MENU

Cristãos podem ser possuídos por demônios?

Cristãos podem ser possuídos por demônios?

Atualizado: Quinta-feira, 2 Setembro de 2010 as 7:54

RESUMO

O propósito do presente artigo é discutir (em 4 textos) do ponto de vista bíblico e teológico um dos assuntos mais polêmicos e controvertidos que existem no meio cristão, a saber, a possibilidade de um cristão genuíno ser possuído por demônios. Buscaremos analisar os pontos de vista favoráveis e contrários à possessão demoníaca de cristãos, bem como, os respectivos argumentos empregados por estas pessoas para legitimarem suas posições teológicas. Além disso, analisaremos alguns dos principais textos bíblicos que são utilizados por algumas pessoas como suporte para a sua crença na possessão demoníaca de cristãos. Por fim, definiremos a identidade do verdadeiro cristão e veremos de que forma isso contribui para o desfecho do nosso assunto.

INTRODUÇÃO

Uma das questões teológicas que mais tem gerado polêmica nos últimos tempos diz respeito à possibilidade ou não de cristãos serem possuídos por demônios. Em última análise, esse tipo de dúvida tem sido provocado ultimamente principalmente por ensinamentos oriundos do chamado movimento da “Batalha Espiritual”, segundo os quais a possessão demoníaca de cristãos é, não somente possível, mas também verificada na prática, isto é, é evidenciada na experiência cotidiana dessas pessoas.

A fim de que tenhamos um entendimento mais completo sobre o assunto, iremos ver, de forma geral, como se configura:

1) o pensamento daqueles que defendem a possibilidade da possessão demoníaca ocorrer em cristãos;

2) o pensamento daqueles que advogam a impossibilidade de cristãos ficarem endemoninhados;

3) o que alguns textos bíblicos têm a nos dizer sobre a suposta possessão demoníaca de cristãos;

4) a identidade do verdadeiro cristão diante de todas as situações aqui colocadas.

I - Cristãos podem ser possuídos por demônios

De acordo com um grupo de autores que inclui, por exemplo, Merrill F. Unger, Frank e Ida Mae Hammond, Hal Lindsey, Jessie Penn-Lewis, Rebecca Brown, Valnice Milhomens e Neuza Itioka, dentre outros, o cristão pode sim ficar possuído por demônios.

Bem, mas que argumentos em geral essas pessoas usam em favor de tal tipo de crença? É o que buscaremos compreender nas linhas que seguem.

a) Merrill Frederick Unger

O já falecido autor, Merrill Frederick Unger, em seu livro Biblical Demonology (Demonologia Bíblica) faz diferenciação entre “possessão demoníaca” e “influência demoníaca”. Neste livro, Unger advoga que somente os incrédulos estão sujeitos à possessão demoníaca. Vejamos as suas palavras:

Somente incrédulos estão expostos à possessão demoníaca; [Já] à influência demoníaca, tanto crentes quanto não crentes [estão sujeitos]. No primeiro caso, a personalidade é realmente invadida, o corpo habitado e o controle dominante é obtido; enquanto que no outro caso, o ataque é feito a partir de fora, através de pressão, sugestão e tentação. A própria natureza da salvação do crente, abrangendo a regeneração, a selagem, residência e o ministério cheio do Espírito Santo, colocando-o “em Cristo”, [o que é] eternamente e habilmente executado, é explicação suficiente porque ele [o crente] não é passível a habitação demoníaca. O incrédulo, contudo, está sob “o príncipe das potestades do ar, sob os espíritos que estão trabalhando agora nos filhos da desobediência (Ef 2.2, Weymouth), [conseqüentemente] é pela própria natureza da sua situação de presa a todo o poder satânico e malignidade demoníaca, [que o incrédulo fica sujeito ao ataque demoníaco] tanto de dentro quanto de fora.¹

Todavia, tempos mais tarde, ao ler várias cartas de missionários que relatavam supostos casos de possessão demoníaca ocorrendo em cristãos, Unger mudou de opinião e acabou admitindo então a possessão demoníaca em cristãos.

O próprio Unger declara: "Em Biblical Demonology (Demonologia Bíblica) [...] a [minha] posição tomada era de que apenas os incrédulos estão expostos ao endemoninhamento".

