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Eu te amo, porque...

Eu te amo, porque...

Atualizado: Segunda-feira, 6 Maio de 2013 as 2:50

 

amorVi numa publicação em rede social, de um irmão para outro, a seguinte exclamação: “Amo você, porque você é um sucesso!”, e juro, me senti mal com aquilo, lá no íntimo do meu ser, como quando leio alguma heresia daquelas bem gritantes, do tipo, “o livre arbítrio não existe” ou “Jesus Cristo não ressuscitou”.
 
Fiquei estatelada diante do monitor tentando imaginar o que aquele irmão conhece sobre o amor. Não os textos bíblicos sobre o assunto, pois cristão que é, deve conhecer muitos, mas o que ele porventura pensa que seja o dom supremo. Cogitei se ele havia pensado bem antes de escrever aquilo, se havia refletido nas implicações da sua declaração, e “calculei” quantas pessoas mais devem ter o mesmo tipo de pensamento, usando porquês para justificar os seus amores.
 
O que aquilo, afinal, queria dizer? Por acaso que “se você deixar de ser um sucesso, acabaram-se meus motivos para lhe amar...”?
 
As pessoas dizem, “eu te amo, porque você é linda e talentosa”, “eu te amo porque você me atrai”, “porque você é generoso e gentil”, “sabe escrever”, “canta demais”, “me entende”, “me ajuda”, “tem um caráter firme”, “é espiritual”, “eu te amo, porque você me surpreende”, “eu te amo, porque...”
 
Por que mesmo???
 
Sinceramente, essa construção frasal (“eu te amo, porque...”) deveria ser terminantemente proibida aos nascidos de novo, excetuando-se apenas o caso singular da declaração de João, de que “nós amamos porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4.19), significando que a nossa capacidade de amar vem do Pai pela sua obra de redenção, não da nossa humanidade. Qualquer outro caso deveria ser censurado.
 
Um amor que precisa de motivos não é amor. Não carecemos de razões exteriores para amar, pois o amor verdadeiro baseia-se em si mesmo, não no outro ou em suas qualificações.
 
Amor mesmo, bíblico, não é pautado no que alguém pode oferecer como benefício ou no prazer que pode nos dar. Dizer isso, é fundar o amor nos interesses que temos e, como já sabemos, o ágape não faz assim.
 
Dizer que ama por um motivo qualquer, equivale a dizer que não ama, ou colocar o amor numa posição de vulnerabilidade, já que uma pessoa de sucesso pode fracassar, uma bonita pode sofrer um acidente, ficar desfigurada, envelhecer ou simplesmente relaxar; não há inteligência que resista a Alzheimer, as surpresas acabam depois da rotina, espiritualidade esfria se não cuidar, e caráter é uma decisão pessoal e cotidiana de fazer o certo, o que pode mudar, assim como tantas outras circunstâncias.
 
Como um amor verdadeiro prevaleceria diante de tantas mudanças e instabilidades?
 
“Ah, eu te amava, mas agora eu não te amo mais, você me decepcionou, você mudou...”
 
Eu não acredito num amor assim. Já vivi tempo suficiente para ouvir alguns “eu te amo” com valor de “vou ao banheiro e já volto” – tão rápidos e descartáveis que com o apertar do botão da decepção logo estarão descendo esgoto abaixo.
 
Todavia, o amor com que Deus nos amou – o mesmo que ele derramou nos nossos corações – vai além daquilo que é passivo de mudança: é eterno e autossuficiente. Ele ama e ponto final. Ele não ama “porque...”, isso é balela! Ele não pede razões e nem espera nada em troca. Ele não se cansa, mas continua a acreditar, e consegue enxergar o que há por trás das capas de pecados e inconsistências humanas.
 
Amor é o que ele é, e por isso é também o que ele faz. O amor emana dele com a mesma naturalidade com que as águas fluem dos rios, e esse amor está em nós.
 
Às vezes, tenho vislumbres profundos desse amor incondicional. Geralmente, isso ocorre quando estou distraída e algum mendigo me aborda, ou tenho contato com alguém cujoestado de miséria, doença ou infelicidade é extremo – o choque de realidades produz em mim um estado de meditação, e eu me pego refletindo que por trás de toda aquela “sujeira” háum homem de Deus. Como fica claro, para mim, que dentro daquela pessoa aparentemente irrecuperável há ainda resquícios da natureza divina, da essência do pai dos espíritos! Como é chocante pensar que “somente” a fé e a decisão de crer naquilo que Deus disse a respeito dela, é o que lhe separa de uma vida digna, abundante, próspera... divina!
 
Apesar da tristeza, um pensamento inevitável me vem à mente: o que aquela pessoa tem para oferecer a Deus? (Por favor, não me responda “adoração”, porque isso só vem depois da salvação, e seria contraditório dizer que Deus salva com o objetivo de “colher adoração”, pois isso seria buscar os seus próprios interesses e, portanto, não seria amor). A resposta, na realidade, é “NADA”!
 
Agora, já pensou se, como nosso irmão, Deus pensasse “amo você, porque você é um sucesso”? Quantos de nós seríamos salvos? Quantos estaríamos nas igrejas, servindo-o, amando-o, esmerando-nos por agradá-lo? Provavelmente nenhum de nós...
 
A Bíblia diz que Deus provou seu amor por nós quando deu Jesus para morrer em nosso lugar quando ainda éramos miseráveis pecadores (Rm 5.8). Ninguém prestava e, ainda assim, ele conseguia ver a todos de mãos levantadas, rendidos e gratos, regenerados e justificados, prontos para se assentarem à sua direita em Cristo. Isso sim é amor, e me leva a crer que o equivalente bíblico para a declaração herege do nosso irmão, seria, “eu te amo, ainda que você seja um fracasso”.
 
O motivo de Deus para nos amar, devemos destacar, não está em nós, mas em si mesmo, e assim esse amor não pode falhar, nem acabar.
 
Ele nos ama e provou isso com seu proceder.
 
Ele nos ama e espera o nosso tempo de resposta. Não exige, mas incentiva e exorta.
 
Ele nos ama e até aos que lhe rejeitam, e não está revoltado com isso achando que foi perda de tempo, porque a vantagem do amor está em amar.
 
Ele nos ama e pronto, fim de papo! E é isto que nos faz bem sucedidos, não o contrário.
 
Inspirada por seu exemplo, eu decidi que não vou amar ninguém porque é “um sucesso”. Não vou oferecer um amor xing-ling, frágil, inferior, porque em mim habita o Amor Verdadeiro que Deus me concedeu quando me selou com o Espírito Santo da promessa. Me alegro genuinamente por ter amigos e irmãos que são um sucesso, e me encho de orgulho quando os vejo frutificando, avançando, prosperando e sendo semelhantes a Cristo em obras e palavras. É claro que é maravilhoso! Mas certamente ainda estarei aqui com o meu amor se algum deles vacilar, sem sombra de dúvidas.
 
Oh, que amor pobre o que precisa de motivos. Que amor medíocre e incompetente esse que, perdendo os motivos, volta atrás. Que amor fajuto! Não é assim o que está no meu coração, mas, como alguns dos vossos poetas têm dito (At 17.28), “Amor não se conjuga no passado. Ou se ama para sempre, ou nunca se amou verdadeiramente”. (Fernando Pessoa)
 
Faço minhas as palavras do poeta.
 
No amor (verdadeiro, eterno e incondicional) de Cristo,
 
 
 
- Luciana Honorata
 

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