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O Reino Dividido

O Reino Dividido

Atualizado: Terça-feira, 9 Abril de 2013 as 8:21

 

divisãoOs últimos acontecimentos têm me feito refletir bastante sobre o cristianismo que temos vivido. Não é de hoje que tenho percebido algumas inclinações do nosso povo, algumas tendências que temos permitido no nosso meio, ou que temos praticado sem percebermos o engano que temos cometido. O caso Feliciano deixou isso mais evidente, e aqui encontro o gancho para falar sobre o assunto.
 
É que a Igreja ainda não aprendeu a se ver como um Corpo – O Corpo do nosso Jesus. Com a polêmica em torno da posse do deputado e pastor Marco Feliciano em pauta, isso ficou mais que evidente, posto que irmãos se uniram à militância discordante contra o atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e têm se manifestado nas redes sociais e veículos de comunicação, claramente opositores, falando abertamente que o deputado “não lhes representa”, usando de malícia e desrespeito para se referir à sua pessoa.
 
Não vim defender o mesmo, ainda que me fosse legítimo fazê-lo. Também não concordo com tudo que o pastor/deputado diz ou faz. Meu objetivo, entretanto, é o de expor à Igreja o posicionamento mais bíblico diante deste questão, pois acredito que muitos têm se levado por ideologias que não são segundo a Palavra, ou por sentimentos pessoais equivocados.
 
Toda essa polêmica tem me lembrado bastante a alusão de Paulo a respeito da Igreja de Cristo. Ele disse aos coríntios que somos todos membros de um corpo, e que não podemos dizer que não temos necessidade uns dos outros, mas devemos honrar-nos uns mutuamente como membros dele, pois somos UM em Cristo. Ele diz também que se um membro padece, todos padecem junto com esse membro, e se um membro é honrado, todos os demais também são honrados com ele (1 Co 12.12-27).
 
É impossível desassociar-nos uns dos outros. Somos membros, partes de um todo. Quando eu lhe machuco, xingo, ofendo e/ou desmoralizo, estou fazendo com o próprio Cristo. E tudo isto estou lembrando-lhes, porque tenho visto cristãos se digladiando em rede nacional. Tenho alguns irmãos na minha rede de amigos virtuais que não se cansam de falar mal de outros cristãos “em nome da verdade”, atacando-os e pondo em xeque a sinceridade de suas conversões. Já vi inúmeros vídeos e depoimentos de pessoas que se autodenominam cristãs, mas não têm o bom senso de preservar a imagem dos outros irmãos, ministros do evangelho em sua maioria, ungidos de Deus.
 
Acho lamentável. Ainda mais por muitas dessas pessoas sequer terem conhecimento bíblico que embase suas colocações públicas. É a ignorância sendo compartilhada em larga escala, aprovada e comentada em massa por aqueles que deveriam estar sendo pastoreados, e não inflamados.
 
Além disso, já que somos um, é bom lembrar que quando tentamos matar a influência de um irmão ou atacar-lhe publicamente, mesmo com a desculpa de ser “em nome da verdade”, o que estamos fazendo, de fato, é automutilação. Na medicina, as “doenças autoimunes” ilustram essa situação, pois é quando as células de defesa do nosso corpo atacam os tecidos saudáveis, levando o indivíduo à morte. Acredito que alguns irmãos, com sua mania “apologética”, têm atacado células saudáveis do Corpo de Cristo, e prejudicado a Igreja como um todo.
 
O problema é que há quem diga que aqueles que estão sendo atacados não são cristãos genuínos, mas falsos profetas, pessoas que não têm Deus verdadeiramente em suas vidas e,
 
assim, aqueles que os atacam estariam certos ao fazê-lo. Quanta pretensão! Ao terem esta atitude, essas pessoas estão colocando-se como deuses e juízes, pois julgam conhecer os corações, e reivindicam para si um julgamento que só cabe a Deus.
 
O homem vê a aparência, Deus, porém, vê o coração de cada um, e por conhecer aquilo que está oculto aos nossos olhos, só ele tem capacidade de julgar justamente.
 
