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Textos bíblicos que supostamente mostram a possessão demoníaca de cristãos

Textos bíblicos que supostamente mostram a possessão demoníaca de cristãos

Atualizado: Sexta-feira, 17 Setembro de 2010 as 9:04

Existem alguns textos bíblicos que são usados por aqueles que defendem a crença na possessão demoníaca de cristãos. Portanto, veremos quais são os principais textos que são usados para corroborar tal idéia e os analisaremos a fim de entender se eles realmente nos permitem chegar a tal conclusão.

a) Saul

No Antigo Testamento, um dos textos mais utilizados com esse intuito se encontra na perícope de 1 Sm 16.14-23, a qual parece descrever a possessão demoníaca de Saul. Como uma análise detalhada desse texto foge do objetivo proposto por esse breve artigo, me deterei apenas em alguns detalhes extraídos do verso 23, começando pelo seu original em hebraico.

O texto do Antigo Testamento que citaremos a seguir é o do Códice de Leningrado B19A (L), que é um dos mais completos e antigos manuscritos do texto massorético da Bíblia Hebraica (= Antigo Testamento). Aliás, segundo Gérard E. Weil, o Códice L continua sendo “o mais antigo manuscrito do texto completo da Bíblia Hebraica de data conhecida”.20 Além disso, esse manuscrito é visto atualmente como o mais confiável da Bíblia Hebraica tanto por eruditos judeus quanto por eruditos cristãos. Esse texto, juntamente com a massorá e o aparato crítico, aparecem publicados na chamada Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS), que é a edição da Bíblia Hebraica mais usada pelos eruditos e estudiosos na atualidade.

E sucedia quando estava o Espírito de Deus sobre Saul que tomava Davi a harpa e a tocava com a sua mão e alívio para Saul e bem para ele (havia) e se retirava de sobre ele o espírito mal.

Além da Bíblia Hebraica, notemos como a conhecida tradução grega do Antigo Testamento hebraico, datada do III século a.C., a Septuaginta (LXX),22 traduz 1 Samuel 16.23:

E acontecia (que) estando um espírito mal sobre Saul que tomava Davi a harpa e a tocava com a sua mão e reanimava Saul e bom ele (ficava) e afastava-se dele o espírito mal.

Finalmente, citemos também 1 Samuel 16.23 de acordo com a Vulgata,23 a tradução latina do Antigo Testamento hebraico, datada aproximadamente do IV século d.C., feita por São Jerônimo: igitur quandocumque spiritus Dei arripiebat Saul tollebat David citharam et percutiebat manu sua et refocilabatur Saul et levius habebat recedebat enim ab eo spiritus malus

Então sempre que o Espírito de Deus se apossava de Saul tomava Davi a cítara e a tocava (com) a sua mão e se aliviava Saul e ficava calmo pois se retirava dele o espírito mal .

Algumas observações devem ser feitas com relação a estas três versões bíblicas:

Em primeiro lugar, devemos notar que não há consenso entre as três versões sobre a identidade de quem está agindo primeiramente em Saul. A BHS e a Vulgata dizem que é o “Espírito de Deus”. Já a LXX declara que é o “espíritomal”. Nesse caso, como podemos então resolver essa questão? Proponho algumas soluções:

1) Do ponto de vista da lógica, da coerência e do bom senso, a LXX é a versão mais correta, pois, segundo ela, o “espírito mal” que estava sobre Saul (linha 1) é o mesmo que “afastava-se dele” (linha 4), quando “tomava Davi a harpa e a tocava” (linha 2). Tal prática (exorcística?) fazia com que Saul ficasse reanimado e se sentisse melhor (linha 3). Além do mais, a LXX não menciona que o tal “espírito mal” é proveniente de Deus, o que evita um embaraço teológico. Entretanto, embora este ponto de vista seja o mais coerente em seu todo, deve-se fazer, todavia, uma ressalva quanto ao método empregado por Davi para afugentar o espírito mal. Em nenhuma outra parte das Escrituras vemos alguém exorcizar um espírito mal através do toque de uma harpa.24

