O Parlamento Escocês rejeitou a legalização do suicídio assistido por 69 votos a 57. Caso fosse aprovado, a Escócia seria a primeira parte do Reino Unido a legalizar a morte assistida.
“Cristãos de todo o Reino Unido têm razões para agradecer a Deus pela rejeição dessa proposta profundamente perturbadora”, escreveu Mike Judge, líder cristão evangélico britânico.
A proposta legislativa, apresentada pelo deputado liberal-democrata Liam McArthur, permitiria que adultos com doenças terminais e expectativa de vida inferior a seis meses recebessem assistência médica para pôr fim às próprias vidas.
O Projeto de Lei sobre Morte Assistida para Adultos com Doenças Terminais (Escócia) teria legalizado a possibilidade de um médico ou profissional de saúde autorizado fornecer a um paciente elegível um medicamento letal, com o objetivo de pôr fim à própria vida.
“Em vez disso, os membros do Parlamento Escocês se recusaram a dar esse passo. Por agora, a Escócia foi poupada da criação de um sistema em que os médicos ajudam os pacientes a morrer”, escreveu Judge.
Luta pela vida
Muitas pessoas e grupos defensores da vida trabalharam para garantir que os legisladores compreendessem os perigos dessa proposta.
Eleitores entraram em contato com seus representantes, enquanto entidades médicas e grupos de defesa das pessoas com deficiência alertaram para os riscos que ela representava aos mais vulneráveis.
Um deles foi Jeremy Balfour, um Membro do Parlamento Escocês (MSP) independente, que nasceu sem o braço esquerdo e com o braço direito amputado ao nível do cotovelo. Ele afirmou que pessoas com deficiência estavam “apavoradas” diante da legislação sobre morte assistida.
Ele alertou que o projeto de lei abriria "uma caixa de pandora" e disse que não poderia haver "proteção significativa" contra a coerção.
“Estou implorando que você considere as consequências para os mais vulneráveis”, disse Balfour.
Líderes religiosos de diversas tradições cristãs também apelaram publicamente aos membros do Parlamento Escocês para que rejeitassem o projeto de lei.
Segundo Judge, a mensagem transmitida era simples e profundamente cristã: “A verdadeira compaixão não significa ajudar alguém a morrer, mas sim comprometer-nos a cuidar dessa pessoa em vida.”
E continua: “Os cristãos sabem que a vida humana possui uma dignidade inerente por ter sido criada à imagem de Deus (Gênesis 1:27). Essa convicção moldou o direito e a ética ocidentais por séculos. O mandamento "Não matarás" (Êxodo 20:13) reflete não apenas um sentimento religioso, mas um princípio moral fundamental para a sociedade humana. Quando o Estado autoriza o suicídio assistido, inevitavelmente mina esse princípio.”
Tradição cristã
Segundo Judge, a tradição cristã reformada oferece uma estrutura teológica clara para a compreensão dessas questões.
“O Catecismo Maior de Westminster, em sua exposição do sexto mandamento, ensina que somos chamados não apenas a nos abster de tirar a vida ilegalmente, mas também a preservá-la sempre que possível. Isso inclui cuidar dos enfermos, confortar os que sofrem e proteger os mais vulneráveis”, disse.
“A vida não nos pertence para dispormos dela como bem entendermos. Somos mordomos da vida que Deus nos deu. Como Jó confessou em meio ao sofrimento: ‘O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor’ (Jó 1:21). Nossos dias estão nas mãos de Deus, não nas nossas”, declarou.
Judge diz que para os cristãos, o sofrimento – embora doloroso – nunca é sem sentido.
“O Senhor frequentemente usa a aflição para fortalecer a fé, unir as famílias e demonstrar o poder do amor sacrificial. A resposta ao sofrimento não é a morte, mas o cuidado”, disse.
Cuidados paliativos
Ele também defende cuidados paliativos em vez de criar mecanismos legais para colocar fim à vida.
“Os moribundos precisam de alívio da dor, apoio emocional e da certeza de que suas vidas continuam sendo valiosas para aqueles que os cercam”, defendeu.
“A tradição cristã há muito tempo está na vanguarda desse tipo de cuidado. Hospitais, casas de repouso e instituições de caridade em toda a Grã-Bretanha devem muito aos fiéis que compreenderam que amar o próximo inclui cuidar dos doentes e moribundos com paciência e dignidade. Esse é o caminho que a Escócia deve seguir.”
Luta não acabou
Para Judge, a rejeição deste projeto de lei também terá repercussões além da Escócia.
“A pressão para legalizar o suicídio assistido continua em outras partes do Reino Unido, incluindo Westminster, onde propostas semelhantes estão sendo debatidas. A votação escocesa demonstra que tais medidas não são inevitáveis”, disse.
E continuou: “A preocupação pública com a proteção de pessoas vulneráveis permanece forte. Muitos reconhecem que a legalização do suicídio assistido alteraria fundamentalmente a relação entre médico e paciente, transformando curandeiros em agentes da morte.”
Judge diz que os cristãos devem se encorajar neste momento: “O engajamento ponderado, a oração e o testemunho público podem fazer a diferença.”
