Abrindo os olhos: “Eu estava cego, mas agora eu vejo”

O milagre de “abrir” os olhos de alguém ia muito além da restauração da visão física da pessoa.

Fonte: Guiame, Mário MorenoAtualizado: terça-feira, 7 de julho de 2020 18:33
(Foto: Reliably)
(Foto: Reliably)

Uma frase muito conhecida nas Escrituras: “Eu estava cego, mas agora eu vejo”. Estas foram as palavras ditas por um ex-cego acerca do milagre que recebera de Ieshua.

Temos também uma das histórias do Antigo Testamento, em que um servo do profeta Eliseu fica apavorado com o exército sírio que cerca a cidade em que eles estão. Eliseu é chamado para fora da casa a fim de conferir o que está acontecendo e o tranquiliza lhe dizendo que o Eterno libertará o povo de Israel. E então Eliseu orou: “Eterno, abre os olhos dele para que veja”. O Eterno atende à oração e o servo de repente vê “as colinas cheias de cavalos e carros de fogo ao redor de Eliseu” (II Rs 6:17). O servo de Eliseu não era fisicamente cego. Ele simplesmente precisava de uma dose de fé para que pudesse ver a verdade da libertação do Eterno. A palavra hebraica original que Eliseu usa para “abrir” é pekaḥ פְּקַח. Esse é um termo especial para abrir os olhos a fim de eliminar a falsidade e deixar entrar a verdade. Esse tipo de visão tem duas conotações: a visão física e é também sobre a percepção espiritual que transcende aquilo que é físico e intelectual.

Vejamos a etimologia da palavra:

O verbo פקח (paqah) significa “abrir”, mas especificamente no sentido de abrir os olhos (Gn 3:5, Jó 14:3) ou ouvidos (Is 42:20): descreve uma capacidade física ou mental de ver ou ouvir, mas não necessariamente a vontade de fazê-lo. O ato final de compreender uma visão ou obedecer a uma coisa ouvida requer sentidos abertos, mas também um coração aberto. Ao contrário do hebraico bíblico, em árabe esse verbo também é usado para descrever a abertura de uma flor.

Deste verbo deriva:

    O adjetivo פקח (piqeah), que significa “ver” ou literalmente: os abertos (Êx 4:11).

    O composto masculino substantivo פקח־קוח (peqah-qoah), que significa totalmente aberto. Este composto parece ter sido formado a partir de uma repetição lúdica da segunda sílaba da primeira palavra. Repetições são comuns em hebraico e são usadas para acentuar, enfatizar ou no sentido de “muito” ou “muito mesmo”. Esse composto ocorre apenas uma vez na Bíblia, em Isaías 61:1, onde descreve o estado prometido dos “limitados”.

Suas ocorrências nas Escrituras:

Esta palavra ocorre novamente nos seguintes versos:

“E sucedeu que, chegando eles a Samaria, disse Eliseu: Ó IHVH, abre a estes os olhos para que vejam. O IHVH lhes abriu os olhos, para que vissem, e eis que estavam no meio de Samaria” II Rs 6.20.

Este verso está no mesmo contexto do texto original que tratamos, mas neste caso mesma palavra já está ligada a cegueira física. No verso 18 Eliseu ora para que os exércitos inimigos fiquem cegos – literalmente – e isso acontece! Agora já num outro lugar ele ora para que recobrem a visão – física. Isso aconteceu com Sha´ul quando Ananias ora para que ele recobre a visão: “vindo ter comigo e apresentando-se, disse-me: Sha´ul, irmão, recobra a vista. E naquela mesma hora o vi” At 22.13.

Ieshua curou cegos, mas há um caso especial cujo relato impressiona:

“E era sábado quando Ieshua fez o lodo e lhe abriu os olhos” Jo 9.14.

“Tornaram, pois, a dizer ao cego: Tu que dizes daquele que te abriu os olhos? E ele respondeu: Que é profeta” Jo 9.17.