2) Segundo o ponto de vista cronológico, não se pode ignorar que a BHS retrata o texto original em hebraico, o qual é, por sua vez, o texto mais antigo. Contudo, nos deparamos com uma dificuldade especial ao analisarmos 1 Samuel 16.23 segundo a Bíblia Hebraica. O texto hebraico diz primeiramente que o “Espírito de Deus” estava sobre Saul (linha 1). Porém, depois, o texto parece identificar o “Espírito de Deus” com o “espírito mal” (linha 4)! Afinal, quem é que está sobre Saul, o Espírito de Deus ou o espírito mal? Como podemos harmonizar uma declaração tão discrepante quanto esta? A solução para esta questão pode ser encontrada no início da perícope, em 1 Samuel 16.14, onde lemos no texto hebraico: “E o Espírito do Senhor se desviou / se retirou) de Saul, aterrorizava) (um espírito mal) proveniente do Senhor”. Em outras palavras, não é o “Espírito do Senhor” quem está sobre Saul conforme o v.23, mas sim “um espírito mal proveniente do Senhor”, de acordo com o v.14. Ou seja, o v.23 deve ser interpretado à luz de seu contexto imediato e, mais particularmente ainda, à luz do v.14. Provavelmente, o copista, ao escrever o v.23, por algum deslize esqueceu de inserir no texto o adjetivo, “mal” e a preposição m}A}T, “proveniente de, da parte de, de”, os quais aparecem juntos no v.14. Se tivesse feito isso, então o resultado seria: “E sucedia quando estava o espírito mal proveniente de Deus sobre Saul, que tomava Davi a harpa e a tocava com a sua mão; e alívio para Saul e bem para ele (havia), e se retirava de sobre ele o espírito mal”.25

Entretanto, nos deparamos com outro problema aqui. Como podemos explicar a frase: “o espírito mal proveniente de Deus”? Bem, a religião monoteísta israelita foi a grande responsável por forjar um conceito ambivalente de Deus. Isto é, “se há um único Deus, então tanto o bem como o mal (neste caso, o ‘espírito maligno’) só podem vir dele”.26

3) O aparato crítico da BHS também nos ajuda a compreendermos melhor 1 Samuel 16.23. Segundo essa ferramenta exegética, lingüística e teológica, vários manuscritos hebraicos medievais trazem (espírito mal) no lugar de “Deus” (“Espírito de Deus"), fazendo referência ao fato de que era o “espírito mal” que agia na vida de Saul. Além da LXX, a BHS cita também o Targum de Ônquelos (completado aproximadamente no V século), o qual também adota tal expressão.27

Tendo como base estes breves, mas necessários apontamentos sobre 1 Samuel 16.23, além das informações extraídas do contexto bíblico mais amplo sobre Saul, podemos chegar a algumas conclusões referentes ao nosso tema acerca da possibilidade de cristãos genuínos serem possuídos por demônios: a) O texto de 1 Sm 16.23, juntamente com outros textos (cf. 1 Sm 18.10; 19.9,10) parece descrever, de fato, o que podemos chamar de “possessão demoníaca” de Saul.

b) Apesar disso, seria um erro grosseiro e anacrônico chamar Saul de “cristão”;

c) Deve ser dito ainda que em nenhum outro lugar das Escrituras vemos alguém praticar algum exorcismo com um instrumento musical ou com a música.

d) Some-se a isso, por fim, o seguinte fato: a Bíblia Hebraica em momento algum descreve Saul como um modelo de pessoa “temente a Deus”, ou “piedosa” e, portanto, “crente”. Muito pelo contrário, o Antigo Testamento descreve Saul como alguém que: foi desobediente a Deus (1

Sm 13.13,14; 1 Sm 15.16-28); foi escolhido como rei pelos homens, e não por Deus, ao contrário do que ocorreu com Davi (compare: 1 Sm 8.1-8 com 1 Sm 16.1-13); viveu cheio de ira e de inveja com relação a Davi (1 Sm 18. 7-17; 19.1-24; 24.1-22; 26.1-25); procurou uma feiticeira, a fim de poder consultá-la (1 Sm 28.1-25) e, por fim, se suicidou (1 Sm 31.4).

Diante desses fatos, dificilmente poderíamos chamar Saul de homem “temente a Deus” ou “piedoso”.

