Esse homem sem sombra

Esse homem sem sombra

Atualizado: Quarta-feira, 1 Setembro de 2010 as 10:20

Será que poderíamos desenhar o perfil do homem pós-moderno? Ou querendo explicar: Por que a definição desses perfis é tão multifacetada, descentralizada, disforme e, ainda, como diria o vulgo, é tão “sem eira e sem beira”?

Não há como abordar um tema tão subjetivo e abrangente sem ser relativista e despluralizado, tal é a inconsistência da construção de regras e modelos que a própria sociedade tem criado: O mundo construído de objetos duráveis, substituído pelo o de produtos disponíveis, projetados para sua imediata absolescência; um mundo em que as regras são mudadas num instante para, um pouco depois as mesmas regras descartadas – e quando não outras – se tornam definitivas no resultado final do jogo da vida, indo e voltando a partir de movimentos inconstantes, até não saber mais quando.

Destes questionamentos tão leves quanto a “insustentável leveza do ser” é que o homem pós-moderno se vê às voltas com sua identidade: Sua angústia se intensifica quando nesse vai e vem se vê desconhecido de si mesmo, e o pior, sem saber de onde partir para chegar no seu si-mesmo; ou quando não, encontrar um pressuposto ontológico exatamente de acordo com as regras que constituem o alicerce da natureza fissípara das suas relações objetais. Nesse ponto de nossa história sem história para contar, no que já envelheceu antes mesmo de ser bem-nascida é que surge a identidade desse próprio homem, ou seja, os vínculos com as pessoas e coisas que desenham sua identidade se lhe surgem como espelhos voláteis e distorcidos que determinam a sua cognição a seguinte pergunta: “que cara tenho” desde que o que permanece depois daquilo que o constituiu, não existir mais? Daí a identidade do homem pós-moderno ser constantemente precoce e inevitavelmente descartável.

Dessa relação sem a interface da face que dá contornos a identidade, nasce o seu desinteresse de se arregimentar para novos projetos e realizações pessoais. Qualquer tentativa do novo torna-se, nesse caso, frágil e errátil. Como pode alguém investir em algo que hoje é crédito e amanhã será débito? Como investir em um relacionamento com alguém que não se consegue levar “dentro” depois de um encontro, por não ter esse alguém algo com que esse homem pós-moderno se identifique permanentemente? Viver, relacionar, decidir, criar não passa de um ato inócuo como trocar uma roupa esportiva por uma social. Por ser sazonal, o que permanece é o vazio da identidade de quem esse homem é – pois alguém só é em relação a pessoas ou a objetos.

Não é de se surpreender, pois, encontrar esse homem sem fascínio, encanto ou sem projetos que o identifique como agente que não somente lê história, mas que na verdade deveria construí-la. Daí porquê as relações serem voláteis, os projetos de curto prazo e as verdades relativas, enfim, convive com essa proibição tácita, com tudo poderosa de relacionar o passado com o futuro. O homem do presente é de uma cronologia sem sequencia, o que se reverte na sua não-história; sua identidade é translúcida e efêmera no seu mundo curto e sem fronteiras; ele é do presente continuo, ou de um tempo que não estrutura o espaço; do tempo que não há como ir pra frente ou pra trás.

A perpetuação do tempo contínuo se mostra mais claro quando a sociedade do lazer procurar roubar desse homem o privilégio de ser triste, de chorar, de adoecer, e de morrer; quando a indústria da beleza promete a fonte da juventude continua escancarada nos rostos esticados e sem rugas; quando a máquina do consumo não permite a purificação do organismo ao se encontrar em um estado de jejum ou depuração (como se uma “pitada” desses “venenos” não o curasse de muito outros males de que hoje ele padece).

Aqui chegamos a um outro corolário: O homem não somente cria sua identidade na relação com pessoas e coisas como também cria-a dentro do tempo e do espaço, por assim dizer, a identidade é desenhada e reconhecida na força do tempo e através de momentos histórico - espaciais. Assim: Toda identidade também é constituída no fato. Portanto, o eixo da estratégia pós-moderna não é fazer a identidade deter-se, mas evitar que se fixe.

Na verdade – e de verdade – o tempo passa, mas como ele passa é sem um propósito definido. Não vai “para”, só vai; seus movimentos parecem aleatórios, dispersos e destituídos de uma direção bem delineada, uma direção acumulativa e expansiva. Assim, quando o tempo se move não se sabe se vai pra frente ou pra trás, ou se o movimento é progressivo ou regressivo. Qualquer movimento é um cripto-movimento por não ser hipostático.

Gosto da oração de Moises: “...ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio”, ou seja, que cada minuto no tempo não se desperdice no vazio despedaçado de desespero humano; que cada fato seja relacional, interativo, construtivo e, que, harmonize de tal forma o humano na relação com as coisas, com as pessoas e com o sagrado que esse homem brote novo e divinizado - feito à semelhança de Cristo.

Rev.   Cícero Brasil Ferraz   é psicanalista, formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pastor da Igreja Presbieriana de Vila Maria, em São Paulo (SP)

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