Falar de pentecostalismo no Brasil é tratar de um dos movimentos religiosos mais influentes do nosso tempo. No entanto, um dos equívocos mais comuns no debate público é imaginar que o pentecostalismo seja um bloco uniforme, com uma única forma de culto, uma única teologia e uma única expressão institucional. Essa percepção não corresponde à realidade histórica nem teológica do movimento.
O que chamamos de pentecostalismo é, na verdade, um fenômeno plural. Trata-se de um movimento que nasceu no início do século XX, marcado pela ênfase no batismo no Espírito Santo, na atualidade dos dons espirituais e na expectativa da volta de Cristo. No Brasil, igrejas como a Assembleia de Deus desempenharam papel decisivo na consolidação dessa espiritualidade, formando comunidades profundamente comprometidas com oração, santidade e missão.
Com o passar das décadas, novas expressões surgiram. Movimentos com forte ênfase em cura divina e evangelismo de massa ampliaram o alcance do pentecostalismo nas cidades brasileiras. Posteriormente, correntes que passaram a ser identificadas como neopentecostais introduziram novas linguagens, novas estruturas administrativas e novas ênfases teológicas, especialmente na área de batalha espiritual e prosperidade. Paralelamente, experiências carismáticas atravessaram igrejas históricas, mostrando que o fenômeno pentecostal não se restringe a uma única tradição denominacional.
Essa diversidade histórica revela que o pentecostalismo não é homogêneo. A pluralidade também se manifesta no campo teológico. Dentro do próprio universo pentecostal há diferenças relevantes na compreensão da graça, do livre-arbítrio, da segurança da salvação, da santificação e da escatologia. Grande parte do pentecostalismo clássico brasileiro desenvolveu-se em diálogo com a tradição arminiana, enfatizando a responsabilidade humana diante da graça divina. Em outros contextos, há aproximações com perspectivas reformadas, além do surgimento de produções teológicas contextualizadas na América Latina, na África e nos Estados Unidos.
Ignorar essa pluralidade é reduzir um fenômeno complexo a uma caricatura. No debate público, muitas vezes o pentecostalismo é identificado exclusivamente com suas expressões mais midiáticas ou controversas. Esse recorte parcial gera generalizações injustas. Há comunidades pentecostais profundamente comprometidas com formação bíblica séria, responsabilidade social, ética pública e produção acadêmica. Há igrejas que investem em educação teológica, ação social e missões transculturais. Tomar uma parte pelo todo é intelectualmente inadequado.
A pluralidade, contudo, não significa ausência de identidade. Apesar das diferenças internas, há elementos que atravessam as diversas expressões pentecostais, como a centralidade da experiência com o Espírito Santo, a crença na atualidade dos dons espirituais, uma espiritualidade participativa e um forte impulso missionário. O desafio contemporâneo não é negar a diversidade, mas discernir o que pertence à essência do movimento e o que constitui expressão cultural ou contextual.
O pentecostalismo brasileiro amadureceu. Ele deixou de ser apenas um fenômeno periférico e tornou-se ator relevante na cultura, na política e na vida pública. Esse novo cenário exige maturidade teológica e responsabilidade intelectual. A pluralidade do pentecostalismo não é sinal de fragilidade, mas de vitalidade histórica. No entanto, vitalidade sem discernimento pode gerar confusão. Por isso, compreender a diversidade interna do movimento é passo fundamental para um diálogo público mais honesto e para uma reflexão teológica mais consistente sobre sua identidade e missão no século XXI.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
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