Porém, através dos anos, várias cartas e relatórios de casos de invasão demoníaca de crentes têm chegado a mim de missionários em várias partes do mundo. Como resultado, em meu estudo sobre a atual explosão do ocultismo, intitulado Demons in the World Today (Demônios no Mundo de Hoje) [...] a confissão é feita livremente de que a posição tomada no Biblical Demonology (Demonologia Bíblica) foi assim entendida, pois a Escritura não resolve claramente a questão.²

Devemos fazer, pelo menos, duas observações referentes a estas declarações feitas por Unger:

1) Unger resolve reavaliar a sua posição no que diz respeito à possibilidade da possessão demoníaca ocorrer em cristãos com base em “várias cartas e relatórios de casos de invasão demoníaca de crentes” que chegaram até ele através de “missionários em várias partes do mundo”. Ora, tais experiências relatadas são por demais subjetivas para servirem de base para uma fundamentação tal como esta.³

2) Além disso, ao dizer que “a Escritura não resolve claramente a questão” dos cristãos poderem ou não ficar endemoninhados, Unger acaba sendo contraditório. Ora, se as Escrituras não são claras com relação à possibilidade da possessão demoníaca ocorrer em cristãos, logo, como se pode dar crédito a tais “cartas e relatórios” que descrevem pretensas experiências de “invasão demoníaca de crentes”, as quais não possuem comprovação bíblica clara? Tal argumentação é deveras temerária.

b) Frank D. Hammond e Ida Mae Hammond

Além de Unger, o casal Frank D. Hammond e Ida Mae Hammond também defende a posição de que o cristão pode ficar possuído por demônios. Em seu livro que obteve muita popularidade aqui no Brasil, Porcos na Sala, eles dizem:

Neste livro, temos tomado a posição de que os crentes podem ser habitados por demônios. A explicação dessa possibilidade é principalmente baseada, tanto quanto eu possa determinar, num entendimento claro da diferença entre a alma e o espírito. A palavra do Novo Testamento para

“espírito” é “pneuma”. Em contraposição ao natural, o espírito é aquela parte do ser humano que tem a capacidade de alcançar e perceber as coisas divinas. [...] A palavra “alma” é “psiquê”. Ela significa as emoções, o intelecto e a vontade. [...] Disso vemos que o Espírito divino passa a habitar no espírito humano na hora da salvação. Os espíritos demoníacos estão relegados à alma e ao corpo do cristão. Os demônios afligem as emoções, a mente, a vontade e o corpo físico, mas não o espírito do cristão. A finalidade da libertação é tirar os demônios transgressores da alma e do corpo, a fim que Jesus Cristo possa reinar também sobre estas áreas. 4

Essa posição antropológico-teológica assumida pelo casal Hammond, segundo a qual o ser humano (e, mais particularmente, o cristão) é visto como um ser “tripartido” (composto de “partes” como: corpo, alma e espírito) e que assevera que a possessão demoníaca, quando ocorre no cristão, afeta apenas a sua alma e o seu corpo, mas não o seu espírito, é uma posição extremamente complicada, a qual também não encontra base na Bíblia.

c) Jessie Penn-Lewis

Entretanto, o casal Hammond não está sozinho em seu pensamento. A conhecida escritora do País de Gales, Jessie Penn-Lewis (1851-1927), também já defendia opinião parecida em sua época:

[...] um crente batizado no Espírito Santo e habitado por Deus no recôndito de seu espírito pode ser enganado e vir a admitir a entrada de espíritos malignos em seu ser e ser possuído, em diferentes níveis, por demônios, mesmo sendo em (sic!) seu interior um santuário do Espírito de Deus: Deus agindo em seu espírito e por meio dele e os espíritos malignos trabalhando em seu corpo e mente, ou em ambos, ou por meio deles.5

Ian Howard Marshall, ao comentar sobre a expressão “espírito, alma e corpo” encontrada em 1 Tessalonicenses 5.23, faz algumas observações que vão na contramão do pensamento defendido por Lewis (e também pelos Hammond) de que a alma e o corpo do cristão podem ser invadidos por demônios, mas não o seu espírito. Vejamos o que Marshall diz:

Paulo aqui distingue três aspectos da personalidade do cristão, sua vida em relação com Deus através da parte “espiritual” da sua natureza, da sua personalidade ou “alma”, e do corpo humano mediante o qual age e se expressa. As distinções [entre espírito, alma e corpo] são frouxas, e não sugerem três “partes” do homem que podem ser nitidamente separadas, mas, sim, três aspectos da sua existência. Paulo as alista juntas aqui para enfatizar que é realmente a pessoa inteira que é o objeto da salvação.

