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A sala do consultório

A sala do consultório

Atualizado: Sexta-feira, 25 Dezembro de 2009 as 12

Detesto esperar por médico. No Brasil, marca-se uma consulta para as três horas para ser atendido às quatro. Essa falta de consideração com os pacientes já é cultural. Mas pior, pior mesmo, é ser obrigado a ler revistas espalhadas pelas poltronas plásticas. E saber como os ricos e famosos comem, dormem e transam. Não há suplício maior para quem já está doente. Haja estômago!

Não suporto as fotos posadas de endinheirado querendo exibir salas, potros, malas e novos amores. Todas parecem falsas, com um retoque de mentira; parecem flor artificial em penteadeira de lupanar.

Todavia, vencido pelo tédio do atraso médico, fraquejo e começo a folhear as revistas velhas (porque os consultório só têm revista velha?) O estômago embrulha com os casamentos luxuosos, com os iates, com as viagens a Bariloche.

Não suporto os risos marmorizados. Acho difícil engolir a farsa pequeno-burguesa. Nessas revistas ? algumas possuem ilha e castelo ? o paraíso fica pertinho. E retratado com quatro cores. Ninguém sofre ? riquinho não chora, só se chateia -, ninguém se angustia, ninguém toma ansiolítico. Nenhum é mau marido. Nenhum sonega imposto. Pelo rosto, dá para imaginar como as mulheres são ótimas na cama (?!?!).

Os apaniguados da injustiça social são grandes ingênuos. Não atinam para o ridículo que se expõem. Talvez saibam que não estão sós.

O povaréu os admira porque também quer escapar da crueldade da existência. A verdade que agride é igualitária. E as revistas vendem. Existe uma multidão que ambiciona ganhar o dinheiro que os bacanas ostentam.

A Grande Farsa seduz. O que importa? Nem que seja em sonho, o povão quer aquela irrealidade. Auto-enganar-se em uma ilha grega parece bem melhor do que nas praias sujas e lotadas das grandes cidades. O que é melhor, beber conhaque em copo de geléia ou vinho francês em taça de cristal?

Os sortudos servem, assim, de espelho. A plebe fascinada se projeta na ilusão. O Céu parece plausível. E fica ali, pertinho. O Nirvana se realiza todas as semanas. A Cidade Celestial desce à terra em cada edição. Antes de morrer, alguns já entraram pelos Portões de Pérola, não há dúvida. Ao povaréu, resta  rezar, orar, dar o dízimo, apelar para santo Expedito, obedecer aos conselhos do apóstolo. Talvez, um dia, experimentem o mesmo ócio bendito.

Igrejas neopentecostais, loterias, revistas de fofoca, são a mesma coisa. Todos prometem à ralé a sublime graça de gargalharem enquanto o restolho humano trabalha, sofre e agoniza.

De agora em diante, escolherei médico pelas revistas que disponibilizar no consultório. Ando empapuçado com promessa religiosa e com novo rico metido a besta.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia. Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

Site oficial:

www.ricardogondim.com.br

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