes de qualquer ação efetiva nos campos de batalha.

Em tempos de algoritmos, vídeos virais e narrativas instantâneas, a disputa pela verdade tornou-se uma das frentes mais decisivas dos conflitos modernos.

"Hoje, uma animação de 15 segundos pode atravessar fronteiras, moldar percepções e influenciar mais do que um relatório oficial com fatos e dados profundamente analisados."

A constatação, feita pelo advogado especializado em Direito Internacional e autor do bestseller A Guerra de Narrativas, não era retórica. Era observação precisa sobre um fenômeno que passa despercebido pela maioria: a estética da desinformação moderna não se apresenta como propaganda. Vem disfarçada em memes, animações bem produzidas, vídeos de quinze segundos com lógica narrativa simplificada. Um vilão absoluto. Uma vítima perfeita. Pronto para viralizar.

(Foto: Paula Cohn)

A palestra é parte de uma tour brasileira que passou por Belo Horizonte e Goiânia, com o objetivo de provocar a reflexão de públicos diversos em eventos abertos e para muito além da comunidade judaica. A tese central é simples e perturbadora. Conflitos reais não competem mais apenas com versões rivais, competem por realidade. E, em um ambiente virtual cada vez mais saturado de narrativas, quem controla o algoritmo frequentemente supera quem detém a verdade  dos fatos.

"Guerras reais não funcionam assim.  Quando se reduz um conflito urbano, travado entre um exército de um país democrático e um grupo terrorista, a uma história simplificada, a intenção não é apenas distorcer os fatos. É moldar a percepção global", disse Rozenszajn durante a apresentação.

O padrão é visível em campanhas coordenadas de desinformação que exploram não a universalidade de credibilidade, mas a penetração emocional suficiente. A diferença entre a desinformação de duas décadas atrás e a de hoje é de escala. O ponto não é tecnológico apenas, mas operacional: vídeos, áudios e imagens milimetricamente pensados para mexer com a opinião pública por meio da estética da emoção e com aparência de verdade são gerados em escala industrial.

"Antes era sobre convencer, agora é sobre inundar. Quando tudo parece plausível, a dúvida passa a ser a regra. E quando as pessoas duvidam de tudo, elas escolhem acreditar naquilo que confirma suas emoções", pontua Rozensjan.

Essa observação sintetiza um dilema mais amplo: a verdade exige contexto, tempo e complexidade. A mentira oferece clareza imediata e conforto emocional.

A Industrialização da Mentira

Dois casos que conquistaram manchetes mundo afora ilustram como essa dinâmica funciona na prática. No primeiro, o emblemático caso do Hospital Batista Al-Ahli, no centro de Gaza, atingido por uma explosão em 17 de outubro de 2023. Imediatamente após o ocorrido, o Hamas acusou Israel de lançar um bombardeio que teria matado 500 pessoas. A mídia replicou a narrativa em escala massiva, contrariando pedidos israelenses de aguardar algumas horas para confirmação dos fatos. Diversas evidências de inteligência indicaram, pouco depois, que o impacto foi causado por um míssil lançado pela Jihad Islâmica, grupo aliado ao Hamas, que falhou e atingiu o local. A questão não era apenas de versão conflitante, mas de velocidade narrativa: a acusação viraliza. A correção chega tarde. E quando chega, é frequentemente invisível para quem já compartilhou a mentira.

Outro exemplo replicou padrão semelhante. Acusações sobre morte de civis em uma fila para alimentos novamente posicionaram Israel como perpetrador. Vídeos e documentos posteriores mostraram que tiros eram disparados por operativos do Hamas infiltrados entre os civis. Os mesmos terroristas que roubam alimentos, vendem a preços exorbitantes à população e utilizam a fome em Gaza como arma de guerra. Mais fatos  documentados em material recuperado pelos militares israelenses: áudios, vídeos registrados pelos próprios terroristas, comunicações interceptadas. Todos verificáveis. Nada foi gerado por IA. Mas a corrente de transmissão já estava rompida: a narrativa falsa já havia circulado por plataformas com alcance que nenhuma correção subsequente alcançaria.