Essa compreensão antropológica integral do cristão esboçada por Marshall parece ser mais equilibrada e sensata, do ponto de vista bíblico, do que a antropologia fracionada defendida pelo casal Hammond e por Lewis. Aliás, para efeito de melhor compreensão, a proposta dos Hammond e de Lewis pode ser exemplificada pela figura abaixo:

d) Hal Lindsey

Já a opinião de Hal Lindsey sobre a possessão demoníaca de cristãos busca seguir uma posição de meio-termo. Lindsey diz:

[...] tenho falado a muitos missionários que tiveram que lidar pessoalmente com esses problemas [referentes à possessão demoníaca de cristãos], e devo dizer que parece possível a um cristão ter certo grau de possessão demoníaca.7

Mais adiante, Lindsey conclui o seu pensamento, dizendo que:

[...] um crente pode ficar possesso até certo ponto, embora apenas temporariamente e nunca de maneira tão completa como no caso de um nãocrente . 8

Esta posição de Lindsey que defende tanto uma graduação quanto uma diferenciação entre a possessão demoníaca ocorrida em um cristão e em um nãocristão simplesmente não encontra nenhum amparo nas Escrituras. Além disso, Lindsey também defende a sua tese sobre a possibilidade do endemoninhamento de cristãos na já citada base da experiência, que, como vimos, é uma base muito subjetiva e frágil.

e) Rebecca Brown

A ex-médica Rebecca Brown, quem fez e ainda faz muito sucesso no meio do Movimento da Batalha Espiritual, principalmente aqui no Brasil, assim escreve sobre a possibilidade de um cristão ficar endemoninhado:

A Bíblia deixa bem claro que qualquer envolvimento com Satanás abre uma porta na vida da pessoa, deixando-a exposta à influência, poder ou infestação [possessão] demoníaca. Seja ela crente ou não. 9

O que chama a atenção nesta declaração, além da autora admitir a possessão demoníaca de crentes, é o fato de Rebecca dizer que o crente (verdadeiro?) pode ter algum “envolvimento com Satanás”! Acredito que se uma pessoa está “envolvida com Satanás” ela pode receber qualquer outro nome, menos o de “crente” ou “cristã”. Isto significa que a compreensão que a autora tem do significado de “crente” não se coaduna com aquilo que a Bíblia relata a esse respeito.

f) Valnice Milhomens

A líder da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, apóstola Valnice Milhomens, afirma o seguinte com respeito à possessão demoníaca de cristãos:

[...] o fato de o nosso corpo ter-se tornado o templo do Espírito Santo não quer dizer que jamais poderá ser ocupado por maus espíritos. [...] Todos quantos se envolvem no ministério de libertação testemunham a manifestação de demônios em cristãos. 10

Vemos aqui, novamente, a imensa importância que é dada à experiência pessoal em detrimento do que as Escrituras têm a dizer (se é que têm algo a falar) sobre a possessão demoníaca em cristãos. Observa-se, pois, que o “testemunho” daqueles que se envolvem no ministério de libertação acaba adquirindo contornos de autoridade, chegando, inclusive, a sobrepujar a autoridade escriturística.

g) Neuza Itioka

Finalmente, outra importante defensora da possibilidade do endemoninhamento ocorrer em cristãos é a Dra. Neuza Itioka. Em seu famoso livro, Os Deuses da Umbanda, Itioka diz o seguinte:

[...] haverá a possibilidade de um cristão sincero ser endemoninhado? [...] A conversão, a sujeição a Jesus Cristo, não afugentaria automaticamente todos os demônios? De acordo com a nossa teologia, duas entidades, isto é, o Espírito Santo e o espírito maligno não podem residir no mesmo corpo. Na prática, porém, parece que estamos verificando mais e mais o contrário. Pessoas que se submeteram a Jesus Cristo têm sofrido a invasão de demônios; ou pessoas que se entregaram a Jesus Cristo e que não passaram pela libertação dos espíritos continuam sendo moradas deles.11

