Caetano Veloso já havia dito: reze pelo Haiti

Caetano Veloso já havia dito: reze pelo Haiti

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:28

A teologia procura dar respostas. Há momentos, no entanto, que respostas são incompletas e insuficientes. Os profetas hebraicos perceberam isto no assombro de suas perplexidades, chegando ao final de suas vidas sem muitas das respostas que ansiavam. O estilo literário algumas vezes usado pelos profetas nos ajuda a entender a resignação e esperança mesmo quando não haviam respostas, suas mensagens estão recheadas de poesia. Enquanto o racional fala e explica ao intelecto, a poesia penetra e fala onde o racional não encontra eco, a poesia fala a linguagem da alma, explica as razões que a razão desconhece, consola e conforta, mesmo com a presença incômoda do mistério.

Em 1993 em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso lançou a música Haiti. A letra de sua autoria, diz num dos trechos: Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui. Na música, ele traça uma comparação entre as misérias e desgraças daquele povo com os desmandos de desgraçadas mentes que exploram com injustiças o nosso povo. Caetano fez poesia, e fez bem. Em 1993 certamente nem imaginava a tragédia de 2010.

O trecho de um parágrafo da matéria de capa da Veja desta semana define como sempre foi o Haiti: Habitualmente, o Haiti já vive um estado de emergência. A miséria é endêmica... Descrever o Haiti como país mais pobre das Américas - e o marco zero da aids também - não dá ideia nem aproximada da realidade.

Vai demorar até se chegar a um número oficial aproximado dos mortos, existem fontes que falam em 45.000, outras em 200.000. Números gritam, a quantidade determina o tamanho da tragédia. O fato é que dia 12, as 16h53, 19h53 no horário de Brasília, o Haiti foi sacudido por um terremoto de magnitude 7. São datas que entram para a história. Como o terremoto em Aleppo em 1138, na Síria, com 230.000 mortos aproximadamente. O terremoto de Shaanxi em 1556, na China, com 830.000 mortos aproximadamente. E, recentemente, o tsunami na Indonesia, em 2004, com aproximadamente 230.000 mortos.

Como aceitar? Como entender? Lembro das explicações que sempre ouvia em algumas pregações. Não pergunte por que? Mas pergunte pra que? O detalhe é que em tragédias desta proporção o perguntar pra que não explica muito, ou nada. Com o tempo as sacadas das exposições homiléticas mudavam. Não pergunte pra que? Mas pergunte onde? Não pergunte onde? Mas pergunte quando? Assim, sucessivamente mensagens vão sendo proferidas e livros sendo escritos, tentando oferecer um pouco de lógica para eventos que, efetivamente, não temos respostas. Pelo menos eu não tenho.

O problema com tsunamis e terremotos é que desabam numa pancada só e matam no atacado. Humanos que somos, anestesiados pelo conformismo, outros tipos de tsunamis e terremotos que acontecem todo dia nem notamos, se notamos não nos abalamos. Quanta gente morre todo dia no trânsito, no álcool, nas drogas, nos morros, nos abortos? O número é assustador, milhares e milhares. Mas não chamam nossa atenção, a ajuda em milhões e milhões de euros e dólares internacionais nunca chega, as lágrimas derramadas por estas mortes nunca são em larga escala, mas secretas e solitárias, derramadas pelas vítimas e seus amados, se é que todas tem pelo menos um amado.

Por que? Pra que? Onde? Quando? Jó morreu sem saber. A poesia continua sendo um bom refúgio para períodos de dor, consoladora e alimentadora da nossa esperança. Não me entenda mal, acho legítima a tentativa das respostas e, de fato, em parte elas respondem, mas diante da dor, só em parte.

Acompanho uma mãe extremamente religiosa, correta, honesta, cheia de amor pelo próximo e a Deus, mas ela está de luto até hoje. Há quase 4 anos sua filha morreu. Ela aceita, mas não entende. Às vezes entende, mas não aceita. Nenhuma resposta teológica é boa o suficiente para a dor que ela sente. O que faço? Ouço quando ela quer falar. Choro quando ela quer chorar. Rio quando ela quer rir. Abraço quando ela quer abraçar. E oro, oro muito por ela, oro pelo Haiti, afinal, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui.

Falta nos nossos seminários o que sobra na vida, o que sobra na Bíblia, poesia! Diante das perguntas Por que? Pra que? Onde? e Quando?, a poesia bíblica oferece uma resposta que gosto, pelo menos a mim muito consola, mesmo sem responder, dá razão e segurança à minha frágil e pequena fé. Sempre que questiono muito, coisas e eventos que não entendo, ouço uma palavra: Aquietai! É assim que nos versos 10 e 11 do Salmo 46, a poesia do salmista acalma nossas inquietações: Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações, serei exaltado sobre a terra.

O Haiti, afirma a poesia de Caetano, está mais próximo de nós do que imaginamos. Nenhum haitiano esperava tal tragédia naquela tarde, ela veio de repente. É sempre assim, de repente, tudo parece caminhar bem, na mais perfeita normalidade, de repente, sem explicação, sem satisfação, a tragédia acontece. Como entender? Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus na alegria e na dor, na bonança e na tempestade, na vida e na morte. Na resposta ou na ausência de resposta. Tão somente e confiantemente, aquietai-vos.

Paz!

Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: '"Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

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