Cristão que é trigo não vota no joio

Os sentimentos não costumam ser nossos bons guias ou mentores intelectuais e morais.

Fonte: Guiame, Sergio Renato de MelloAtualizado: sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022 17:35
(Foto: Piqsels)
(Foto: Piqsels)

Um mesmo sentimento que está impedindo o eleitor de escolher um candidato perfeito talvez também bloqueie o entendimento do presente texto. Ou, aposto que tem cristão que tenha lido o título deste texto e já se sentido ofendido. Mas, vamos em frente porque Jesus, apesar de mal visto e imitado bem grosseiramente por falsos profetas, foi, é e continuará sendo Jesus, não olhou para ver quem lhe fazia sofrer em passos bem curtos pela via dolorosa. 

Tem muita coisa para escrever aqui. Meus sentimentos me atormentam a “descer a lenha”. Mas, seguindo o conselho daquele que se dominou para nos salvar (Jesus de novo) e nos deixou o espírito de domínio, me contento com o essencial esclarecimento ao leitor e eleitor consciente.

Só estou preocupado com o voto sentimental.

Pois bem. O assunto é o seguinte: um Presidente da República ou um síndico de condomínio não pode ser escolhido com o coração.

Geralmente, sentimentos não costumam ser nossos bons guias ou mentores intelectuais e morais. Mas, às vezes, quando falha a razão, a deusa iluminista da modernidade, temos que recorrer aos sentimentos, à fé. Santo Agostinho recomenda crer para entender (crede ut intelligas). Precisamos dar um salto no escuro, nos entregar à fé verdadeiramente, como aconselhava Kierkegaard.

Paulo Marcelo Schallenberger é o nome do pastor evangélico que defende o PT e Lula para vencer Bolsonaro na corrida presidencial, seu aparente discurso de ódio e sua aparente indiferença pela humanidade e pelo próximo (tudo aparência).

Nada mais emocionante e comovente escolher um candidato que se preocupa com os pobres e com a humanidade, não é?

A escolha de um candidato a algum cargo político não é mera questão de gosto pessoal, à semelhança de quem passeia e compra um sapato novo que, depois de tempo de uso, será jogado fora. Dizendo de outra forma, não é questão de gosto. É questão de pensamento.

Estamos vendo o sentimentalismo tomando conta dos corações e da política, de cidadãos com direito ao voto. É aí que tá! Parece que certos “anjos messiânicos”, os tais que dizem se importar com os cidadãos, não estão nem aí para quem não tem título eleitoral. Rasgue o seu título eleitoral na frente de um candidato deste tipo e veja se ele ainda continuará te bajulando.

As virtudes estão espalhadas por aí, dispersas. Cidadãos sentimentais com título eleitoral regular não conseguem distinguir entre amor e justiça na hora de decidir. Amor e justiça parece que não se combinam mais, se divorciaram. Eis um exemplo do caos em que estamos.

Como quase tudo que do cristianismo foi deturpado, o amor e a justiça cristãos também foram.

O desespero do populismo por um mundo melhor para todos não se compatibiliza com a pedagogia cristã do sofrimento, que tem como símbolo a espada.

Portanto, se eu pudesse recomendar algo, recomendaria, primeira coisa, dizer para si mesmo: eu sou forte! (pode ser bem baixinho, pra ninguém ouvir). Recomendaria, depois de ter dito isso, acordar cedo, arregaçar as mangas, arrumar o quarto e trabalhar. Esperar é para os fracos.

Mas isso ainda não é tudo. Mais ainda enfeitiçado pelo canto da sereia ou atingido pela flecha do maligno é o eleitor que vota sem consciência de seu amado candidato.

São duas coisas que me intrigam na cidadania brasileira. Uma é o tal do “voto obrigatório” na consciência do eleitor, aquele que fica obrigando a escolha de candidatos a respeito dos quais não se sabe nada além do nome, do número e do partido (e quando se sabe!) e de supostas boas intenções.

No Brasil, sabemos que o voto é obrigatório. Não que o eleitor seja obrigado a escolher um candidato. É que a sua presença é exigida para escolher entre votar válido (escolher candidato), votar em branco ou anular o voto.

Se me deixo levar pela onda de voto obrigatório, cego, no escuro, ou seja, em candidatos que mal conheço, não ajo com a razão. E isso me parece um tanto lógico.

Meu voto cego, no escuro, será mais uma nova desculpa para a corrupção ou para o estrago que for causado pelos gestores criminosos que foram escolhidos justamente por quem reclama dos crimes cometidos. Jogo a culpa nos outros, me vitimizo novamente, num círculo vicioso de miséria moral que não acaba.

E não é bem assim. Parece difícil de aceitar, mas o eleitor tem culpa ou, no mínimo, uma meaculpa nos resultados danosos na sua própria vida e na vida de tantos outros que aceitaram o tal do pacto social.

Logo, se tive que andar no escuro, que não seja na política. Que seja como Abraão que, sacrificando seu filho, escolheu Deus, seus valores, seus princípios e o candidato que mais se afina com estes critérios de fé pura e racional.

Repito, fé pura e racional.

E a outra coisa que me deixa mais ainda perplexo é o voto de cristãos em candidatos que defendem ideologias. A conversa mole acerca dos problemas sociais que eles dizem ter poder suficiente para erradicar (vejam bem, erradicar significa eliminar).

Ora, um bom critério político (de políticos e de eleitores para escolha de políticos) deveria ser o do pessimismo. Se menos candidatos falassem asneiras como eliminar algo que nunca será eliminado eles poderiam contar com um voto de confiança, porque a verdade convence mais do que a irrealidade.

Não sejamos sentimentais como certos pré-candidatos a cargos políticos que, às vésperas de eleições presidenciais, se jogam “de corpo e alma” em busca de almas perdidas dentro da igreja. É a caça do joio no meio do trigo.

A única coisa boa (sempre tem algo de bom) é que o joio se revela, permitindo a sua identificação no momento da ceifa, para que o trigo não seja queimado junto com o joio.

São efeitos colaterais, sequelas, de uma herança romântica no comportamento político contemporâneo.

Pensadores importantes falam em “constante romântica”. São filhos legítimos de Jean Jacques Rousseau, um filósofo político do século XVIII que amava utopias anticapitalistas, idealizava um lobo bom sacrificado pela sociedade no lugar do cordeiro de Deus e queria um mundo melhor fora da selva de pedra burguesa a partir de seus delírios políticos coletivistas. Claro que nem preciso explicar que suas fantasias eram anticristãs.

Esses eleitores que se vendem por moedas de prata são semelhantes à onda do mar. Impelidos pelo vento, naufragam na beira da praia, pra lá e pra cá. Eles também são como aqueles que não são nem quentes nem frios.

Indecisos na cabine de votação, a urna não espera. Estão prontos para serem lançados fora, não colherão os frutos de uma boa escolha racional.

De uma árvore que não seja boa não se colhe bons frutos.

Por Sergio Renato de Mello, defensor público de Santa Catarina, colunista do Jornal da Cidade Online e Instituto Burke Conservador, autor de obras jurídicas, cristão membro da Igreja Universal do Reino de Deus.

* O conteúdo do texto acima é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: A igreja precisa se politizar, urgente!

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