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Da prisão ao palácio

Da prisão ao palácio

Atualizado: Sexta-feira, 12 Fevereiro de 2010 as 12

''E chamou José o nome do primogênito Manasses, porque disse:Deus me fez esquecer de todo o meu trabalho e de toda a casa de meu pai. E o nome do segundo chamou Efraim, porque disse: Deus me fez crescer na terra da aflição ''. 

(Gn 41: 51, 52) 

É sabido que todo o indivíduo de mente saudável almeja viver de forma plena, ser feliz. Ter seus sonhos realizados e gozar de reconhecimento perante aqueles que o cercam o impulsiona a correr atrás dos seus objetivos.   

Durante esse percurso fatores alheios à sua vontade podem interromper sua caminhada ao sucesso. Muitas das vezes surgem situações que podem ameaçar ou até mesmo  paralisar esse processo de conquista, como ser traído por aqueles que amamos e depositamos total confiança.   

'' A dor de uma perda, ou a dor da traição;   

Uma quebra de aliança que é a raiz da ingratidão ''.  

(Nunca pare de Lutar - Ludmila Ferber)      

José experimentou o amargo sabor da traição de seus irmãos. Por pura inveja, estes o venderam para um comerciante de escravos, que finalmente o levaria para o Egito.       

Muitos anos de sofrimento e afastamento da sua família poderiam ter corrompido o coração daquele jovem, que teve todos os seus sonhos interrompidos por aqueles que o deveriam proteger, mas, que ao invés disso, foram seus algozes.   

A confiança que José tinha no seu Deus o impulsionava a lutar, a remar contra a correnteza. Ele guardava uma promessa de Deus em seu coração: O Senhor o honraria, e faria com que seus irmãos um dia se inclinassem perante ele. De escravo na casa de Potifar à prisão; da prisão ao palácio, como governador do Egito.

''Quem é Deus como o Senhor, nosso Deus, que habita nas alturas; (...) que do pó levanta o pequeno e, do monturo,

ergue o necessitado. Para o fazer assentar com os príncipes do seu povo ''.

(Sl 113: 5, 7 e 8)

Deus o havia enviado como escravo ao Egito, usando os próprios irmãos de José, com o propósito de preparar o caminho para Seu povo. O Senhor já sabia da grande fome que abateria a  face da terra. Era preciso conservar vivo Seu povo eleito.     

Muitas das vezes não conseguimos entender os atos de Deus. Nossos olhos naturais mal conseguem enxergar aquilo que está adiante de nós.  Pensamos erradamente que Ele está sendo injusto conosco, e que temos o direito de ter sucesso em tudo, afinal ''somos filhos de Deus''.  

O Senhor sempre terá o melhor para nós. Ele espera de nós confiemos em Sua Palavra, que jamais falhará.  Deus não tem filhos prediletos; Ele honra a fé e a obediência de Seus filhos.  

Passados muitos anos, desde a traição de seus irmãos, José reconheceu que Deus o capacitara a esquecer todo o sofrimento e afronta que passara; atitude demonstrada ao dar o nome de Manasses ao seu primogênito, que significa que faz esquecer. Quando teve a oportunidade de revelar-se aos seus irmãos os perdoou, libertando sua própria alma de todo ressentimento.  O perdão foi o bálsamo que seu coração precisava.        

Segundo o dicionário (Dicionário Michaelis) a palavra perdão significa ''conceder perdão, absorver, remitir (culpa, dívida, pena, etc), desculpar e poupar-se''. Sim! O ato de perdoar envolve tudo isso e ainda muito mais. Pesquisas e estudos vêm sendo desenvolvidos nesses últimos anos para mostrar e comprovar o poder e os benefícios do perdão.  

A questão principal, porém, é que o ato de perdoar não é uma das tarefas mais fáceis para nós, seres humanos. Tribos, sociedades, países, famílias e amigos já travaram e ainda travam batalhas, e verdadeiras guerras, por causa de diferenças entre as pessoas, ou devido a algum ato que desagradasse ou prejudicasse, espalhando pelo mundo ainda mais rancor e nem um pouco de paz.

Perdoar é um dos atos básicos da fé cristã, pois, a nossa entrada na vida que Jesus Cristo nos ofereceu, só foi possível porque recebemos perdão de nosso Deus e Pai. Ele nos perdoou, mediante a obra de seu Filho feita na cruz, em nosso favor. Amor e perdão sempre caminham juntos.

Perdoar é um mandamento da Palavra de Deus. Não é um sentimento, nem depende de nossa vontade ou emoção. A Palavra declara: ''sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo vos perdoou '' (Efésios 4.32);  

Perdoar significa deixar de considerar o outro com desprezo ou ressentimento. É ter compaixão, deixando de lado toda a idéia de vingar-se daquilo que foi feito ou pelas conseqüências que sofremos.

Perdoar para ser perdoado é o ensino de Jesus:

''se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas ''. (Mateus 6.15).

''Assim também meu Pai celeste vos fará, se no íntimo não perdoardes cada um ao seu irmão ''  (Mateus 18.35).      

Segundo Willian Shakespeare: ''o ressentimento é um veneno que tomamos esperando que o outro morra ''. Por mais que se discorra sobre o assunto, esta frase resume tudo e da maneira mais clara possível.           

Antes de continuar, seria interessante descrever as principais características do conflito de um ressentimento decorrente de falta de perdão:

1- Uma parte é representada por uma vítima passiva e outra parte é representada pelo tirano.    

2- É estabelecida uma dívida de uma parte (a vítima) contra a outra;

3- A participação do ressentido na situação normalmente não é explorada por ele, é banalizado para dar lugar à injustiça cometida pela outra parte, ele é desprovido de qualquer sentimento de culpa ou arrependimento;

4- Não há a reivindicação de uma perda, mas o desejo do sofrimento do seu opressor, que seria a compensação pela sua angústia, seria o privilégio da legitimidade do prazer sem culpa (a vingança enrustida), sem ter havido efetivamente uma ação vingativa, é caracterizado como “justiça”;

5- Trata-se de uma ferida narcísea que não se cicatriza porque é constantemente fomentada.           

O ressentimento leva o sujeito a criar todo um cenário propício para legitimar o seu direito de ressentir-se, a versão dos fatos pode mudar conforme suas necessidades, ele será acalentado por um ligeiro prazer, cada vez que reafirmar a sua posição de vítima. No entanto, nada mais é do que uma grande ilusão de solução. É uma dor emocional latente, permanente, que ocupa espaço de outras mais nobres. Isto, quando não desencadeia profundas neuroses.   

Não vale a pena desperdiçarmos uma vida inteira pelo mórbido prazer de ''prender as pessoas'' pelo nosso ressentimento. Seremos a principal vítima desta prisão. Jesus disse ''soltai, e soltar-vos-ão''.   

Precisamos romper as algemas do ressentimento e da falta de perdão, para vivermos tudo aquilo que Deus planejou para os seus filhos. ''Esquecendo-nos das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão adiante de nós'' (Fl 3: 13) Saiamos ''da prisão ao palácio''!    

Mônica Valentim

Mônica Valentim é pedagoga, com expecialização em Orientação Educacional e Profissional; pós- graduada em Psicomotricidade. Possui especialização em Modificabilidade Cognitiva PEI- Nível I, Jerusalém, Israel. Bacharelanda em Teologia.     

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