O diagnóstico de Rozenszajn sobre instituições guardiãs da verdade é igualmente incisivo sobre o que considera o desafio primordial de Israel na atualidade: como lidar com esse excesso de informações difundidas em profusão como verdades absolutas? Responder a tudo pode amplificar mentiras. Silenciar permite que se tornem dominantes. E o desafio avança também para a maneira como formadores de opinião na mídia, organizações de direitos humanos e academia lidam com as informações em um cenário de realidade contaminada por supostas verdades fabricadas com ajuda da Inteligência Artificial.

“Credibilidade não é construída em crises. É testada nela. Se fatos, sozinhos, não são suficientes, é preciso contexto. É preciso linguagem. E, sobretudo, é preciso humanidade", sintetizou o porta-voz da reserva das FDI.

Brasil entre os países que mais apoia Israel

A questão que paira — e que a presença do Major em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia endereça — é por que uma análise sobre desinformação no Oriente Médio importa para as audiências brasileiras. A resposta é estrutural. O Brasil é consumidor massivo de conteúdo digital, formador de opinião sobre segurança internacional, espaço onde campanhas coordenadas operam rotineiramente. A sofisticação narrativa do conflito no Oriente Médio, pautada pela  simplificação de conflitos complexos, memes ideológicos e exploração emocional, não é episódio exótico. É padrão.

(Foto: Paula Cohn)

O fenômeno é mensurável. A pesquisa Pew Research Center, que acompanha percepção de Israel em diversos países desde 2025, revelou resultado extraordinário para o Brasil em 2026: melhoria simultânea em três métricas essenciais — exatamente quando a imagem de Israel piorou em boa parte do mundo. O apoio total subiu de 32% para 33%. A rejeição total caiu de 58% para 52%. A rejeição mais radicalizada diminuiu de 14% para 13%.

O Brasil é o único país da América Latina com essa melhora simultânea nas três métricas.

Apenas a Grécia apresentou resultado semelhante entre os países analisados. O caso grego, porém, tem explicação situacional: em março deste ano, drones iranianos atacaram base britânica em Chipre, próxima ao território grego. O envolvimento direto na defesa contra o Irã explica a aproximação com Israel. O Brasil não teve fator situacional equivalente. Operou sob discurso oficial crítico a Israel. E ainda assim, sua população demonstrou maior disposição para aprofundar-se em fatos, resistindo ao padrão global”, explica o porta-voz em português das FDI.

A conclusão de Rozenszajn era tanto diagnóstico quanto convite. A tour pelo Brasil não é sobre ganhar debates sobre as ações  militares de Israel. É sobre fornecer ferramentas de leitura crítica e expor o mecanismo da desinformação, não para que acreditemos cegamente em narrativas oficiais, mas para que não acreditemos cegamente em nenhuma informação baseada em relatos unilaterais.

"A guerra de hoje não começa com o primeiro disparo. Ela começa com o primeiro vídeo que você acredita. E muitas vezes, ela já está acontecendo antes mesmo de você perceber."

Os auditórios por onde o Major Rafael Rozenszajn passou ficaram lotados porque a audiência brasileira reconhece, em algum nível, que isso é verdade. Que em um mundo de algoritmos, memes e deepfakes, a defesa da verdade é parte integral do campo de batalha. E que entender como essa disputa funciona e quem está lutando de cada lado é essencial para formar opinião em vez de consumir ideias pré-estabelecidas.

Fonte: Paula Cohn

 

Silas Anastácio (@silasas15) é referência na promoção das relações Brasil-Israel. Escritor, palestrante e articulador, fortalece o diálogo entre lideranças, defende a liberdade religiosa e combate o antissemitismo, conectando universos cultural, diplomático e social.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: “Antissemitismo não encontra respaldo nas Escrituras”, afirma pastor e pesquisador

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