“Ah, Luciana, mas a árvore se conhece pelos frutos – foi Jesus quem disse isso”, e é verdade. Contudo, nem sempre estamos tão perto da árvore, a ponto de realmente vermos se há ali algum fruto; Jesus se aproximou da figueira, a fim de ver se ela tinha figos (Mc 11), lembra? Ele não olhou de longe, tirou suas conclusões e precipitadamente ordenou que ela morresse.
 
Em segundo lugar, o fato de algumas pessoas estarem em erro em algumas áreas de suas vidas, não significa que elas estão erradas completamente, e que não haja nenhum fruto saudável produzido por elas – um caráter cristão é desenvolvido ao longo do relacionamento com Deus, e isso é algo constante e progressivo, não imediato.
 
Por fim, Jesus se autodenominou a videira verdadeira e disse que o Pai é o agricultor. Isso significa que é Deus quem identifica quais são os ramos que não estão produzindo frutos, é ele quem os corta e também é ele quem os lança ao fogo. Não é nenhum de nós.
 
Além do mais, Deus não nos deu a incumbência de “julgar os profetas”, mas aquilo que eles dizem (1 Co 14). Você e eu não temos o direito de julgar as pessoas de forma implacável, expô-las e ridicularizá-las, mas devemos seguir a verdade em amor, para a edificação do Corpo de Cristo, conforme está dito em Efésios 4.15.
 
Seguir a verdade em amor não significa concordar com tudo o que dizem por aí, pois até mesmo bons cristãos piedosos têm estado sinceramente enganados a respeito de muitas questões. Contudo, quer dizer que devemos conhecer o que a Palavra realmente ensina, sendo comprometidos com o que ela diz, enquanto somos pacientes com aqueles que ainda não chegaram lá, pois cada um anda na luz que tem.
 
O fato é que um reino dividido não pode ficar de pé, já disse Jesus (Mt 12.24-26), e isso é o que muitos cristãos precisam entender. Falarmos mal uns dos outros, ainda que tenha aparência de piedade e pareça ser por uma boa causa, é contra a lei do amor, e é contra a edificação do Reino de Deus.
 
Eu, particularmente, ainda não vi um homossexual se levantando publicamente para criticar os abusos da militância que os representa, apesar de imaginar que há muitos que não concordam com a baderna que os militantes estão fazendo, com a ditadura que estão tentando implantar, com os exageros dos projetos que eles querem passar no congresso. Aqueles que não concordam com os extremos, entretanto, tampouco têm gravado vídeos ou escrito textos criticando os seus, preferindo se calar e deixar os desmandos acontecerem, do que levantar a voz contra aqueles que têm lhes representado... Eles têm mais ética entre si, do que temos entre nós.
 
Quero lembrar aos irmãos que foi nesse mesmo contexto de Mateus 12, onde Cristo fala a respeito do Reino que está dividido não subsistirá, que Jesus falou que “aquele que não está comigo, está contra mim; e aquele que comigo não ajunta, espalha”. Foi esse mesmo Jesus quem disse que, aquele que fizer qualquer coisa a um dos pequeninos seus (os discípulos), a ele mesmo estava fazendo. Tudo isso significando que se não formos nos expressar com o objetivo de ajuntar, isto é, para a edificação do Reino de Deus, para apoiar aqueles que estão levando a bandeira do evangelho, dando a cara à tapa em rede nacional enquanto estamos confortavelmente sentados em nossos sofás assistindo tudo via internet/tv; se não formos abrir a boca para falar o que é bom ou para unirmos esforços na mesma direção, meu irmão, vou dizer-lhe com profundo temor, que é bem melhor que nada façamos, ou corremos o sério risco de espalhar, impedir e atrapalhar o avanço do evangelho, e ainda ferir nossos irmãos e nosso Senhor, em quem eles estão juntamente conosco.
 
Que aprendamos a abraçar as causas de Deus e a não julgar aqueles que, ainda de forma imperfeita, têm tentado servi-lo.
 
No amor de Cristo, em quem somos UM,
 
 
- Luciana Honorata
 

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