Concluindo, não podemos afirmar que Saul era “temente a Deus” e, muito menos, que era “cristão”. Todavia, de acordo com o que vimos acima, ele ficou, de fato, possuído por um espírito maligno algumas vezes. Saindo do Antigo Testamento e indo em direção ao Novo Testamento, encontraremos mais algumas personagens bíblicas que, de acordo com alguns, eram cristãs, mas foram possuídas por demônios. Vejamos quem são estas pessoas mais de perto:

b) Judas Iscariotes

Ao falar sobre Judas, as Escrituras dizem o seguinte: “Entrou (Eivsh/lqen), porém, Satanás em (eivj) Judas […]” (Lc 22.3) e “entrou naquele (eivsh/lqen eivj evkei/non) [isto é, em Judas] Satanás” (Jo 13.27).28 Nestes dois textos encontramos o verbo eivsh/lqen, “entrou”, de eivse,rcomai, “ir ou vir para dentro ou em; entrar”.29 Além disso, encontramos também nas duas passagens a preposição eivj, “em, para, em direção a, no meio de”.30 Embora tais vocábulos não sejam os convencionalmente usados para se referir a uma possessão demoníaca no NT, todavia, os textos dão a entender realmente que Judas estava possuído, não por demônios, mas pelo próprio Satanás, o que é um acontecimento sui generis em toda a Bíblia. Bem, pelo que acabamos de ler, Judas experimentou mesmo uma possessão satânica. Porém, será que podemos dizer que Judas era “cristão”?31

Embora Judas fosse um dos doze discípulos (Mt 10.1-4; Mc 3.13-19; Lc 6.12-16) e tivesse recebido poder de Jesus para expulsar demônios e curar doentes (cf. Mt 10.1ss; Mc 3.13-15), contudo, o próprio Jesus havia feito uma severa advertência quanto ao fato de que muitos “praticantes da iniqüidade” profetizariam, expulsariam demônios e fariam muitas maravilhas (Mt 7.21-23). Além disso, Judas é chamado pelo apóstolo João de kle,pthj, isto é, “ladrão” (Jo 12.6) e Jesus diz que Judas é um dia,bolo,j, “diabo” (Jo 6.70). Diante disso tudo, acho extremamente difícil dizer que Judas era “cristão” ou que ele era um verdadeiro seguidor de Jesus.

c) Pedro

Há também quem pense que Pedro tenha ficado possuído por demônio ou, no presente caso, pelo próprio Satanás, quando Jesus se dirige a ele nos seguintes termos: {Upage ovpi,sw mou( Satana/, ou seja, “Vai para trás de mim, Satanás!” (Mt 16.23). Todavia, esse texto não descreve a possessão demoníaca ou satânica de Pedro, mas sim a sua carnalidade, pelo fato de ter se oposto à crucificação de Jesus (Mt 16.21,22), o que faz dele um adversário (“Satanás!” ) nesta situação.32

d) Ananias e Safira

Por fim, há quem diga com veemência que a perícope de Atos 5.1-11 também registra um caso de possessão demoníaca de um cristão. Neste caso, por exemplo, Ananias, o marido de Safira, seria o endemoninhado.

A fim de comprovarem a sua tese, os defensores da crença na possibilidade da possessão demoníaca ocorrer em cristãos alegam que Ananias e Safira eram um casal de cristãos e que as palavras de Pedro dirigidas a Ananias: “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração?” (At 5.3) significam que Ananias estava endemoninhado. Ora, analisemos o verbo evplh, rwsen (“encheu”) com maiores detalhes. Tal vocábulo é derivado do verbo grego plhro,w, “fazer pleno, preencher, encher ”.33 Segundo Marshall, “a ação de Ananias é atribuída à inspiração de Satanás [...]. A expressão encheu o teu coração talvez represente uma expressão idiomática que significa ‘levou-te a ousar’[…]”.34

Sendo assim, Satanás, ao “encher” o coração de Ananias, estava, na verdade, influenciando-o e inspirando-o a mentir com relação à quantia que ele depositaria aos pés dos apóstolos, a qual era oriunda da venda de uma propriedade que lhe pertencia (At 5.1,2). Porém, Satanás apenas inspirou Ananias a mentir aos apóstolos. Ananias não foi possuído por ele. Aliás, se Satanás ou algum demônio estivesse mesmo possuindo a Ananias naquele momento, Pedro o teria expulsado dele, pois o discernimento espiritual que Pedro demonstrou ter com relação à mentira de Ananias e Safira (At 5.1-4) era o mesmo discernimento espiritual que ele tinha (acompanhado do poder que lhe fora outorgado por Jesus), por exemplo, para expulsar demônios (cf. Mt 10.1-4; Mc 3.13-16ss).

