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Quem quer levar desaforo pra casa?

Quem quer levar desaforo pra casa?

Atualizado: Quarta-feira, 20 Março de 2013 as 8:32

 

Aconteceu um episódio no mínimo interessante essa semana. Enquanto eu ministrava acerca de perdão, reproduzindo a máxima de Jesus “se alguém te ferir na face, dê-lhe o outro lado”, uma aluna se levantou abruptamente da sua cadeira e saiu pisando forte da sala de aula, com todo o seu corpo expressando sua revolta.
 
Alguém a seguiu e lhe indagou acerca do motivo do “piti”. Contaram-me depois, que ela não suportou ouvir as verdades que lhe vieram aos ouvidos, e que todo o veneno da amargura depositado na sua alma foi agitado pela Palavra de Deus e canalizado para mim. Ela estava indignada, revoltada, com ódio, por eu me atrever a dizer coisas tão... desconfortáveis “absurdas”.
 
Fiquei pensativa a esse respeito. Por que é tão difícil para nós perdoar? Por que lidamos com isso de forma tão infantil e mesquinha, afinal de contas?
 
Dar a outra face? Jamais!!! Quem quer levar desaforo pra casa? Ninguém...
 
Alguém nos fere, e o que fazemos? No mínimo, falamos sobre isso, quando não decidimos revidar.
 
bravoDesabafamos. Sentimos e ressentimos com direito a replay emocional. Cada vez que esboçamos a algum paciente ouvinte o quão injustiçados fomos, nos inflamamos mais, revivendo tudo como numa boa reconstituição criminal, lembrando, inclusive, de outros episódios que corroboram a nossa tese do quanto aquela pessoa não nos considera, não nos ama, não nos entende ou não nos respeita. Do quanto foi cruel e desalmada.
 
Descobri que somos bons nisso. Somos mestres em especular sobre as motivações que o ofensor nutriu, cogitar a premeditação do ato, e em concluirmos que definitivamente não era a maneira correta de agir.
 
Somos expert em imaginar finais felizes e diversos para os capítulos dessa novela chamada vida. Verdadeiros especialistas em escrever roteiros minuciosos de comportamento para os personagens da nossa história que não estão em primeira pessoa – tu, ele, vós, eles. Segundo nossa vontade, eles teriam as ações e reações que eu e você desejamos (e bem diferente da que tiveram, é bom lembrar).
 
“Se fosse eu, teria feito assim ou assado, não da maneira como ele fez”, asseveramos.
 
Disso, isto é, de arquitetar como seria o comportamento ideal ou “aceitável” daqueles que nos cercam, é que surge a amargura, o desgosto, o sentimento negativo e o ressentimento nocivo, até se enraizar em nossa alma e envenená-la. É a tal da raiz de amargura citada em Hb 12, que se não tomarmos cuidado, contaminará a muitos.
 
Acontece, no entanto, que não somos fantoches. Ninguém é. As pessoas têm suas vidas, suas personalidades, seus interesses, suas prioridades. Elas têm sua criação, seus vícios, sua linguagem e história. Têm também suas mazelas e, sobretudo, suas concupiscências e fraquezas. Todas elas. Eu e você também, vale salientar.
 
É por isso que quando decidimos nos relacionar com pessoas, devemos estar preparados para sermos feridos, contrariados e decepcionados muitas vezes... mas, e daí? Hum?!
 
Reconheço que não é fácil ser desapontado. Se sentir esquecido, renegado, maltratado, humilhado e todos os eteceteras do reino da patifaria. Mas, ninguém é perfeito, e todo mundo sabe disso. Você não é. Eu não sou. Só Jesus conseguiu esta façanha, e ainda teve quem se queixasse dele.
 
Isso quer dizer que provavelmente nós mesmos já machucamos alguém, ou até dezenas de pessoas (quem sabe?), tendo comportamentos que lhes desagradassem ou frustrassem suas expectativas. Acho que não nos consideramos um caso perdido por isso. Também acho que gostaríamos de ser perdoados por esses infelizes equívocos, concorda?!
 
“Mas você não sabe o que ele(a) fez!”, você poderia me dizer.
 
