Ediudson Fontes

Ediudson Fontes

Pastor auxiliar da Assembleia de Deus Ministério Cidade Santa no RJ. Bacharel pela Fateos. Pós-graduação em Ciência das Religiões. Mestrado em Teologia Sistemática pela Fateos. Professor de Teologia, escritor e consultor teológico. Autor de “Panorama da T

115 anos das Assembleias de Deus no Brasil: Uma história de fé, avivamento e transformação

A igreja nasceu do trabalho missionário dos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, que chegaram ao Brasil após vivenciarem experiências pentecostais nos EUA.

Fonte: Guiame, Ediudson FontesAtualizado: terça-feira, 9 de junho de 2026 às 17:52
Os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. (Foto: Wikimedia)
Os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. (Foto: Wikimedia)

No dia 18 de junho de 2026, as Assembleias de Deus no Brasil celebram 115 anos de existência, um marco histórico da maior denominação evangélica do país, com dezenas de milhões de fiéis e milhares de igrejas espalhadas por todo o território nacional.

A igreja nasceu do trabalho missionário dos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, que chegaram ao Brasil após vivenciarem experiências pentecostais nos Estados Unidos, na Igreja Batista em Chicago.

Ao desembarcarem em Belém do Pará, os missionários inicialmente se uniram à Igreja Batista local. No entanto, divergências doutrinárias sobre o batismo com o Espírito Santo – cuja evidência é o falar em línguas estranhas – motivaram a saída do grupo, que passou a se reunir na casa de Celina Albuquerque, na Rua Siqueira Mendes, no bairro Cidade Velha.

Desafios da denominação pentecostal para os nossos dias

Os principais desafios das denominações pentecostais na atualidade envolvem a contextualização da fé na sociedade contemporânea, o déficit do pendor pentecostal – entendido como a perda da prática bíblico-apostólica original – e o enfrentamento das críticas dos movimentos emergentes, que questionam a postura considerada arrogante das igrejas tradicionais.

No aspecto teológico, o movimento pentecostal enfrenta o desafio de preservar a prática pentecostal original, como o batismo no Espírito Santo e as manifestações espirituais, diante da crescente burocratização das igrejas, que se transformaram em “empresas de salvação”.

No contexto contemporâneo, surge também a necessidade de responder ao descontentamento crescente de pessoas que buscam contextualização da fé e formas comunitárias de construção do conhecimento, não reconhecendo a Palavra como única fonte de autoridade.

Do ponto de vista sociológico, o pentecostalismo enfrenta críticas relacionadas à Teologia da Prosperidade, acusada de reforçar valores neoliberais, como individualismo, competitividade e a ideia do “faça você mesmo”, especialmente nas periferias urbanas.

(Imagem ilustrativa gerada por IA)

No aspecto organizacional, os desafios incluem a profissionalização da gestão eclesiástica, o uso intensivo das redes sociais e guerra espiritual contra outras religiões, como as de matriz africana e os espíritas.

No campo cultural, o movimento enfrenta questionamentos sobre a supervalorização de pautas conservadoras e tradicionalistas, além dos desafios relacionados à intolerância religiosa e a possível neofascistização da sociedade.

No contexto brasileiro, o pentecostalismo representa a pujança evangélica com alcance mundial, crescendo especialmente nas periferias urbanas. Para o catolicismo, o pentecostalismo, com seu proselitismo, é o maior desafio, pois preenche necessidades que o catolicismo não atinge.

O movimento precisa equilibrar sua estrutura flexível e descentralizada, com igrejas em células, com a manutenção do carisma apostólico original, evitando transformar-se em mera empresa burocrática que perde o brilho espiritual.

Em relação à assistência e à solidariedade, em muitas regiões, especialmente em áreas de vulnerabilidade social onde a presença do Estado é limitada, as congregações da AD atuam como polos de assistência, suporte emocional e integração social, preenchendo lacunas de bem-estar social por meio de suas redes de membros.

Conclusão

Ao celebrar 115 anos de existência no Brasil, as Assembleias de Deus consolidam-se como a maior denominação evangélica do país, fruto do legado missionário de Daniel Berg e Gunnar Vingren e da experiência pentecostal que transformou profundamente o protestantismo brasileiro.

Do encontro na casa de Celina Albuquerque, em Belém do Pará, às milhares de congregações espalhadas por todo o território nacional, as ADs testemunham a pujança do movimento pentecostal.

Nos dias atuais, a denominação enfrenta desafios que exigem equilíbrio delicado: preservar o pendor pentecostal original  (marcado pelo batismo no Espírito Santo e pelas manifestações espirituais), sem permitir que a burocratização transforme as igrejas em meras "empresas de salvação"; contextualizar a fé na sociedade contemporânea, respondendo ao descontentamento de fiéis que buscam conhecimento criado em comunidade; e enfrentar críticas à Teologia da Prosperidade, que reforça valores neoliberais nas periferias urbanas.

Paralelamente, as congregações da AD desempenham função social crucial, atuando como polos de assistência e integração social em áreas de vulnerabilidade onde a presença do Estado é limitada.

Essa dupla missão (espiritual e social) representa tanto o legado quanto o caminho futuro da denominação: preservar o carisma apostólico original enquanto se mantém flexível e descentralizada, evitando transformar-se em estrutura burocrática que perde o brilho espiritual.

Para o catolicismo e para as igrejas históricas, o pentecostalismo das Assembleias de Deus permanece como o maior desafio proselitista, pois preenche necessidades que outras instituições religiosas não atingem.

O futuro da denominação dependerá de sua capacidade de equilibrar tradição e inovação, espiritualidade e assistência social, mantendo viva a experiência pentecostal original sem perder a conexão com as realidades contemporâneas das periferias brasileiras, que continuam sendo seu principal campo de atuação.

 

Referências bibliográficas

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleia de Deus: Origem, Implantação e Militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

______, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleia de Deus (1911-2011). Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.

CONDE, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 1962.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

 

Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Como a teologia pentecostal assembleiana interpreta os últimos dias

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