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Sacramentos

Sacramentos

Atualizado: Sexta-feira, 20 Agosto de 2010 as 8:59

Tenho em minha estante um volume do "manual de doutrinamento" que meu pai usou quando se preparava para o batismo na Primeira Igreja Batista de Santos, em 1952. Esse livro, evidentemente, é diferente de todos os outros. Não pelo conteúdo, pela raridade do exemplar, pelo material usado em sua composição, pelo célebre pastor que responde por sua autoria ou pelo seu valor financeiro. O livro é único por uma simples razão: pertenceu ao meu pai e é um dos pouquíssimos objetos que me restaram e que, um dia, passaram pelas mãos do meu pai, que hoje mora no céu. O livro é, portanto, uma espécie de sacramento: suscita em meu coração algo que nenhum outro livro é capaz de provocar  memória de afetos, identidade, saudade e esperança. Quando manuseio esse livro - e o faço em momentos especiais, experimento uma proximidade que vai além do tempo e do espaço. Meu pai não está mais aqui, não o vejo, não o sinto e não me comunico com ele. Mas tenho comigo algo que era dele e que agora é meu: o que é do pai é herança para os filhos, e olhando para o livro sou invadido pelo senso de filiação, que ninguém mais, senão minha irmã, pode experimentar quando tem o livro nas mãos.

Deus também espalhou sacramentos. O contato com as coisas de Deus desperta, no coração dos filhos de Deus, a singela alegria que resulta da lembrança de sua identidade mais profunda. Suscita na consciência dos filhos de Deus a gratidão pelo privilégio de desfrutar, com legitimidade e integridade, de tudo quanto pertence a Deus. Faz brotar um senso de reverência que singulariza as coisas de Deus e conferem a cada uma delas a dignidade dAquele que lhes deu origem, essência, substância e consistência. Os sacramentos de Deus refletem a imagem do próprio Deus. São sinais de uma presença? sim, diferentemente de meu pai, nosso Pai Celestial está aqui, podemos ouví-lo, sentí-lo, percebê-lo, experimentá-lo, conversar com Ele e dEle desfrutar, nEle descansar.

Algumas pessoas pensam que os sacramentos de Deus ocupam os altares das igrejas, ficam reclusos e guardados a sete chaves nos templos, sob os cuidados vigilantes dos "dignos representantes de Deus", que se acreditam comissionados por Ele para preservar os valiosos objetos do contato com as gentes comuns, que não sabem valorizar o que é de Deus. Outros acreditam que os sacramentos de Deus ficam contidos em cerimônias e rituais, oficializados pelos tais "dignos representantes de Deus". Mas não estou entre esses que assim acreditam.

Acredito que os sacramentos de Deus estão por aí, acessíveis a todos os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir: a noite de luar, o pôr do sol, o brilho de uma estrela; as aves do céu, as flores do campo e os movimentos das marés; o suor do trabalhador, a beleza da matemática e a sublimidade da música; a partilha do pão, o sorriso da criança e o andar cansado do idoso; a honradez do pai de família, o carinho da mãe e a alegria da fraternidade. No dia quando o Verbo se fez carne e habitou o corpo indefeso e frágil de uma criança em Belém, todos ficaram sabendo que o tempo e o espaço sempre foram grávidos de Deus. O mundo e a vida foram finalmente redimidos como sacramentos.

Ed René Kivitz   é mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista de Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo, tendo obras e pastorais publicados neste site:   www.ibab.com.br .

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