“mas como agora vê não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos não sabemos; tem idade; perguntai-lho a ele mesmo, e ele falará por si mesmo” Jo 9.21.

“E tornaram a dizer-lhe: Que te fez ele? Como te abriu os olhos?” Jo 9.26.

“O homem respondeu e disse-lhes: Na verdade, que maravilhosa cousa é esta, que vós -outros não saibais donde ele seja! e a mim me abriu os olhos!” Jo 9.30.

“Desde o princípio do mundo, não se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença” Jo 9.32.

Em todos estes versos – no mesmo capítulo – percebemos uma coisa muito interessante: a cura é física, mas as implicações são espirituais, pois através da cura de um cego de nascença o messianismo de Ieshua é afirmado inequivocamente. Ieshua fez mais do que Eliseu; enquanto este fez com que seu servo tivesse acesso à visão profética, Ieshua além de curar o cego fez também com que as pessoas pudessem ver Quem Ele era! Ocorreu uma “abertura de olhos” de uma forma diferente: baseada no conhecimento que eles tinham da tradição judaica que apontava para ações que demonstrariam que um homem viria e se manifestaria como O Ungido do Eterno. E ali estava Ele!

Num outro verso temos agora: “Inclina, IHVH, o teu ouvido, e ouve; abre, IHVH, os teus olhos, e olha: e ouve as palavras de Senaqueribe, que enviou a este, para afrontar o El vivo” II Rs 19.16.

Já neste caso é solicitada uma intervenção divina quanto a uma ameaça gigantesca: o rei Senaqueribe que desejava destruir a nação de Israel. O clamor é para que o Eterno abra seus olhos e veja a atitude daquele homem contra seu povo. Não estaria o Eterno sabendo e nem mesmo vendo o que estava acontecendo? Certamente que sim. Mas a ênfase aqui está no pedido para que o Eterno “preste atenção” aquele momento crucial da nação e possa então socorrê-los. Esta passagem repete-se em Is 37.17.

“O Espírito do Senhor IHVH está sobre mim; porque o IHVH me ungiu, para pregar boas novas aos mansos: enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” Is 61.1.

Este é um texto messiânico que nos mostra que entre as atribuições do Ungido estaria a de “abrir as prisões aos presos”. A pergunta que surge é: isso é literal? O Ungido soltaria todos os meliantes presos em todo o mundo? É claro que não! Então, esta “prisão” diz respeito a cadeias espirituais que seriam “abertas” e as pessoas deixariam de ser escravos das trevas para se tornarem filhos da luz livres. Isso tudo viria a través das boas novas que seriam anunciadas. E quais seriam estas boas novas? Eles diriam respeito à vinda do Ungido e o cumprimento da primeira parte de sua missão. E foi isso mesmo que aconteceu quando Ieshua veio, cumprindo-se a profecia de Isaías. Esta passagem repete-se em Lc 4.18.

Conclusão:

Quando os olhos são abertos isso não diz respeito somente à cegueira física, temos a dimensão espiritual e também a mental que permite que o homem possa ver situações de uma forma totalmente diferente.

A cegueira física era considerada como a morte; um cego era visto com alguém que já estava morto. Por isso o milagre de “abrir” os olhos de alguém ia muito além da restauração da visão física da pessoa; era considerado como um ato de ressurreição em que a pessoa que recebeu o milagre agora renasceria sendo reinserida numa dimensão da vida que ela não tinha qualquer acesso.

Nossa oração hoje é: Eterno, em nome de Ieshua abre nossos olhos para que vejamos!

Baruch há Shem!

Por Rav. Mário Moreno, fundador e líder do Ministério Profético Shema Israel e da Congregação Judaico Messiânica Shema Israel na cidade de Votorantim. Escritor, autor de diversas obras, tradutor da Brit Hadasha – Novo Testamento e conferencista atuando na área de Restauração da Noiva.

*O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Os palestinos têm raízes judaicas?

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