Mais adiante, Itioka, ao tentar explicar como se dá essa possessão demoníaca em cristãos, faz uma afirmação deveras confusa e contraditória a esse respeito:

Por um lado, devemos evitar a palavra “possessão” para não dar a impressão de que os demônios tomam posse da pessoa, com o sentido de se assenhorear da sua vida. Por outro lado, não devemos equacionar o lugar do Espírito Santo com o que os espíritos podem ocupar na vida dos cristãos. Cristo está no centro da vida do cristão, mas certas áreas da sua vida podem estar sob o domínio de espíritos.12

Além de não ser bíblico, esse tipo de pensamento esboçado pela autora é bastante complicado e confuso. Tento imaginar como Cristo pode ser o “centro” da vida de um cristão, ao mesmo tempo em que certas áreas da sua vida podem estar “dominadas” pelos espíritos?! É muito difícil (para não dizer “impossível”) tentar harmonizar tal declaração.

Bem, depois de termos visto brevemente quem são e o que pensam alguns dos principais defensores da possibilidade da possessão demoníaca ocorrer em cristãos, vejamos agora no próximo texto o que pensam aqueles que possuem uma opinião contrária às já citadas anteriormente.

1 UNGER, Merrill F. Biblical Demonology: a study of the spiritual forces behind the present world unrest. Wheaton, Scripture Press Publications, Inc., 1952, p.100. Os acréscimos entre colchetes são meus.

2 UNGER, Merrill F. What Demons Can Do to Saints. Chicago, Moody Press, 1977, pp.69,70. O acréscimo entre colchetes é meu.

3 Walter A. Henrichsen em seu pequeno, mas importante livro sobre hermenêutica, faz um comentário relevante sobre a relação entre as nossas experiências pessoais e a Bíblia: “As suas experiências pessoais – sejam quais forem – devem ser conduzidas às Escrituras e interpretadas. Nunca o caminho inverso. ‘Porque tive esta experiência, o que se segue tem de ser verdade’ não é sadio procedimento na interpretação da Bíblia”. (Cf. HENRICHSEN, Walter A. Princípios de Interpretação da Bíblia. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1989, p.20).

4 HAMMOND, Frank D. & HAMMOND, Ida Mae. Porcos na Sala. São Paulo, Bompastor Editora, 2000, pp.175,176. Os itálicos são meus.

5 LEWIS, Jessie Penn. Guerra Contra os Santos. São Paulo, Editora dos Clássicos, 2001, p.169.

6 MARSHALL, I. Howard. I e II Tessalonicenses. São Paulo, Edições Vida Nova / Editora Mundo Cristão, 1983, p.194. Os acréscimos entre colchetes são meus.

7 LINDSEY, Hal. Satanás está Vivo e Ativo no Planeta Terra. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1997, pp.143,144. Os acréscimos entre colchetes são meus. pneu/ma = espírito (pode captar as coisas divinas). Os demônios não podem possuir yuch. = alma (emoções, intelecto e vontade). Os demônios podem possuir sw/ma = corpo (meio de contato com o mundo). Os demônios podem possuir

8 LINDSEY, Hal. Satanás está Vivo e Ativo no Planeta Terra, p.145.

9 BROWN, Rebecca. Ele Veio para Libertar os Cativos. Belo Horizonte, Dynamus Editorial, 2000, p.105. O acréscimo entre colchetes é meu.

10 MILHOMENS, Valnice. Batalha Espiritual. (Apostila). São Paulo, Palavra da Fé Produções, 1993, p.53.

11 ITIOKA, Neuza. Os Deuses da Umbanda. São Paulo, ABU Editora, 1988, pp.188,189.

12 Idem, Ibidem, p.190.

Carlos Augusto Vailatti   é Bacharel em Teologia pelo IBES - Instituto Betel de Ensino Superior (SP) e Mestre em Teologia (Th.M.), com especialização em Teologia Bíblica, pelo STSC - Seminário Teológico Servo de Cristo (SP). Além disso, é também professor de diversas disciplinas bíblico-teológicas. É casado com Noeli Guimarães Vailatti.

Contato:

Blog:   blogdovailatti.blogspot.com

Email:   [email protected]

veja também