Lourenço Stelio Rega: " Pastor também é gente"

Lourenço Stelio Rega: " Pastor também é gente"

Atualizado: Terça-feira, 24 Maio de 2011 as 11:44

altHá pouco escrevi um artigo sobre os conflitos que podem surgir numa igreja, e que é possível nós pastores sermos também a causa deles. Muitas vezes podemos ir além do limite de nosso papel, ou podemos até não estarmos num bom momento de nossa história de vida, o que pode nos levar a ser a causa de conflitos entre as ovelhas. Apesar de pastores, somos como qualquer ser humano na face da terra: Imperfeitos. Somos também gente e não máquina de produção ou de perfeição. Aliás, até as máquinas falham e necessitam de ajustes.

Soube uma vez que um pastor assumiu o ministério de uma igreja e numa das primeiras reuniões com a liderança foi logo avisado que os honorários dele seriam calculados por produtividade. Como medir a produtividade de um pastor sério e cumpridor de seu papel de ovelheiro? Pelo aumento das receitas? Pelo controle das despesas? Pela quantidade de visitas feitas?

Pela quantidade de batismos num determinado período? Pela quantidade de atendimentos? Há pessoas que nem desejam que outros saibam que está num processo de aconselhamento. Como fazer, nessa ocasião, para computar a estatística no cálculo?

Numa outra ocasião um líder de uma igreja reclamou informando que o pastor morava numa casa que era muito boa. Eu logo lhe respondi que o pastor deveria morar na melhor casa que a igreja poderia abrigá-lo, para poder ter sossego e estar sempre preparado para cumprir o seu papel de cuidador das ovelhas e ter um modelo de moradia para os demais membros da igreja. No caso, eu conhecia a igreja, o líder e o colega pastor. Nesta igreja, especialmente, tenho tido o conhecimento que a data de vencimento do cada ministério pastoral não é tão longa. O interessante é que todos os pastores que de lá saíram ultimamente estão firmes há um bom tempo em outro ministério. Onde será que está a causa?

Um outro pastor recebeu do tesoureiro da igreja um maço de cheques que era para o pagamento de seu honorário. O pastor lhe indagou porque a tesouraria não tinha feito um cheque da igreja e o respectivo contracheque para o seu pagamento? O tesoureiro rapidamente respondeu: “Pastor, o que você pensa que a igreja é? Você acha que ela deve perder dinheiro com a CPMF?”. O pastor, meio aturdido, indagou novamente sobre o que deveria fazer se um cheque voltasse, e o tesoureiro prontamente respondeu que ele deveria trazer o cheque no domingo seguinte, pois se o emitente viesse poderia substituir o cheque. E se não viesse? Bom, essa parte o pastor não perguntou.

Tive também o conhecimento de uma situação na qual faleceu um pastor que estava enfermo. Cerca de 15 dias depois os líderes bateram na porta da casa pastoral para solicitar à viúva que desocupasse a moradia imediatamente. Pastor é gente, e sua família também.

Eu sei que pode até haver pastores que não conseguem realizar um bom trabalho, mas continuam a ser gente e necessitam ser tratados pelo menos como gente. Eu sei que há pastores autoritários, mas também são gente. Eu sei que há pastores cujo sermão nem sempre tem bom conteúdo. Tem pastor que é sanguíneo demais, mas também há coléricos, melancólicos e fleumáticos. Pode até haver pastor que sofre de alguma neurose. Enfim, todos são gente.

Já se passam 34 anos desde a minha consagração ao ministério. A maior parte vivi dividindo tempo entre o trabalho denominacional e o eclesiástico. Se não estava pastoreando, estava colaborando com o ministério de algum colega, em geral na área de educação. Sei que há comentários justos sobre a atitude de alguns pastores. Porém, transformar o pastor em sobremesa do almoço de todo o domingo, isso já é demais!

Seja como for o seu pastor, você já orou em favor dele hoje? Já tentou dialogar com ele procurando ajudá-lo como você gostaria de ser ajudado numa situação semelhante? E se ele não dá chance para isso, você já entregou a situação para Deus e pediu-Lhe para encontrar um momento e as palavras certas?

Um dia um jovem seminarista, líder em sua igreja, apareceu em meu escritório na Faculdade que dirijo e me pediu para ouvi-lo e aconselhá-lo, pois estava muito zangado com seu pastor por causa de algumas atitudes que ele estava tendo. Ele começou a se exaltar tanto sobre o assunto que, num determinado momento, me disse que o único caminho era o pastor sair imediatamente da igreja e deixá-los em paz. Eu perguntei de imediato a ele: “O pastor é casado? Tem filhos? Qual a idade deles?

A casa em que mora o pastor é da igreja ou é dele mesmo?”. Ao que ele me respondeu que ele era casado, tinha filhos, eram crianças em idade escolar e morava na casa pastoral da igreja. “Quer dizer que você deseja que o pastor saia da igreja nos próximos dias?”. Ele me respondeu que sim. Eu continuei: “Onde ele vai morar? E a sua esposa? Seus filhos, que já possuem um relacionamento na escola, como vão ficar? Eles terão de parar os estudos de uma hora para outra?”. O jovem quase deu um salto da cadeira e disse: “Professor, o que é isso? Eu não tinha pensado nestas coisas!”. Eu lhe disse que o pastor dele até poderia estar errado, e até ter sido inconveniente, mas ele era também gente, que sua esposa era gente e seus filhos eram gente e necessitavam pelo menos ser tratados como gente, e eles deveriam buscar um diálogo com aquele pastor e trabalhar mais na situação.

Não sei o que aconteceu depois, mas o espanto daquele jovem me deixou também espantado, pois, investindo grande parte do meu tempo na vida denominacional, tenho tido a oportunidade de me assentar ao lado dos membros da igreja e ouvi-los mais abertamente, e já vi repetidas vezes a mesma situação. Se há pastores que podem até manipular pessoas, há também líderes que até podem tratar o pastor como uma peça de descarte, sem a mínima preocupação dele como gente.

É certo que um pastor não pode tratar com autoritarismo, indelicadeza, omissão ou irresponsabilidade ao rebanho. Mas também a igreja não pode tratar o pastor como se fosse uma máquina, como se fosse alguém sem sentimentos, sem família, que não tem dor e é impermeável ao sofrimento. Afinal, pastor também é gente.

Portanto, deixo o meu recado tanto a pastores como a líderes e membros em geral da igreja: O diálogo é sempre o caminho. Se ele não for possível, a oração e a dependência de Deus são a avenida para a manutenção saudável da vida na igreja.

Por: LOURENÇO STELIO REGA Via CBB

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