
Daniel Ramos é professor de teologia deste 2013 pela EBPS (Assembleia de Deus em Belo Horizonte). Graduado em Teologia pela PUC Minas (2013), pós-graduação em Gestão de Pessoas pela PUC Minas (2015), especialista em Docência em Letras e

INTRODUÇÃO
Em um contexto cultural marcado pelo consumismo, individualismo e pela apropriação privada dos recursos, a igreja evangélica contemporânea frequentemente reduz o conceito de "mordomia" a campanhas de contribuição financeira. Essa visão fragmentada negligencia a profundidade e abrangência que a doutrina possui nas Escrituras. O problema de pesquisa que este artigo enfrenta é a desconexão entre a teoria teológica da mordomia integral e sua prática na vida do crente e da comunidade de fé.
1. FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS DA MORDOMIA
1.1 A Soberania de Deus: O Dono de Todas as Coisas. A mordomia cristã não começa com o homem, mas com Deus. A doutrina da Creatio ex Nihilo (criação do nada) estabelece que Deus é o proprietário absoluto de todas as coisas (Salmo 24:1; 50:10-12). O salmista declara: "Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam". Este princípio é o alicerce irremovível: o homem é um administrador (oikonomos), nunca o proprietário final.
1.2 A Imago Dei: O Administrador Designado. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-28). Parte dessa imagem implica a responsabilidade de governar, cuidar e desenvolver a criação como representante de Deus. O "mandato cultural" ou "mandato da criação" concede ao homem a vice-regência sobre a terra, tornando-o um mordomo por design divino.
1.3 A Queda: A Corrupção da Mordomia. O pecado, na sua essência, foi uma revolta contra a mordomia. Adão e Eva desejaram ser "como Deus" (Gênesis 3:5), usurpando a posição de proprietários e rejeitando seu papel de dependentes e administradores. A Queda corrompeu todas as relações: com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a criação. A mordomia tornou-se autocentrada, exploratória e infiel.
1.4 A Redenção em Cristo: A Restauração do Mordomo. A obra redentora de Cristo restaura o potencial para uma mordomia fiel. Em Cristo, somos "comprados por preço" (1 Coríntios 6:19-20), e nossa vida já não nos pertence. A regeneração pelo Espírito Santo capacita o crente a viver não para si mesmo, mas para Aquele que por ele morreu e ressuscitou (2 Coríntios 5:15). A redenção reconecta o mordomo ao Proprietário, restabelecendo o propósito original da vida como uma oferta a Deus.
2. AS DIMENSÕES DA MORDOMIA CRISTÃ
2.1 Mordomia da Vida e do Corpo. O corpo do crente é templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19). A mordomia do corpo envolve cuidar da saúde física, mental e emocional, praticando a santificação e abstendo-se de impurezas. É a dedicação integral da própria vida como um culto racional a Deus (Romanos 12:1).
2.2 Mordomia do Tempo. O tempo (kairós) é um dom divino a ser redimido, pois "os dias são maus" (Efésios 5:16). A mordomia do tempo implica em priorizar o Reino de Deus, equilibrar trabalho, descanso, culto e relacionamentos, reconhecendo que nossa vida é um "vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece" (Tiago 4:14).
2.3 Mordomia dos Talentos e Dons Espirituais. Cada crente recebeu dons (charismata) e habilidades (talentos naturais) para o serviço no Corpo de Cristo e para a edificação da igreja (1 Pedro 4:10; 1 Coríntios 12:7). A mordomia dos talentos é a descoberta, o desenvolvimento e a doação dessas capacidades para o bem comum e a glória de Deus, seguindo a Parábola dos Talentos (Mateus 25:14-30).
2.4 Mordomia dos Bens Materiais. Esta é a dimensão mais associada ao termo, mas deve ser entendida em seu contexto correto. Envolve:
a) Ganhar com integridade: Trabalho honesto como adoração (Efésios 4:28).
b) Dizimar e ofertar: O dízimo como um princípio de reconhecimento da soberania de Deus e as ofertas como expressão de gratidão e amor (Malaquias 3:10; 2 Coríntios 9:6-7).
c) Poupar com sabedoria: Planejamento para o futuro e para a família (Provérbios 6:6-8; 1 Timóteo 5:8).
d) Doar com generosidade: Apoio aos necessitados e à obra missionária (2 Coríntios 8:1-5; Gálatas 6:6-10).
2.5 Mordomia da Criação. A responsabilidade ecológica é uma extensão do mandato cultural. Cuidar do meio ambiente é um ato de obediência a Deus e de amor ao próximo, preservando os recursos para as futuras gerações (Gênesis 2:15).
3. IMPLICAÇÕES PRÁTICAS PARA A IGREJA
3.1 A Mordomia como Disciplina Espiritual. A prática da mordomia fiel deve ser cultivada como uma disciplina espiritual, assim como a oração e o jejum. Ela combate a avareza, cultiva a generosidade e fortalece a fé na provisão divina.
3.2 A Mordomia e o Discipulado. O ensino sobre a mordomia deve ser integrado ao processo de discipulado, formando novos convertidos com uma mentalidade de administradores, e não de consumidores da fé. É um tema central para a maturidade cristã.
3.3 A Mordomia e a Sustentabilidade da Missão da Igreja. Uma comunidade que pratica a mordomia integral experimenta maior liberdade e recursos para cumprir sua missão. As finanças da igreja tornam-se saudáveis, os ministérios são sustentados por voluntários capacitados (mordomia dos talentos) e a igreja testemunha de forma poderosa em uma sociedade materialista.
3.4 Desafios Contemporâneos. A igreja precisa enfrentar desafios como o ensino da "Teologia da Prosperidade", que distorce a mordomia, e o secularismo, que nega a soberania de Deus. A resposta é um ensino bíblico, consistente e modelado pelos líderes.
CONCLUSÃO
A Mordomia Cristã, longe de ser um tema periférico ou meramente financeiro, é uma doutrina central que define a identidade e a missão do povo de Deus. Ela flui da compreensão de que Deus é o soberano Criador e Proprietário de tudo, e que nós, criados à sua imagem e redimidos por Cristo, somos Seus mordomos, encarregados de administrar fielmente todos os recursos que Ele nos confia.
Este artigo demonstrou que uma mordomia integral abrange a vida, o tempo, os talentos, a criação e os bens materiais. Sua prática é a expressão prática do discipulado, um antídoto contra o materialismo e um catalisador para a missão da igreja. O resgate desta visão holística é urgente para a saúde espiritual das comunidades de fé e para a credibilidade do testemunho cristão no século XXI.
A mordomia fiel não é, em última análise, sobre dar o que temos, mas sobre devolver a Deus o que já é dEle, vivendo cada momento em consciente, grata e obediente dependência dAquele a quem pertencem "o reino, o poder e a glória para sempre".
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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STEWART, James S. A Mordomia de Deus. In: O Púlpito hoje. São Paulo: ASTE, 1975.
WRIGHT, Christopher J. H. A Ética do Antigo Testamento como Missão. São Paulo: Vida Nova, 2016.
Para saber mais, acesse o podcast:
Daniel Santos Ramos (@profdanielramos) é professor (Português/Inglês - SEE-MG, EJA/EM/EFII), colunista do Guia-me e professor de Teologia em diversos seminários. Possui Licenciatura em Letras (2024), Bacharelado/Mestrado em Teologia (2013/2015) e pós-graduação em Docência. Autor de 2 livros de Teologia, tem mais de 20 anos de experiência ministerial e é membro da Assembleia de Deus em BH.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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