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Poder pode, mas deve?

Poder pode, mas deve?

Atualizado: Segunda-feira, 13 Setembro de 2010 as 4:23

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma (I Coríntios 6, 12).

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam (I Coríntios 10, 23).

Recentemente o mundo lembrou um dos episódios mais tristes e catastróficos do qual tivemos notícias: Os nove anos do fatídico 11 de Setembro; atentado terrorista que vitimou 2996 pessoas.  Passaram-se vários anos, é certo, mas a triste lembrança ainda permanece viva em nossas mentes, até porque a mídia tratou do assunto exaustivamente.

Ver e rever aquelas cenas trágicas, em que pessoas se atiravam das torres, tentando desesperadamente fugir do fogo, mas ao mesmo tempo agindo de forma imatura, visto que seria impossível alguém se salvar de uma queda tão grande. Fora às vítimas que estavam envolvidas com o salvamento de quem estava nas torres, como foi o caso dos bombeiros.

Por outro lado, a mesma mídia se ocupou de informar um outro assunto que está dividindo opiniões: A construção de uma mesquita em Nova York, nas cercanias do Marco Zero, o local onde ficavam as Torres Gêmeas, derrubadas por terroristas muçulmanos.

Os EUA são um país da liberdade religiosa e a política de Estado americana sempre foi de não culpar todos os muçulmanos pelo ódio de um grupo minoritário. Segundo as leis do país, se religiosos têm dinheiro para comprar o imóvel, eles podem construir templos onde quiserem, assim como no Brasil. Só que dois terços da população americana são contra a iniciativa. Não que eles achem que se deva proibir a construção de mesquitas nos EUA; apenas por uma questão de bom senso, não gostariam que uma fosse erguida no coração de sua chaga que ainda está aberta, o local do 11 de Setembro.

E se fosse ao contrário? Qual seria a reação  do mundo árabe se um grupo de judeus resolvesse, em nome da tolerância religiosa, abrir uma sinagoga na Faixa de Gaza, onde em abril deste ano, uma ofensiva  do exército israelense deixou diversas cidades arrasadas? Certamente os muçulmanos considerariam isso um “insulto”, e sairiam gritando pelas ruas, queimando bandeiras de Israel.

Após uma análise reflexiva desses episódios recentes da história mundial, nos lembramos do que a Palavra de Deus nos ensina sobre o que nos é lícito, o que nos convêm. Será a  ética Bíblica  a mesma que a secular?Todas as coisas me são realmente lícitas? Todas sem distinção? As quais coisas o texto se refere? Qual o sentido de licitude? Qual o sentido de conveniência?

Primeiro, o contexto das epígrafes são os capítulos seis e dez da 1ª carta aos Coríntios. Os capítulos trazem uma série de reprimendas contra aquela igreja, relativas a procedimentos morais. O capítulo seis mostra-se contrário à atividade dos Coríntios quanto a questões de ordem judicial (1 a 9); em seguida (10 a 20), desfecha golpes ferrenhos contra atividades consideradas pecaminosas: alcoolismo, pecados sexuais, ladroagem, avareza, maledicência, etc. Neste contexto apresenta-se a máxima: "Todas as coisas me são lícitas". A questão é: Todas aquelas práticas são consideradas lícitas pelo apóstolo a si mesmo, embora ele não se deixe dominar por nenhuma delas, nem lhe convenham? Em I Coríntios 10: 23 a abordagem trabalha a questão da consciência. O assunto culmina com "nem todas as coisas edificam". Paulo conclui: "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Cor. 10, 31). Eis aqui, parece, um critério para decidir o que é conveniente: "fazei tudo para a glória de Deus". Ou seja, antes de agir, faz-se necessário refletir sobre a possibilidade de os nossos atos contribuírem ou não para a glória da divindade.

De forma direta, em primeira instância, o apóstolo diz que os critérios do que lhe domina são a conveniência e a edificação. Se algo não lhe convém ou não lhe edifica, não deve lhe dominar. Em segunda instância vem o critério da conveniência e da edificação: "fazer tudo para glória de Deus". Neste passo apresenta-se uma problemática difícil de resolução: Que ética está implicada na seleção do que convém ou do que edifica? Que ética é vigente na prática de algo para a glória de Deus?