Não, e nem preciso saber. Eu já fui rancorosa o suficiente para entender como pensa e sente alguém que foi ferido e não consegue largar a sua dor. Oh, como nós somos vítimas competentes! Como sabemos levantar a bandeira da autopiedade e nos lançar na lona, esperando, nocauteados, que alguém compre a nossa briga! Ou como somos vorazes justiceiros que pegam suas armas e vão à guerra, em busca de defender a própria honra!
 
Que Deus tenha misericórdia de nós!
 
Aqueles que não conseguem perdoar, na verdade, estão tão cheios de si mesmos e dos seus porquês. Cheios de estilhaços dos sonhos encravados na alma, dos recursos que desperdiçaram, do tempo que perderam... Tão cheios, que não enxergam nada além da própria decepção.
 
Geralmente nos embasamos na ideia de que jamais teríamos tal atitude (como do ofensor), a fim de nos justificarmos pela dureza de coração, contudo, pensemos bem sobre o assunto: se você “não faria uma coisa dessas”, levante as mãos para o céu e agradeça a Deus pela maturidade que desenvolveu, ou pela sólida educação que recebeu dos seus pais, criatura! Acontece que ele(a) não é você, e como indivíduo, cada um tem a liberdade de agir como bem entende.
 
Vivemos melhor quando aceitamos isso, e compreendemos que esperar que o outro tenha as atitudes que teríamos, além de insensatez, é egoísmo.
 
Além do mais, as pessoas também reagem a nós. Muitas vezes as pessoas envolvidas na relação se provocam e ferem mutuamente, tornando-a um verdadeiro inferno! Já vi isso acontecer, não poucas vezes. Para consertar a bendita, bastaria cada um ceder um pouquinho de nada, controlar a carne dez centavos que fosse, e estaria tudo resolvido. Sabemos disso porque muitas vezes vemos que as pessoas se separam, e dão certíssimo com outro cônjuge, simplesmente porque aquele outro se mostra um pouco mais paciente e tolerante, e propicia uma atmosfera mais amigável que traz à tona o melhor do parceiro...
 
Enfim, há tanta coisa envolvida, que precisaríamos de um livro para falar com justiça e amplitude devidas a respeito do assunto.
 
A questão é que não é fácil perdoar, admitamos. Mas é preciso que se diga que não é impossível! Também não é fácil sofrer num relacionamento, mas a verdade é que, em certa medida, é imperativo.
 
Acho que, como cristãos, devemos aprender a levar alguns desaforos pra casa. Se queremos amar e servir a Deus, tendo relacionamentos saudáveis, isso não somente é indicado como se faz necessário, afinal, Deus é amor e, como filhos, devemos ser imitadores da sua conduta.
 
Ora, a Bíblia diz que o amor de Deus, que cobre multidão de pecados, foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo. Ele “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” e “não se ressente do mal”.
 
Também diz que Deus prova seu amor para conosco pelo fato de ter dado Jesus por nós quando ainda não prestávamos. Isso quer dizer, na prática, que Deus nem sequer esperou nos arrependermos das ofensas que cometemos contra ele para nos perdoar, mas o fez muito antes de sequer nascermos. A prova do amor, portanto, é o perdão incondicional e voluntário, fruto de um coração bondoso.
 
Jesus disse que 70 x 7 vezes devemos perdoar o irmão faltoso, ensinou a dar a outra face e a retribuir o mal com o bem. Disse que devemos orar pelos que nos perseguem e amar os inimigos. E não só disse, como fez. Quando injustiçado e maltratado, calou-se, e ainda defendeu seus algozes diante daquele que tinha poder para lhe vingar! Clamou pela misericórdia dizendo, “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem!”
 
Gosto de como ele faz!
 
E para radicalizar de uma vez por todas, e quebrar as pernas das nossas desculpas, deu o exemplo mais chocante e transformador de todos quando beijou Judas na face, chamando-o de amigo, no exato momento em que “descobriu” que ele lhe traíra. (As infidelidades mais dolorosas não são aquelas que brotam da intimidade, e não da multidão?!)
 
Sabe, isso deveria nos inspirar...
 
Ah, o perdão! Talvez ele seja a maior expressão de amor, e a maior evidência de que alguém tem andado com o Pai - ele constrange o ofensor, move o reino espiritual e revela Deus ao mundo.
 
Agora eu pergunto novamente: Quem quer levar desaforo pra casa?!
 
 
- Luciana Honorata

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