Portanto, concluímos o nosso breve comentário sobre Ananias dizendo que o Novo Testamento não nos permite afirmar que ele foi possuído por demônios ou por Satanás, embora ele parecesse ser de fato cristão e tivesse sido influenciado por Satanás no trágico episódio que acabou custando a sua vida e a de sua esposa (cf. At 5.5-10).

20 WEIL, Gérard E. In: FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica: introdução ao texto massorético. São Paulo, Edições Vida Nova, 2003, p.25.

21 Baseio-me em: ELLIGER, K. & RUDOLPH, W. (Eds.). Bíblia Hebraica Stuttgartensia. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.

22 Baseio-me em: RAHLFS, Alfred. Septuaginta. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1979.

23 Baseio-me em: JÁNOS II, Pal. Nova Vulgata Bibliorum Sacrorum Editio. Vaticano. Libreria Editrice Vaticana, 1979.

24 Aliás, as notas musicais “mágicas” extraídas da harpa de Davi encontram eco na saga mitológica de Orfeu. Segundo Bulfinch: “Orfeu, filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu de seu pai, como presente, uma lira e aprendeu a tocar com tal perfeição que nada podia resistir ao encanto de sua música. Não somente os mortais, seus semelhantes, mas os animais abrandavam-se aos seus acordes e reuniam-se em torno dele, em transe, perdendo sua ferocidade. As próprias árvores eram sensíveis ao encanto, e até os rochedos. As árvores ajuntavam-se ao redor de Orfeu e as rochas perdiam algo de sua dureza, amaciadas pelas notas de sua lira”. (Cf. BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro, 1999, p.224).

25 É isso, por exemplo, o que fazem as versões “corrigida” e “atualizada” de João Ferreira de Almeida, ao traduzirem 1 Samuel 16.23.

26 VAILATTI, Carlos Augusto. Legião é o Meu Nome: uma análise exegética, hermenêutica e histórica de Mc 5.1-20. Dissertação de Mestrado em Teologia não publicada, São Paulo, Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC), 2009, p.58.

27 Cf. ELLIGER, K. & RUDOLPH, W. (Eds.). Bíblia Hebraica Stuttgartensia, p.474.                                                           

32 Cf. ALFORD, Henry. The Greek Testament. Vol.I. (The Four Gospels). Chicago, Moody Press, 1968, p.175.

28 Baseio-me em: ALAND, Barbara, ALAND, Kurt, KARAVIDOPOULOS, Johannes, MARTINI, Carlo M. & METZGER, Bruce M. The Greek New Testament. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 2005.

29 THAYER, Joseph Henry. A Greek-English Lexicon of the New Testament. Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1976, p.187.

30 Idem, Ibidem, p.183.

31 Cabe lembrar aqui, antes de tudo, que os discípulos só são chamados pela primeira vez de “cristãos” mais tarde em Antioquia (At 11.26).

33 THAYER, Joseph Henry. A Greek-English Lexicon of the New Testament, p.517.

34 MARSHALL, I. Howard. Atos: introdução e comentário. São Paulo, Edições Vida Nova / Editora Mundo Cristão, 1991, p.109. O primeiro itálico é meu.

Carlos Augusto Vailatti   é Bacharel em Teologia pelo IBES - Instituto Betel de Ensino Superior (SP) e Mestre em Teologia (Th.M.), com especialização em Teologia Bíblica, pelo STSC - Seminário Teológico Servo de Cristo (SP). Além disso, é também professor de diversas disciplinas bíblico-teológicas. É casado com Noeli Guimarães Vailatti.

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