A pedofilia costuma ter cara de palhaço, bonecas e propostas "inocentes"

Apesar da palavra "pedofilia" ter sido amplamente citada nos últimos dias, após a repercussão do filme de Danilo Gentili, poucos abordaram corretamente a polêmica.

Fonte: Guiame, Marisa LoboAtualizado: sexta-feira, 18 de março de 2022 17:29
(Foto: Michał Parzuchowski/Unsplash)
(Foto: Michał Parzuchowski/Unsplash)

Desde o começo dessa semana venho fazendo várias publicações sobre um tema de extrema importância que parece estar sendo negligenciado por algumas pessoas: a pedofilia! É por esse motivo que faço questão de abordá-lo novamente no Guiame, destacando novas nuances sobre o assunto.

Apesar da palavra "pedofilia" ter sido amplamente citada nas redes sociais nos últimos dias, após a repercussão de um personagem do filme "Como se Tornar o Pior Aluno da Escola", do apresentador Danilo Gentili, considero que poucas pessoas abordaram corretamente a polêmica.

Isso porque, em vez de enxergar a crítica sobre o filme sob a perspectiva da prática pedófila e os seus impactos na mente da criança e do adolescente, muitas pessoas se concentraram em debater os limites da liberdade de expressão e produção artística, desviando o mérito do assunto.

A responsabilidade da arte

Entendo que a arte precisa ter liberdade para ser criada, mas também que liberdade não é sinônimo de irresponsabilidade. Quando um produtor não tem discernimento sobre como a mensagem de determinada cena pode repercutir na mente de um adolescente de 14 anos, por exemplo, ele está sendo no mínimo irresponsável.

No mundo perverso da pedofilia, a cena de um filme que retrata a figura de um pedófilo de forma caricata, cômica, sem qualquer ênfase nas suas intenções como sendo um ato de perversão e violência contra a vida do menor, significa o retrato fiel de muitos casos de crimes reais.

A diferença é que, no filme, o produtor deve ter a responsabilidade de retratar não apenas a realidade, mas principalmente o que ela significa na sociedade. Ou seja, da mesma forma que o assassino é retratado em um filme policial como um criminoso, de fato, o pedófilo precisa ser retratado como alguém perigosamente perverso, imoral e violento.

Não foi essa a mensagem que vi no filme de Gentili. Eu vi, isto sim, a imagem de um pedófilo cujos interesses sexuais foram minimizados pela comédia. Alguém que apesar de assediar dois adolescentes, pôde continuar convivendo normalmente com outras crianças e exercendo o seu papel de professor.

Essa interpretação do pedófilo feita pelo filme endossa o método de persuasão utilizado por muitos abusadores de crianças no mundo real. Eles costumam aparecer com "cara de palhaço", ou seja, como pessoas simpáticas, alegres e confiáveis.

Muitos usam brinquedos e joguinhos infantis para se aproximar das suas vítimas, até que tenham a confiança suficiente dos pais e dos próprios menores para fazer as propostas "inocentes" nos momentos mais propícios, exatamente como fez o professor no filme, numa sala de porta fechada.

Um adolescente de 14 anos (idade da classificação etária inicial do filme) não possui maturidade e discernimento suficientes para avaliar uma situação como essa, em um filme, e encará-la com a devida gravidade, a menos que o próprio filme exponha de forma muito clara a realidade da violência sexual por trás das atitudes do personagem.

A falta dessa ênfase na violência sexual sofrida pelos menores, por trás da figura caricata do pedófilo, é o que no meu entender condena o filme de Gentili, moralmente falando. Não se trata aqui, portanto, de liberdade artística, mas da responsabilidade em saber usar essa mesma liberdade para retratar a monstruosidade do crime de pedofilia pelo que ele realmente é, e não como uma piada.

Concluo

Tendo abordado esse tema em três artigos diferentes nesta semana, concluo reiterando os meus alertas aos pais e líderes em geral, especialmente os cristãos.

Não podemos relaxar no filtro do que entra em nossas casas. Apesar do Estado ter o poder legal de classificar conteúdos, a maior barreira contra alguns lixos criados em nome da "arte" somos nós mesmos. Portanto, façamos a nossa parte.

Marisa Lobo é psicóloga, especialista em Direitos Humanos, presidente do movimento Pró-Mulher e autora dos livros "Por que as pessoas Mentem?", "A Ideologia de Gênero na Educação" e "Famílias em Perigo".

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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