A promotora acha que Deus está morto

Após reação a um poema cristão citado em evento no Rio de Janeiro, refletimos sobre laicidade, secularização e a ideia da “morte de Deus” na sociedade contemporânea.

Fonte: Guiame, Sergio Renato de MelloAtualizado: quarta-feira, 15 de julho de 2026 às 18:08
(Foto: Reprodução/Acterj)
(Foto: Reprodução/Acterj)

Uma promotora de justiça, em um evento em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, reclamou de um poema evangélico citado por um instrutor que mencionou Deus antes de sua fala.

Sua reclamação repercutiu nas redes sociais. Críticas e aplausos. Em um mundo de virtudes relativas, em que cada um possui suas próprias virtudes, as pessoas parecem super-humanos de laboratório universitário, com corações e almas fabricadas para não sentirem dor.

Explicar para a promotora de (in) justiça a diferença entre Estado laico e laicismo, acredito, não resolve. Ela já sabe ou deve saber a respeito. Estudou para isso. Com certeza, seja por um motivo ou outro, basta ver novamente os vídeos que circulam aos montões na internet. Aconteceu tudo isso naquele momento: as pessoas oraram, jejuaram, tomaram a Santa Ceia, invocaram o nome de Jesus, de Deus, pessoas foram curadas, libertas, aceitaram Jesus como salvador, o recitador do poema tentou convencer que o Deus cristão é o único caminho. E, enfim, pessoas caíram endemoninhadas, certo?

Já que o assunto é sobre fé, dá para perceber no que a promotora acredita, a sua cosmovisão. A promotora acredita que a Constituição Federal e as leis são respostas adequadas para os problemas humanos. Adotou-se o hábito do Supremo Tribunal Federal de afirmar: Tudo nas leis, nada fora delas, nada contra elas! Esta é a cosmovisão do jurista positivista, que não vê que por trás de um artigo de lei tem muita gente brigando.

Ora, sobre o aspecto espiritual do direito, a Constituição e as leis precisam passar por um rigoroso processo de aprovação para serem consideradas válidas. Não me refiro ao processo legislativo de aprovação do Congresso Nacional. Abordo a importância espiritual da Constituição e das leis. O que Montesquieu escreveu em Do espírito das leis.

Nietzsche, em Assim falou Zaratustra e em A gaia ciência, anuncia a morte de Deus, o que possibilita a ascensão de um homem que se perde em sua própria desgraça.

Em Assim falou Zaratustra, o filósofo relata Zaratustra encontrando um santo no bosque e perguntando o que ele fazia ali. O santo diz que faz canções, com elas ri, chora, murmura e louva a Deus. O santo questiona o que Zaratustra trouxe como presente. Zaratustra parte, para não interromper a sua divina contemplação. Zaratustra se pergunta se o santo ainda não percebeu que Deus morreu.

Eis o primeiro que não sabe que, segundo Nietzsche, Deus morreu: um santo.

Nietzsche descreve um Papa aposentado que busca com desespero o último santo, aquele que, para sua própria sorte, não soube que Deus estava morto.

Ou seja, o Papa também está perdido, segundo o filósofo da morte de Deus.

Se a promotora lesse Nietzsche, entraria em parafusos logo na primeira página de Assim falou Zaratustra e de A gaia ciência, sem perceber que o filósofo visava salvá-la, assim como desejava ajudar cientistas (incluindo juristas) em suas aventuras científicas. Ele criticava o desejo de alterar a vida alheia e o mundo, buscando virtudes novas às custas das antigas, tentando transformar o homem comum em um super-homem, sem ou com novos valores que serviram a políticas desumanas.

A fala inadequada da promotora foi inconstitucional. É inconstitucional qualquer ação de agentes do Estado que não deixe a vida andar sozinha, seguir seu caminho emancipado.

Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche critica as "cátedras da virtude" e os "visionários do além". A personagem de Zaratustra falha, pois os homens o ignoram.

Em A gaia ciência, anterior a Assim falou Zaratustra, Nietzsche escreve sobre a ciência dos doutos e a religião tradicional e seus valores. Escreveu a parábola do demente.

Um demente, no mercado, com uma lanterna, gritava: “Estou procurando Deus!”, perguntando onde ele estava. As pessoas respondiam surpresas: “Deus se perdeu?”. O demente dizia que todos o mataram. E, por fim, o insano declara: “Deus está morto!”. Afirmou que a morte de Deus era constante, já ocorrera e acontecia naquele instante.

Jesus diria que a mensagem é clara: devemos buscar os últimos santos, ouvir aqueles que falam sobre questões elevadas e que são considerados loucos, e ignorar os que promovem injustiça, que se deixaram descristianizar, secularizar e secar.

 

Sergio Renato de Mello é defensor público de Santa Catarina, membro da Igreja Universal do Reino de Deus, autor de obras jurídicas e filosóficas, e dos seguintes livros: Fenomenologia de Jornal, O que não está na mídia está no mundo e Voltaram de Siracusa.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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