A ética teleológica tem Aristóteles como seu mentor mais ilustre. É uma ética que prescreve que a boa ação deve ser medida pelas consequências. Isso significa que a previsão do resultado de uma ação é o que determina em que direção o agente procederá em suas decisões e ações. Para Aristóteles, toda ação deve visar como fim a felicidade do homem. Daí o termo teleologia, do grego: télos, fim, finalidade + lógos, estudo, ciência. Parece que há uma afinidade entre a ética teleológica e o critério de "fazer tudo para a glória de Deus". Se este alvo for visto como finalidade principal das ações humanas e se isto é o que traz felicidade ao homem, há uma possibilidade de que Paulo, pelo menos nesse particular, afinasse o seu instrumento ético pelo diapasão aristotélico, de vez que um cristão "ajustado" buscaria sempre a felicidade de "fazer tudo para a glória de Deus".

Uma ética hedonista, mesmo que use o critério de "tudo para a glória de Deus", estaria a escolher o seu próprio desejo porque "tudo para a glória de Deus" resultaria em seu prazer. Este é o bem maior de um hedonista. Não seria mesmo a própria divindade. Nesse particular, não quer calar a questão: O que na verdade desejamos quando buscamos a Deus?

O fato é que toda a abordagem ética, seja de que ordem for, redundará numa ética egotista. Isto significa que toda e qualquer ação humana sempre se volta para o ego. Nada foge aos ditames dos interesses pessoais, particulares. Minhas conveniências estão em função dos meus critérios, que estão em função de minha ética, que está em função do que eu entendo como mais viável, ou um que eu mesmo crie, direciona meu raciocínio na escolha do que me convém, com meios e fins a serem alcançados, na busca de agradar seja a quem for, o que resultará em minha própria realização.

Conclui-se que, o que me convém não passa de mera questão de escolha particular, muitas vezes induzida emocionalmente; pura realidade de adesão partidário-denominacional, mediante um convencimento ou uma persuasão do que me é mais patente num dado momento. Amanhã posso ter outra perspectiva de compreensão e passarei a pensar diferentemente do que penso hoje (alguns fatos têm corroborado para esta tese).

Nessa esteira, observem-se exemplos de práticas políticas e religiosas no meio cristão-anglicano. Na África, setores anglicanos praticam a poligamia, porém rejeitam a homossexualidade. Enquanto setores anglicanos nos USA elegeram em 2009 uma bispa homossexual e rejeitam ferrenhamente a poligamia dos seus irmãos africanos. Quem julga se a homossexualidade e a poligamia contribuem para a glória de Deus, desde que a Bíblia prescreve que tudo seja feito para a glória da divindade? Matar homossexuais contribuiria para a glória de Deus? Parece que muitos anglicanos na África entendem dessa forma, pois que prescrevem tal prática. Mesmo que alguém avente textos bíblicos que combatam a homossexualidade, entrarão em palco várias correntes de interpretação, chamadas cristãs, que possibilitarão visões as mais diversas sobre o fato.

Se assim é, decorre que a conveniência de alguém possui em si uma tônica teleológica, com a possibilidade de os fins justificarem os meios. Dessa perspectiva, desde que o homem é quem toma a decisão, ele é o centro de tudo. É a medida última de todas as coisas. Não é Jesus Cristo. Muito menos Deus. Estes são apenas meios para se chegar ao que é, em última instância, conveniente: o seu ego.

Podemos chegar a uma conclusão simples e obvia: QUE O HOMEM NEM SEMPRE SEGUE OS PRECEITOS DA LEGALIDADE E CONVENIÊNCIA, E NEM TUDO O QUE PODE DEVE SER FEITO.

Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão [...] Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor (Gl 5: 1 e 13).

Mônica valentim

Mônica Valentim   é pedagoga, com expecialização em Orientação Educacional e Profissional; pós- graduada em Psicomotricidade. Possui especialização em Modificabilidade Cognitiva PEI- Nível I, Jerusalém, Israel. Bacharelanda em Teologia.

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